TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 3ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) -0800318-90.2021.8.18.0048
Origem: Vara Ùnica de Demerval Lobão (PI)
APELANTE: SEGURADORA LIDER DO CONSORCIO DO SEGURO DPVAT SA
REPRESENTANTE: SEGURADORA LIDER DO CONSORCIO DO SEGURO DPVAT SA
Advogado do(a) APELANTE: LARISSA ALVES DE SOUZA RODRIGUES - PI16071-A
APELADO: ISABEL PEREIRA DA SILVA
Advogado do(a) APELADO: FRANCISCO ROBERTO MENDES OLIVEIRA - PI7459-A
RELATOR(A): Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS
EMENTA
1. A controvérsia dos autos reside em definir o valor devido de indenização relativa ao seguro obrigatório "DPVAT".
2. Compete anotar que o seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores (DPVAT) foi regulamentado pela Lei nº 6.194/74, modificada pela Lei nº 8.441/92 e pela Medida Provisória nº 340/2006, convertida, posteriormente, na Lei 11.482/2007.
3. A Lei 6.194/74 (que dispõe sobre Seguro Obrigatório de Danos Pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não) prevê pagamento de indenização decorrente do seguro obrigatório nos casos de morte, invalidez permanente e despesas de assistência médica.
4. Na espécie, resta incontroverso a ocorrência do acidente automobilístico, do qual foi vítima a parte autora/recorrida, conforme boletim de ocorrência, declaração de internação e laudo médico.
5. No caso dos autos, está legitimada hermeneuticamente a fixação da indenização no valor fixado na sentença, pois a invalidez se revela grave a ponto de comprometer a autonomia pessoal da vítima, inclusive de caráter laboral, conforme respostas aos quesitos reproduzidas no laudo, principalmente na profissão declarada pelo recorrido (lavradora) onde a mobilidade total mostrava-se imprescindível.
6. Assim, da observação do caminho trilhado pelo magistrado na sentença, constatada a adequação em relação ao disposto no artigo 3º, §1º, I, e §2º da Lei n. 6.194/74, não vislumbro necessidade de qualquer correção na fixação do valor indenizatório.
7. Acordam os componentes da 3ª Câmara Especializada Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, à unanimidade, em conhecer do presente recurso e negar-lhe provimento. Deixam de arbitrar honorários recursais, pois já fixados no percentual máximo na sentença (20% sobre o valor da condenação), na forma do voto do Relator. Participaram do julgamento os Exmos. Srs.: Des. Ricardo Gentil Eulálio Dantas, Dr. Dioclécio Sousa da Silva (Juiz convocado – Portaria nº 2149/2022) e Dra. Lucicleide Pereira Belo (Juíza designada). Ausente justificadamente: Exmo. Sr. Des. Olímpio José Passos Galvão. Com a assistência da Exma. Sra. Dra. Martha Celina de Oliveira Nunes, Procuradora de Justiça. SALA DAS SESSÕES DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, Teresina, data registrada no sistema.
I – RELATÓRIO
O SENHOR DESEMBARGADOR RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS (Relator):
Trata-se de RECURSO DE APELAÇÃO interposto por SEGURADORA LIDER DOS CONSORCIOS DO SEGURO DPVAT S/A. requerendo a reforma da sentença do JUÍZO DA VARA ÚNICA DE DEMERVAL LOBÃO (PI) que julgou procedentes os pedidos formulados na AÇÃO DE COBRANÇA formulado por ISABEL PEREIRA DA SILVA., condenando a Apelante ao pagamento de R$ R$ 6.243,75(seis mil duzentos e quarenta e três reais e setenta e cinco centavos), diminuído o valor já recebido administrativamente e ao pagamento das custas e honora´rios fixados em 20% sobre o valor da condenação.
Fundamenta o pedido de reforma da sentença afirmando que , a parte autora já recebeu administrativamente o montante de R$ 3.375,00 (três mil e trezentos e setenta e cinco reais) a título de indenização depevatária pela lesão sofrida em decorrência do acidente de trânsito, nos moldes do Art. 3º, § 1º, inciso I e II, da lei 6.194/74 e, de acordo com a tabela legal.
Argumenta que o Nobre Magistrado “a quo”, em sua decisão, aplicou de forma equivocada o valor indenizatório sobre a lesão constatada pois considerou que a parte sofreu debilidade NO MEMBRO INFERIOR ESQUERDO E NO JOELHO ESQUERDO, entendendo que teria direito a receber o valor correspondente a soma das duas lesões, o que não se concorda, pois o é notadamente reconhecido que o joelho faz parte do membro inferior, não podendo haver dupla condenação.
Esclarece que as alterações introduzidas pela Lei 11.945/2009, implicam na aplicação de indenização, conforme o GRAU DE INVALIDEZ e a REPERCUSSÃO DAS LESÕES, isto é, reduzidas em 75% (setenta e cinco por cento) se a invalidez for incompleta, com perdas de repercussão INTENSA, e em 50% (cinquenta por cento), 25% (vinte e cinco por cento) e 10% (dez por cento), se a perda for MÉDIA, LEVE OU RESIDUAL, respectivamente, nos termos do art. 3º, §1º, II, da referida Lei.
Aduz que, no caso em tela, o autor se submeteu ao exame do IML e destaca-se que, tal avaliação médica apontou que a lesão sofrida pelo requerente é no seu MEMBRO INFERIOR, com repercussão foi INTENSA (75%) E JOELHO ESQUERDO, com repercussão INTENSA (75%) o que de acordo com a tabela instituída pela lei 11.945/2009, tem valor indenizável de R$ 7.087,50 (sete mil e oitenta e sete reais e cinquenta centavos) e R$2.531,25 (dois mil quinhentos e trinta e um reais e vinte e cinco centavos)
Sustenta que o joelho faz parte do mesmo segmento corporal que o membro inferior, nesse sentido, não pode ser aplicado ao caso em comento indenização correspondente as duas lesões, sendo que é evidente que a debilidade no MEMBRO INFERIOR REPERCUTIU NO JOELHO, nesse sentido, ao aplicar a tabela legal, deve-se considerar o montante devido SOMENTE NO MEMBRO INFERIOR ESQUERDO, em grau INTENSO (75%), que corresponde ao montante de R$ 7.087,50 (SETE MIL E OITENTA E SETE REAIS E CINQUENTA CENTAVOS).
Com essas razões recursais, ao final requereu provimento ao presente Recurso de Apelação interposto, com fito de reconhecer o equívoco do magistrado na aplicação do valor da condenação, aplicando somente a lesão no MEBRO INFERIOR ESQUERDO de grau INTENSO (75%) e considerando o valor pago pela via administrativa de 3.375,00 (três mil e trezentos e setenta e cinco reais), restando o quantum de R$ 3.712,50 (três mil e setecentos e doze reais e cinquenta centavos) à título de indenização.
Contrarrazões: Intimado, a recorrida ISABEL PEREIRA DA SILVA não apresentou contrarrazões.
Manifestação do Ministério Público: Instado a se manifestar, o Ministério Público Superior devolveu os autos sem exarar manifestação, ante a ausência de interesse público que justifique sua intervenção.
É a síntese do necessário.
II – VOTO
O SENHOR DESEMBARGADOR RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS (Relator):
A controvérsia dos autos reside em definir o valor devido de indenização relativa ao seguro obrigatório "DPVAT".
Pois bem.
Compete anotar que o seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores (DPVAT) foi regulamentado pela Lei nº 6.194/74, modificada pela Lei nº 8.441/92 e pela Medida Provisória nº 340/2006, convertida, posteriormente, na Lei 11.482/2007.
A Lei 6.194/74 (que dispõe sobre Seguro Obrigatório de Danos Pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não) prevê pagamento de indenização decorrente do seguro obrigatório nos casos de morte, invalidez permanente e despesas de assistência médica.
Na espécie, resta incontroverso a ocorrência do acidente automobilístico, do qual foi vítima a parte autora/recorrida, conforme boletim de ocorrência, declaração de internação e laudo médico.
Portanto, a perícia médica oficial, realizada nestes autos, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, da qual decorre o laudo pericial, foi categórica em afirmar a existência de lesão da seguinte forma consignada na sentença recorrida (id 62559550:
“Em perícia foi verificado pelo perito judicial limitação funcional no membro inferior esquerdo em 75%(setenta e cinco por cento) correspondente ao valor R$ 7.087,50(sete mil oitenta e sete reais e cinquenta centavos)m e ainda lesão no joelho esquerdo em 75% (setenta e cinco por cento correspondente ao valor 2.531,25(dois mil quinhentos e trinta e um reais e vinte e cinco centavos”.
A parte recorrente impugna o valor reconhecido na sentença desenvolvendo a tese de que não pode ser aplicado ao caso em comento indenização correspondente a duas lesões, pois a “debilidade no MEMBRO INFERIOR REPERCUTIU NO JOELHO, nesse sentido, ao aplicar a tabela legal, deve-se considerar o montante devido SOMENTE NO MEMBRO INFERIOR ESQUERDO, em grau INTENSO (75%), que corresponde ao montante de R$ 7.087,50 (SETE MIL E OITENTA E SETE REAIS E CINQUENTA CENTAVOS)”.
Entretanto, apesar de alegar que a lesão do joelho refere-se à mesma lesão do membro inferior, não foi isso que ficou constatado na perícia e, portanto, a tese desenvolvida pela parte recorrente de ausência de distinção anatômica do membro inferior e do joelho não pode prevalecer.
A tíbia é anatomicamente dividida em três segmentos: Proximal (perto do joelho), Diáfise (meio da perna) e Distal (perto do tornozelo) e consta lesão no joelho e edema em coxa com utilização do fixador externo (Id ´6255941, página 11).
Portanto, não assiste razão ao recorrente, pois, conforme o parâmetro estabelecido na lista incluída na Lei 6.194/74, a indenização deve se dá de acordo com o reconhecido na sentença, inexistindo, portanto, revisão a ser feita, pois as despesas médicas, igualmente, foram comprovadas (CPC, art. 373, I) não merecendo atenção a impugnação dos documentos comprobatórios em sede recursal.
No caso dos autos, entendo legitimada hermeneuticamente a fixação da indenização no valor fixado na sentença, pois a invalidez se revela grave a ponto de comprometer a autonomia pessoal da vítima, inclusive de caráter laboral, conforme respostas aos quesitos reproduzidas no laudo, principalmente na profissão declarada pelo recorrido (lavradora) onde a mobilidade total mostrava-se imprescindível.
Assim, da observação do caminho trilhado pelo magistrado na sentença, constatada a adequação em relação ao disposto no artigo 3º, §1º, I, e §2º da Lei n. 6.194/74, não vislumbro necessidade de qualquer correção na fixação do valor indenizatório.
III – DISPOSITIVO.
Ante o exposto, voto pelo DESPROVIMENTO DA APELAÇÃO. Deixo de arbitrar honorários recursais, pois já fixados no percentual máximo na sentença (20% sobre o valor da condenação).
É como voto.
Teresina (PI), data registrada no sistema.
Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS
Relator
0800318-90.2021.8.18.0048
Órgão JulgadorDesembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS
Órgão Julgador Colegiado3ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalAcidente de Trânsito
AutorSEGURADORA LIDER DO CONSORCIO DO SEGURO DPVAT SA
RéuISABEL PEREIRA DA SILVA
Publicação29/12/2022