TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara de Direito Público
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0000779-85.2017.8.18.0032
REPRESENTANTE: DEFENSORIA PUBLICA DO ESTADO DO PIAUI
APELANTE: ESTADO DO PIAUI, MUNICIPIO DE PICOS
Advogado(s) do reclamante: TIAGO LIMA IGLESIAS CABRAL
APELADO: SILVANA MARIA LOPES MARTINS
REPRESENTANTE: ESTADO DO PIAUI, MUNICIPIO DE PICOS
Advogado(s) do reclamado: JOSE TADEU DE MACEDO SILVEIRA
RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
EMENTA
APELAÇÃO CÍVEL – CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL – FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO NÃO PREVISTO NA LISTA DO SUS – DIREITO À SAÚDE – DEVER DE OBSERVÂNCIA DE PRECEDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA EM SEDE DE RECURSO REPETITIVO (RESP 1.657.156-RJ)– COMPROVAÇÃO DA NECESSIDADE DE RECEBIMENTO DA MEDICAÇÃO.
1. Tratando-se de demanda que envolva pedido de fornecimento de medicamento não previsto na lista do SUS, impõe-se observar a decisão proferida em 25/04/2018, pelo Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo (REsp 1.657.156-RJ).
2. Restando comprovada a necessidade do uso contínuo de medicação essencial à manutenção da saúde, bem como que a parte não possui meios financeiros para custeá-la, não é possível se justificar a inibição à efetividade do direito ofendido sob os escudos de limitações orçamentárias e de aplicação da teoria da reserva do possível, visto que se deve garantir ao cidadão um mínimo de direitos que são essenciais a uma vida digna, entre os quais se inclui o pleno acesso ao serviço de saúde.
3. Recurso não provido, por unanimidade.
RELATÓRIO
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APELAÇÃO CÍVEL (198) -0000779-85.2017.8.18.0032
Origem:
REPRESENTANTE: DEFENSORIA PUBLICA DO ESTADO DO PIAUI
APELANTE: ESTADO DO PIAUI, MUNICIPIO DE PICOS
Advogado do(a) APELANTE: TIAGO LIMA IGLESIAS CABRAL - PI9179-A
APELADO: SILVANA MARIA LOPES MARTINS
REPRESENTANTE: ESTADO DO PIAUI, MUNICIPIO DE PICOS
Advogado do(a) APELADO: JOSE TADEU DE MACEDO SILVEIRA - PI1202-A
RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
Trata-se de apelação intentada pelo Estado do Piauí, a fim de modificar a sentença pela qual foi julgada procedente a Ação de Obrigação de Fazer c/c Pedido de Concessão de Tutela Provisória de Urgência, aqui versada, proposta por Silvana Maria Lopes Martins, ora apelada.
A sentença consiste, essencialmente, em confirmar a liminar anteriormente concedida, condenando o apelante a fornecer à apelada os medicamentos HINDANTAL 100 MG e CARLIT XR 450 MG, conforme prescrição médica. Determinou, ainda, a juntada aos autos de novo receituário médico, a cada seis meses, sob pena de suspensão do fornecimento dos remédios solicitados. Sem condenação em custas e em honorários.
Inconformado, o apelante suscita preliminar de incompetência da Justiça Estadual para processar e julgar a demanda, ao argumento de que a União deveria ser chamada para ingressar no polo passivo da lide. No mérito, em resumo, assevera que a prova técnica não foi satisfeita e que não foram atendidos os requisitos estabelecidos na Tese nº 106, em Recurso Repetitivo, do STJ. Defendeu, ainda, serem incabíveis honorários advocatícios em favor da Defensoria Pública. Ao final, requer a procedência do recurso.
A apelada, em suas contrarrazões, defende que trouxe aos autos laudo médico fundamentado informando a necessidade dos medicamentos pleiteados para o tratamento das enfermidades que a acomete. Explica que a ausência da indicação do medicamento requerido em listagem disponibilizada pelo SUS, por si só, não exime o Estado do Piauí da responsabilidade, como gestor do SUS no âmbito estadual, de fornecê-lo às pessoas desprovidas de recursos financeiros. Destacou, ainda, que existindo o registro do medicamento na Anvisa, inexiste o dever de intervenção da União ou remessa à Justiça Federal. Ao final, requer a improcedência da apelação.
O douto Procurador de justiça oficiante nos autos, por sua vez, opina pelo não provimento do recurso.
É o quanto basta relatar. Passo ao voto.
VOTO
SENHOR DESEMBARGADOR RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR (votando): Senhores julgadores, como visto, a sentença recorrida reconheceu a obrigação do apelante de fornecer à apelada as medicações HINDANTAL 100 MG e CARLIT XR 450 MG, requeridas na inicial da ação, pelo tempo e quantidade necessários ao seu tratamento médico.
PRELIMINAR DE INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL:
Em relação à tese apresentada pelo apelante de que a União deveria ser chamada para ingressar no polo passivo na lide, o que atrairia a competência da Justiça Federal, importa salientar que o entendimento acerca da responsabilidade solidária dos entes federativos pela prestação dos serviços de saúde já é matéria pacificada no âmbito tanto do Supremo Tribunal Federal, quanto do Superior Tribunal de Justiça, podendo a ação ser proposta em face de quaisquer deles.
Colaciona-se, a seguir, alguns julgados nesse sentido, verbis:
DIREITO CONSTITUCIONAL. SAÚDE. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO. SOLIDARIEDADE DOS ENTES FEDERATIVOS. PRECEDENTES. ACÓRDÃO RECORRIDO PUBLICADO EM 10.10.2012. A jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido da responsabilidade solidária dos entes federativos quanto ao fornecimento de medicamentos pelo Estado, podendo o requerente pleiteá-los de qualquer um deles, União, Estados, Distrito Federal ou Municípios. As razões do agravo regimental não se mostram aptas a infirmar os fundamentos que lastrearam a decisão agravada. Agravo regimental conhecido e não provido. (STF - ARE: 799978 RS, Relator: Min. ROSA WEBER, Data de Julgamento: 21/10/2014, Primeira Turma, Data de Publicação: DJe-219 DIVULG 06-11-2014 PUBLIC 07-11-2014) (Grifei)
PROCESSO CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO. LEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM. O Município tem legitimidade ad causam para figurar no polo passivo de demanda que objetiva a garantia do acesso a medicamentos para tratamento de problema de saúde. Agravo regimental desprovido. (STJ - AgRg no AREsp: 227982 PA 2012/0186188-2, Relator: Ministra MARGA TESSLER (JUÍZA FEDERAL CONVOCADA DO TRF 4ª REGIÃO), Data de Julgamento: 05/03/2015, T1 - PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 11/03/2015)
Rejeito, portanto, a preliminar suscitada.
MÉRITO:
MÉRITO:
Convém ressaltar que, como a lide em questão envolve pedido de fornecimento de medicamento não previsto na lista do SUS, impõe-se, realmente, observar a decisão proferida em 25/04/2018, pelo Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo (REsp 1.657.156-RJ).
No referido decisum, o STJ fixou a tese n. 106 de que a concessão dos medicamentos não incorporados em atos normativos do SUS exige a presença cumulativa dos seguintes requisitos: (I) comprovação, por meio de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por médico que assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim como da ineficácia, para o tratamento da moléstia, dos fármacos fornecidos pelo SUS; (II) incapacidade financeira de arcar com o custo do medicamento prescrito; e (III) existência de registro na ANVISA do medicamento, observados os usos autorizados pela agência (STJ. 1ª Seção. REsp 1.657.156-RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 25/04/2018 (recurso repetitivo).
Ocorre que, no caso aqui analisado, o relatório médico atestou a imprescindibilidade do fármaco citado, em razão da doença que acomete a apelada, denominada Epilepsia Lobo Temporal de difícil controle secundário e Atrofia de Hipocampal direita e depressão acentuada, com ideias e tentativa de suicídio (CID G-40). Ainda com base no acervo probatório, ela necessita fazer tratamento com as medicações HINDANTAL 100 MG e CARLIT XR 450 MG BEVACIZUMABE 25/MG/ML, como forma de tratar as doenças, sendo que os seus rendimentos mensais não são suficientes para custeá-lo, conforme se observa da documentação apresentada juntamente com a exordial.
Ainda, verifica-se, também, que as medicações possuem registro na ANVISA.
Diante de tais considerações, tem-se que foi demonstrada a presença cumulativa dos requisitos estabelecidos pelo STJ, no REsp 1.657.156-RJ.
Em relação ao argumento de que são indevidos honorários advocatícios em favor da Defensoria Pública, verifica-se, contudo, que não houvera condenação em honorários na sentença recorrida.
EX POSITIS e sendo o quanto se me afigura necessário asseverar, VOTO, em consonância com o parecer ministerial, pelo não provimento do recurso, mantendo-se incólume a decisão recorrida, por seus próprios e jurídicos fundamentos. Deixo, ainda, de majorar os honorários advocatícios, em razão da ausência de fixação de tal verba na instância de origem.
Teresina, 13/04/2023
0000779-85.2017.8.18.0032
Órgão JulgadorDesembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA
Órgão Julgador Colegiado4ª Câmara de Direito Público
Relator(a)RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaSAÚDE PÚBLICA - 4ª Câmara de Direito Público
Assunto PrincipalObrigação de Fazer / Não Fazer
AutorESTADO DO PIAUI
RéuSILVANA MARIA LOPES MARTINS
Publicação13/04/2023