Acórdão de 2º Grau

Cobrança de Aluguéis - Sem despejo 0800067-29.2018.8.18.0064


Ementa

PROCESSO CIVIL – APELAÇÃO – AÇÃO DE COBRANÇA - RELAÇÃO JURÍDICA OBRIGACIONAL EVIDENCIADA – INC. II DO ART. 373 DO CPC/15 – ÔNUS DO QUAL NÃO SE DESINCUMBIU O ENTE PÚBLICO – ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE EMPENHO DA DESPESA PÚBLICA – IRRELEVÂNCIA – PRESUNÇÃO DE ADIMPLEMENTO DO VALOR RECLAMADO – IMPOSSIBILIDADE – ENDOSSO AO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - RECURSO NÃO PROVIDO. 1. Se evidenciados elementos de que a relação jurídica obrigacional efetivou-se, compete ao ente público apresentar provas de fatos extintivos, modificativos ou impeditivos do direito do credor, nos termos do inc. II do art. 373 do CPC/15, e, caso não o faça, torna-se irrelevante a alegada ausência de empenho de despesa, não representando óbice, portanto, ao pagamento do crédito reclamado na lide. 2. A presunção de adimplemento do valor reclamado pelo credor implica endossar possível enriquecimento ilícito da Administração Pública Municipal, o que não se pode admitir, em razão da necessária preservação da boa-fé e do equilíbrio contratuais. 3. Sentença mantida à unanimidade. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800067-29.2018.8.18.0064 - Relator: RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR - 4ª Câmara de Direito Público - Data 14/09/2022 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara de Direito Público

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800067-29.2018.8.18.0064

APELANTE: MUNICIPIO DE BETANIA DO PIAUI

 

APELADO: MAPI LOCACOES E SERVICOS LTDA - EPP

Advogado(s) do reclamado: UBIRATAN RODRIGUES LOPES

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 


EMENTA


 

PROCESSO CIVIL – APELAÇÃO – AÇÃO DE COBRANÇA - RELAÇÃO JURÍDICA OBRIGACIONAL EVIDENCIADA – INC. II DO ART. 373 DO CPC/15 – ÔNUS DO QUAL NÃO SE DESINCUMBIU O ENTE PÚBLICO – ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE EMPENHO DA DESPESA PÚBLICA – IRRELEVÂNCIA – PRESUNÇÃO DE ADIMPLEMENTO DO VALOR RECLAMADO – IMPOSSIBILIDADE – ENDOSSO AO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - RECURSO NÃO PROVIDO.

 


 

1. Se evidenciados elementos de que a relação jurídica obrigacional efetivou-se, compete ao ente público apresentar provas de fatos extintivos, modificativos ou impeditivos do direito do credor, nos termos do inc. II do art. 373 do CPC/15, e, caso não o faça, torna-se irrelevante a alegada ausência de empenho de despesa, não representando óbice, portanto, ao pagamento do crédito reclamado na lide.

 


 

2. A presunção de adimplemento do valor reclamado pelo credor implica endossar possível enriquecimento ilícito da Administração Pública Municipal, o que não se pode admitir, em razão da necessária preservação da boa-fé e do equilíbrio contratuais.

 


 

3. Sentença mantida à unanimidade.

 

 

 


RELATÓRIO


 

APELAÇÃO CÍVEL (198) -0800067-29.2018.8.18.0064
Origem: 
APELANTE: MUNICIPIO DE BETANIA DO PIAUI
 
APELADA: MAPI LOCACOES E SERVICOS LTDA - EPP

Advogado do(a) APELADO: UBIRATAN RODRIGUES LOPES - PI4539-A

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 


 

O SENHOR DESEMBARGADOR RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR: Trata-se de apelação cível tencionando reformar a sentença exarada na ação de cobrança, aqui versada, ajuizada por MAPI Locações e Serviços Ltda – EPP, ora apelada, contra o Município de Betânia do Piauí, ora apelante.

 


 

A decisão vergastada consistiu, inicialmente, em julgar procedente a ação em comento, extinguindo o feito, com resolução de mérito, fazendo-o nos termos do inc. I do art. 487 do CPC/15, para condenar o apelante no pagamento da quantia reclamada no importe de R$ 51.572,21 (cinquenta e um mil, quinhentos e setenta e dois reais e vinte e um centavos), acrescida de juros e de correção monetária.

 


 

Condenou-o, ainda, no pagamento de custas e de honorários de sucumbência, estes estabelecidos em 10% (dez por cento), sobre o valor da condenação.

 


 

Inconformado, o apelante diz, primeiro, que as despesas públicas devem ser necessariamente empenhadas, conforme determinado pela Lei [federal] nº 4.320/64.

 


 

Depois, afirma que a pretensão exordial fundou-se basicamente em notas fiscais não assinadas, as quais não comprovariam que o negócio jurídico foi realmente firmado entre as partes, tampouco que o serviço contratado foi devidamente executado.

 


 

Sustenta, no final, que não há correspondência de informações entre as notas fiscais e as notas de empenho apresentadas pela apelada, enquanto credora, o que sugeriria a não prestação do serviço ou levaria a presumir o adimplemento da obrigação, implicando, de todo modo, a improcedência da demanda.

 


 

Respondendo, a apelada alega, em suma, que a relação jurídica obrigacional restara suficientemente comprovada, bem como que a suposta ausência de empenho da despesa pública não justificaria o seu inadimplemento.

 


 

A procuradora de justiça oficiante nos autos, por sua vez, entendendo não presentes as hipóteses legais necessárias à intervenção ministerial, não opina.

 


 

É o quanto bastar relatar, a fim de se passar ao voto.

 

 

 


VOTO


 

O SENHOR DESEMBARGADOR RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR (votando): Senhores julgadores, como relatado, tem-se em apreço apelação cível visando desconstituir a sentença que julgou procedente a ação de cobrança atrás mencionada.

 


 

Da atenta análise deste feito, observa-se que instruem-no um contrato de prestação de serviços, notas fiscais, notas de empenho e um demonstrativo de débitos [eventos nº 1590890 a 1590897], os quais, em conjunto, implicam concluir, ao contrário do que tenta persuadir o apelante, não só que a relação jurídica obrigacional foi estabelecida como que também foi executada, conforme igualmente compreendeu a juíza da causa.

 


 

Logo, uma vez evidenciados elementos de que a relação jurídica obrigacional efetivou-se, caberia ao ente público apresentar provas de fatos extintivos, modificativos ou impeditivos do direito do credor, nos termos previstos pelo inc. II do art. 373 do CPC/15. Porém, o município apelante não logrou fazê-lo, razão pela qual a alegação de ausência de empenho mostra-se irrelevante e não representa óbice ao pagamento do crédito reclamado na lide.

 


 

Não bastasse, cumpre dizer que presumir o adimplemento do valor pressuporia endossar possível enriquecimento ilícito do ente público, o que, em razão da boa-fé e do equilíbrio contratual, não se pode admitir na espécie.

 


 

Ex positis e ao tempo em que conheço do recurso, pois atendidos os seus requisitos de admissibilidade, VOTO, contudo, para que lhe seja denegado provimento, a fim de manter incólume a sentença fustigada, por suas próprias razões de decidir, majorando-se, ainda, a verba honorária, para 15% (quinze por cento), a teor do previsto no § 11 do art. 85 do CPC/15.

 

 

 



Teresina, 14/09/2022

Detalhes

Processo

0800067-29.2018.8.18.0064

Órgão Julgador

Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara de Direito Público

Relator(a)

RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras de Direito Público

Assunto Principal

Cobrança de Aluguéis - Sem despejo

Autor

MUNICIPIO DE BETANIA DO PIAUI

Réu

MAPI LOCACOES E SERVICOS LTDA - EPP

Publicação

14/09/2022