TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 1ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800257-36.2020.8.18.0059
APELANTE: RIVELINO DUTRA DE OLIVEIRA
Advogado(s) do reclamante: FRANCILIA LACERDA DANTAS REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO FRANCILIA LACERDA DANTAS
APELADO: BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA
REPRESENTANTE: BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA
Advogado(s) do reclamado: IGOR MACIEL ANTUNES
RELATOR(A): Desembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
EMENTA
EMENTA
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO CONTRATUAL C/C PEDIDO DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. CONTRATO APRESENTADO. COMPROVAÇÃO DE TRANSFERÊNCIA DO VALOR CONTRATADO. DEVOLUTIVIDADE, QUANTO AO SEU ASPECTO "PROFUNDIDADE". LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ AFASTADA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
1. Não se vislumbrando o dolo específico da parte, necessário para afastar a presunção de boa-fé, deve ser afastada a multa fixada por litigância de má-fé.
2. Recurso conhecido e provido.
RELATÓRIO
APELAÇÃO CÍVEL (198) -0800257-36.2020.8.18.0059
Origem:
APELANTE: RIVELINO DUTRA DE OLIVEIRA
Advogado do(a) APELANTE: FRANCILIA LACERDA DANTAS - PI11754-A
APELADO: BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA
REPRESENTANTE: BANCO MERCANTIL DO BRASIL SA
Advogado do(a) APELADO: IGOR MACIEL ANTUNES - MG74420-A
RELATOR(A): Desembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Cuida-se de APELAÇÃO CÍVEL interposta por RIVELINO DUTRA DE OLIVEIRA para reformar a sentença exarada na AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO CONTRATUAL C/C PEDIDO DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS (Processo nº 0800257-36.2020.8.18.0059/ Vara Única da Comarca de Luís Correia-PI), ajuizada contra BANCO MERCANTIL DO BRASIL S.A., ora apelado.
Ingressou a parte autora com a ação (ID 6368381) alegando, em síntese, que sofreu descontos em seu benefício previdenciário referente a contrato de empréstimo por consignação.
Requereu a declaração de nulidade do contrato, a devolução em dobro de todos os valores descontados e a condenação ao pagamento de indenização por danos morais.
Citada, a parte ré apresentou contestação (ID 6368388) argumentando a validade contratual, fazendo juntar aos autos contrato (ID 6368389), colacionando comprovante de transferência de valor.
Por sentença (ID 6368407), o d. Magistrado singular julgou improcedente o pedido, nos termos do art. 487, I, do CPC, condenando a parte autora por litigância de má-fé em multa de dois por cento (2%) do valor da causa, nos termos do art. 80, II c/c art. 81, ambos do CPC. Condenou ainda a parte autora em custas e honorários de sucumbência, estes em dez por cento (10%) sobre o valor da causa, suspendendo a exigibilidade do pagamento, ante a concessão de justiça gratuita, nos termos do art. 98, § 3º, do CPC.
Inconformada, a parte autora interpôs Apelação (ID 6368412) pugnando exclusivamente para o afastamento da litigância de má-fé.
Intimada, a parte ré apresentou contrarrazões (ID 6368567), defendendo a manutenção da sentença.
Provocado, o Ministério Público do Piauí não se manifestou (ID 6826485).
É o relatório.
VOTO
O DESEMBARGADOR HAROLDO OLIVEIRA REHEM (votando):
Eminentes julgadores, conheço do recurso, eis que nele se encontram os pressupostos de admissibilidade.
De início, cabe esclarecer, que o efeito devolutivo da apelação sob a ótica da profundidade deve sempre respeitar a matéria efetivamente devolvida pela parte, a quem cabe, soberanamente, definir a extensão do recurso a partir de quais capítulos decisórios serão impugnados, sob pena de ofensa à coisa julgada que progressivamente se formou sobre os capítulos decisórios que não foram voluntariamente devolvidos no recurso.
No caso, a apelação limitou-se a impugnar a condenação por litigância de má-fé.
Da análise dos autos, extrai-se que a ação foi ajuizada com argumento de que as parcelas debitadas da aposentadoria da autora era de contrato não reconhecido por ela com o requerido banco.
No corpo da sentença, observa-se que o magistrado singular entendeu que a parte autora havia legitimamente celebrado contrato de mútuo com a demandada e quis utilizar-se do Poder Judiciário para pleitear indenização como se não tivesse usufruído do valor creditado em sua conta.
Ocorre que tese de anulação contratual de empréstimo a embasar desconto cobrado, mesmo constando um contrato, com a comprovação de que a parte tem dificuldade em entender as informações da negociação, não surgindo a certeza da vontade deliberada de enganar o juízo, sem intencional alteração da verdade dos fatos, cabalmente evidenciada no processo, demonstra tratar-se de exercício de acesso à justiça, mas não de má-fé.
Com efeito, imputar penas às partes que não tenham seus direitos reconhecidos constitui medida indireta de cerceio ao acesso à justiça, direito fundamental que ao Judiciário cabe resguardar.
Sobre o tema, colaciona-se a jurisprudência a seguir:
“EMENTA: APELAÇÃO - LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ - REQUISITOS. A penalidade por litigância de má-fé deve ser aplicada apenas à parte que, no processo, age de forma maldosa, com dolo ou culpa, causando dano processual ao adversário.
(TJ-MG - AC: 10000210932125001 MG, Relator: Maurílio Gabriel, Data de Julgamento: 02/07/2021, Câmaras Cíveis / 15ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 12/07/2021)”
“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE DESCONTO EM FOLHA DE PAGAMENTO CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. MULTA FIXADA NA SENTENÇA. AFASTAMENTO. 1. A condenação por litigância de má-fé exige prova acerca do dolo, pois, do contrário, prevalece a presunção de boa-fé. 2. Apelação cível conhecida e provida.
(TJ-PR - APL: 00027191220208160105 Loanda 0002719-12.2020.8.16.0105 (Acórdão), Relator: Luiz Carlos Gabardo, Data de Julgamento: 09/05/2022, 15ª Câmara Cível, Data de Publicação: 09/05/2022)”
Assim, não se vislumbrando o dolo específico da parte, necessário para afastar a presunção de boa-fé, deve ser afastada a multa fixada por litigância de má-fé.
Diante do exposto, e em sendo desnecessárias quaisquer outras assertivas, VOTO pelo PROVIMENTO ao RECURSO DE APELAÇÃO, reformando a sentença a quo, apenas para afastar a condenação por litigância de má-fé.
Procedo à majoração dos honorários de dez por cento (10%) para quinze por cento (15%) sobre o valor da causa, suspendendo a exigibilidade do pagamento, ante a concessão de justiça gratuita, nos termos do art. 98, § 3º, do CPC.
É o voto.
Teresina, 28/10/2022
0800257-36.2020.8.18.0059
Órgão JulgadorDesembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorRIVELINO DUTRA DE OLIVEIRA
RéuBANCO MERCANTIL DO BRASIL SA
Publicação28/10/2022