Acórdão de 2º Grau

Liminar 0811896-70.2018.8.18.0140


Ementa

PROCESSUAL CIVIL – APELAÇÃO – AÇÃO DE COBRANÇA – HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS – FIXAÇÃO EM VALOR IRRISÓRIO – MAJORAÇÃO – POSSIBILIDADE – RECURSO PROVIDO. 1. Contraria e, portanto, merece reforma a decisão que desobedece ao art. 85, § 2º, do CPC, ou seja, que fixa os honorários advocatícios, sem a obrigatória observância dos parâmetros ali previstos. Precedentes. 2. Na espécie, a decisão, além de estipular verba sucumbencial irrisória, olvida que os honorários advocatícios devem ser arbitrados sobre o valor atribuído à causa; e não por apreciação equitativa do juiz, mesmo que suspensa a exigibilidade da obrigação, porquanto a parte sucumbente litiga sob os auspícios da gratuidade de justiça. 3. Sentença reformada, em parte. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0811896-70.2018.8.18.0140 - Relator: RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR - 4ª Câmara de Direito Público - Data 03/12/2022 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara de Direito Público

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0811896-70.2018.8.18.0140

APELANTE: ESTADO DO PIAUI

 

APELADO: PAULA VIRGINIA LIMA FERREIRA
REPRESENTANTE: ESTADO DO PIAUI

Advogado(s) do reclamado: MAURICIO CEDENIR DE LIMA REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO MAURICIO CEDENIR DE LIMA

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 


EMENTA


 

 

PROCESSUAL CIVIL – APELAÇÃO – AÇÃO DE COBRANÇA – HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS – FIXAÇÃO EM VALOR IRRISÓRIO – MAJORAÇÃO – POSSIBILIDADE – RECURSO PROVIDO.

1. Contraria e, portanto, merece reforma a decisão que desobedece ao art. 85, § 2º, do CPC, ou seja, que fixa os honorários advocatícios, sem a obrigatória observância dos parâmetros ali previstos. Precedentes.

2. Na espécie, a decisão, além de estipular verba sucumbencial irrisória, olvida que os honorários advocatícios devem ser arbitrados sobre o valor atribuído à causa; e não por apreciação equitativa do juiz, mesmo que suspensa a exigibilidade da obrigação, porquanto a parte sucumbente litiga sob os auspícios da gratuidade de justiça.

3. Sentença reformada, em parte.

 

 


RELATÓRIO


 

acc

APELAÇÃO CÍVEL (198) -0811896-70.2018.8.18.0140
Origem: 
APELANTE: ESTADO DO PIAUI
 

APELADO: PAULA VIRGINIA LIMA FERREIRA
REPRESENTANTE: ESTADO DO PIAUI

Advogado do(a) APELADO: MAURICIO CEDENIR DE LIMA - PI5142-A

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 

 

Trata-se de APELAÇÃO intentada pelo ESTADO DO PIAUÍ, a fim de modificar a sentença pela qual fora julgada improcedente a AÇÃO DE COBRANÇA, C/C PEDIDOS REVISIONAL DE GRATIFICAÇÃO DO ADICIONAL POR TEMPO DE SERVIÇO E DE OBRIGAÇÃO DE FAZER aqui versada, proposta por PAULA VIRGÍNIA LIMA FERREIRA, ora apelada.

A sentença consiste, essencialmente, em julgar improcedente a ação. Condena a apelada, portanto, em honorários advocatícios, no valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais), além de custas processuais, nos termos do art. 85, § 2º, do CPC, contudo, suspende a exigibilidade da obrigação, em face da gratuidade judiciária deferida.

Inconformado, o apelante alega, em resumo, que os honorários advocatícios não foram arbitrados de acordo com a norma processual aplicável ao caso. Destaca que deveriam ser, no mínimo, de R$ 7.288,28 (sete mil, duzentos e oitenta e oito reais e vinte e oito centavos), desde que se aplique o percentual de 10% (dez por cento), previsto no art. 85, I, § 3º, do CPC, sobre o valor da causa, na ordem de R$ 72.882,80 (setenta e dois mil, oitocentos e oitenta e dois reais e oitenta centavos).

Obtempera que subsiste a responsabilidade da apelada, pelas despesas processuais e honorários advocatícios, ainda que lhe tenham sido dados os benefícios da gratuidade da justiça. Requer, por fim, a procedência do recurso.

Decorrera em aberto o prazo para a apelada apresentar contrarrazões, inobstante devidamente intimada.

O Procurador de Justiça oficiante nos autos, por sua vez e em suma, não opina por entender ausente interesse público que justifique a sua intervenção.

É o quanto basta relatar. Passo ao VOTO.



 

 


VOTO


 

 

SENHOR DESEMBARGADOR RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR (votando): Senhores Julgadores, o apelante tem inteira razão, ao alegar que os honorários advocatícios teriam sido arbitrados em desacordo com a norma processual aplicável. Assim como tem ao lembrar que a obrigação sucumbencial persiste, a despeito da concessão da gratuidade de justiça à apelada.

Ab initio, somente para respaldar a assertiva ora feita, convém trazem a lume o que dispõe o § 2º, do art. 85, do CPC, in verbis:

Art. 85. § 2º Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez e o máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação, do proveito econômico obtido ou, não sendo possível mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa, atendidos:

I - o grau de zelo do profissional;

II - o lugar de prestação do serviço;

III - a natureza e a importância da causa;

IV - o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço.”

Evidente, portanto, que os honorários advocatícios devem ser fixados em montante adequado ao trabalho do causídico, assim como têm de ser majorados, quando não o sejam. Ainda mais, aduza-se, se arbitrados em valor irrisório, como ocorre no caso em exame.

Com efeito, apesar do valor atribuído à causa ser de R$ 72.882,80 (setenta e dois mil, oitocentos e oitenta e dois reais e oitenta centavos), a fixação da verba sucumbencial, além de não tomar essa quantia como base, é de valor claramente irrisório - R$ 1.000,00 (hum mil reais). Logo, é imperiosa a utilização dos parâmetros legais, a fim de se majorá-la, assertiva esta, por sinal, corroborada por precedentes como estes, ipsis verbis:

APELAÇÃO. AÇÃO REVISIONAL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. ARBITRAMENTO. ART. 85, § 2º, DO CPC. Incide, na espécie, a norma prevista no art. 85, § 2º, do Código de Processo Civil, segundo o qual os honorários serão fixados entre o mínimo de 10%(dez por cento) e o máximo de 20% sobre o valor da condenação, atendidos a natureza e a importância da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço. (TJMG, AC nº 3206724-56.2012.8.13.0024, 14ª Câmara Cível, Relatora Cláudia Maia, julgado em 23.02.2021, publicado em 23.02.2021).”

APELAÇÃO CÍVEL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. EXTINÇÃO DO FEITO. ARBITRAMENTO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS POR APRECIAÇÃO EQUITATIVA EM R$ 1.000,00 (MIL REAIS). INSURGÊNCIA DA PARTE EXECUTADA. ACOLHIMENTO. APRECIAÇÃO EQUITATIVA (ART. 85, § 8º, DO CPC). APLICAÇÃO EXCEPCIONAL E SUBSIDIÁRIA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS QUE DEVEM INCIDIR SOBRE O VALOR ATUALIZADO DA CAUSA. FIXAÇÃO CONDIZENTE COM AS CIRCUNSTÂNCIAS DO CASO E COM O TRABALHO DESENVOLVIDO PELO PATRONO DA PARTE EXEQUENTE. VERBA QUE NÃO SE MOSTRA EXCESSIVA, SENTENÇA REFORMADA. APLICAÇÃO DA REGRA GERAL DO ART. 85, § 2º, DO CPC. (TJPR, AC nº 0003471-83.2013.8.16.0119, 14ª Câmara Cível, Relator Themis de Almeida Furquim, julgado em 13.06.2022, publicado em 13.06.2022).”

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO ANULATÓRIA. FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. VALOR IRRISÓRIO. MAJORAÇÃO NOS TERMOS DO ART. 85, § 8º, DO CPC. POSSIBILIDADE. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. A fixação de honorários sucumbenciais em percentual sobre o valor da causa ou proveito econômico, na espécie, foram arbitrados em valor irrisório, devendo serem fixados por equidade, em atenção, aos princípios constitucionais da proporcionalidade e da razoabilidade expressamente consagrados no diploma processual civil. Assim, lança-se mão do art. 85, § 8º do CPC para o arbitramento, estabelecendo quantia certa para referidos honorários. (TJ MS, AC 0820512-60.2020.8.12.0001, 4ª Câmara Cível, Relator Júlio Roberto Siqueira Cardoso, julgado em 19.04.2021, publicado em 23.04.2021).”

EX POSITIS e sendo o quanto se me afigura necessário asseverar, VOTO pelo provimento da APELAÇÃO, a fim de, reformando-se em parte a SENTENÇA, fixar os honorários advocatícios, com os quais deve arcar a apelada, em 10% (dez por cento) do valor atualizado da causa, ex vi do disposto no art. 85, § 2º, do CPC, porém, continuando suspensa a exigibilidade da obrigação, de acordo com o art. 98, § 3º, do mesmo Códex.

 

 



Teresina, 03/12/2022

Detalhes

Processo

0811896-70.2018.8.18.0140

Órgão Julgador

Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara de Direito Público

Relator(a)

RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras de Direito Público

Assunto Principal

Liminar

Autor

ESTADO DO PIAUI

Réu

PAULA VIRGINIA LIMA FERREIRA

Publicação

03/12/2022