TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
APELAÇÃO CRIMINAL Nº 0002230-94.2016.8.18.0028
ÓRGÃO: 2ª Câmara Especializada Criminal
ORIGEM: Floriano/ 1° Vara
RELATOR: Des. Erivan Lopes
APELANTE: José Adriano Avelino
ADVOGADO: Jozimar Laurentino de Paula (OAB/PI nº 2.189)
APELADO: Ministério Público do Estado do Piauí
EMENTA
APELAÇÃO CRIMINAL. ESTUPRO. MATERIALIDADE E AUTORIA DEVIDAMENTE DEMONSTRADAS.PALAVRA DA VÍTIMA. ESPECIAL RELEVÂNCIA. CONTEXTO PROBATÓRIO FORTE E ROBUSTO. APELO CONHECIDO E IMPROVIDO.
1.Embora a vítima não tenha confirmado em juízo as alegações prestadas na delegacia, foi enfática, nessa oportunidade, ao narrar a conduta perpetrada pelo agente, tecendo detalhes de como ocorreu a prática delituosa. Vê-se, pois, que a versão da vítima foi única, firme e coerente, encontrando respaldo em outros elementos de prova, notadamente, no depoimento da testemunha Francinaldo Sousa Barros, no auto de exame de conjunção carnal, o qual constatou "sinais de violência sexual, Hiperemia vaginal + presença de sangue em canal vaginal" (id. Num. 5000738 - Pág. 7/8), além de fotografias, as quais registraram que a ofendida estava lesionada no braço, rosto e perna (id. Num. 5000739). Percebe-se, assim, que a negativa por parte da defesa não merece guarida, quando confrontada pelas palavras coerentes da vítima, na fase inquisitiva, corroboradas pelos depoimentos testemunhais, em juízo, e demais provas insertas nos autos, não havendo, dessa forma, desrespeito à norma do art. 155 do CPP. Assim, havendo provas contundentes e harmônicas acerca da materialidade e da autoria delitiva, entendo que não merece reforma o julgado hostilizado.
2. Recurso conhecido e improvido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, "acordam os componentes da Egrégia 2ª Câmara Especializada Criminal, à unanimidade, conhecer do recurso e negar-lhe provimento, mantendo a sentença condenatória em todos os seus termos".
SALA DAS SESSÕES VIRTUAIS DO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, em Teresina/PI, de seis aos treze dias do mês maio do ano de dois mil e vinte e dois (06 a 13/05/2022).
RELATÓRIO
Des. Erivan José da Silva Lopes (Relator):
Apelação Criminal interposta por José Adriano Avelino em face da sentença que o condenou à pena de 06 anos e 06 (seis) meses de reclusão, em regime inicial semiaberto pela prática do crime de estupro (art. 213, do CP).
Em suas razões recursais, a defesa requer a absolvição do acusado, ante o frágil acervo probatório, devendo ser acolhida a tese de negativa de autoria, nos termos do art. 386, VI e VI, do Código de Processo Penal.
O Ministério Público Estadual, em contrarrazões, pugna pelo conhecimento e improvimento do recurso interposto.
A Procuradoria Geral de Justiça, em fundamentado parecer, opinou pelo conhecimento e improvimento do recurso de apelação interposto, mantendo-se a sentença exarada pelo juízo a quo em todos os seus termos.
É o relatório.
VOTO
Satisfeitos os pressupostos de admissibilidade, dentre os quais a tempestividade, conheço do recurso e passo à análise das teses recursais.
Consta na denúncia que por volta das 15:00 horas do dia 29/07/2016, nas margens do Rio Parnaíba, o acusado constrangeu, mediante violência, a vítima Gilmara Pereira da Silva a manter conjunção carnal.
No caso em análise, a materialidade relatada na exordial acusatória vem positivada através Auto de Exame de Conjunção Carnal, Anexo fotográfico, além da prova oral produzida.
No que tange à autoria, passo à análise das provas produzidas na instrução desta ação penal, transcritas na sentença.
A vítima GILMARA PEREIRA DA SILVA declarou na fase inquisitorial como se deu a prática do crime, nos seguintes termos: que estava com seu amigo Francivaldo, na beira rio desta cidade, quando chegou o BORÉU em uma canoa e lhe convidou para dá uma volta; que disse que não ia, sendo que o acusado ficou insistindo até lhe convencer; que foram para às margens do rio do lado de Barão de Grajaú/MA; que BORÉU lhe mandou amarrar a canoa e a levou para cima do barranco; que o acusado tentou tirar a sua roupa, mas lhe deu um chute e correu; que o acusado ainda correu atrás dela, mas desistiu, voltou para a canoa, retornou para a Floriano, deixando-a do lado de Barão de Grajaú; que depois o acusado retornou para o lado que ela estava e a colocou dentro da canoa, obrigando-a a beber cachaça; que BORÉU retornou para o lado de Floriano, e a levou para dentro do mato, mandando-a a atirar toda a roupa, ameaçando matá-la se ela não se despisse; que em seguida o réu mandou que ela deitasse no chão e a estuprou; que após consumar o ato, tentou fugir e nesse momento o acusado agarrou na sua cabeça por trás e tentou afoga-la no rio, e em seguida deu um soco em seu rosto, bem como mordeu seu rosto; que o acusado lhe mandou vestir a roupa e a levou de volta para as margens onde estava com o amigo; que seu amigo não estava mais no local e BORÉU disse que ia estuprar ela mais uma vez, e nesse momento apareceram dois rapazes em outra canoa, ocasião em que pulou para dentro da canoa deles; que o acusado ficou dizendo que ia matá-la; que os rapazes lhe deixaram com um casal de idosos conhecidos e o acusado foi embora para o barraco dele às margens do rio; que BORÉU lhe penetrou apenas uma vez, e durante todo o ato sexual a sua genitália sangrou, e ficou bem inflamada, tendo sido lesionada na coxa esquerda e antebraço direito, que ficou com escoriações causadas por arranhões que o acusado fez com as unhas, além de soco e da mordida que levou do lado esquerdo do rosto; que durante o ato sexual, o réu falava o tempo todo que ia lhe matar, e em certo momento colocou três dedos dentro de sua garganta, falando que ia matá-la; que o acusado tem o costume de tomar cachaça com seus irmãos, em sua casa.
A testemunha FRANCIVALDO SOUSA BARROS, disse: que foi tomar banho no rio, mas quando chegou lá a Gilmara já estava pescando; que por volta das 17h30min, o José Adriano vinha subindo o rio de barco e parou próximo a eles; que o acusado falou com eles, pois era conhecido deles lá no bairro; que o acusado convidou a vítima para dá uma volta de barco, mas ela disse que não ia; que o acusado convidou a vítima duas vezes, tendo ela negado; que o réu ficou insistindo, dizendo que ia só no meio do rio e voltava; que a vítima ficou pensativa e resolveu ir, mas ela disse que era para ir só até o meio do rio, tendo o acusado dito que era só uma voltinha; que acusado e vítima se deslocaram para o lado do Maranhão; que quando chegou no meu do rio o acusado conversou com a vítima, mas não deu para entender, pois já estava longe, tendo ela ficado calada; que não pararam no meio do rio, continuaram indo para o outro lado do rio; que pediu para eles voltarem e a vítima acenou com a mão dizendo que voltavam já; que nesse momento o acusado não disse nada, ficou calado; que os dois foram para o lado do Maranhão; que uma hora percebeu que a Gilmara gritou e correu e ouviu o acusado dizendo “tá doida?”; que Gilmara correu e o acusado ficou parado; que gritou muito por Gilmara, pois já estava tarde e ele queria ir embora, mas ela não respondia e tinha sumido no mato; que depois não conseguiu mais ver o acusado; que esperou uns 5min e nada deles aparecerem; que umas 17h45min a vítima apareceu e pediu para busca-la, mas não tinha como pois não tinha canoa; que disse para o acusado trazer de volta Gilmara, mas ele não respondia; que o acusado retornou sozinho, momento que que questionou porque deixou a vítima do outro lado sozinha; que pediu a canoa de “Boréu” para ir pegar a Gilmara, no entanto Boréu disse que ele não sabia remar e não deu a canoa; que o acusado voltou para pegar a vítima; que depois o acusado e vítima entram na canoa, que estava ficando escuro, mas ainda deu para ver; que eles vinham rumo ao Piauí, só que em um local mais para baixo de onde ele estava, já no interior, que dá uns 2 km de distância; que desceu o rio pelo lado do Piauí para ver se encontrava a vítima; que gritou bastante e nada dela responder; que quando estava descendo ouviu um grito da vítima e ficou preocupado sem saber o que estava acontecendo; que foi para casa, tomou um banho e jantou; quando terminou de jantar foi na casa da mãe de Gilmara perguntar se ela tinha chegado; que quando chegou lá já recebeu a notícia que ela tinha sido estuprada pelo José Adriano; que quando a Gilmara dou dá queixa, foi junto com ela; que depois conversou com a vítima e lhe perguntou o que tinha acontecido, sendo que ela respondeu que José Avelino tinha “feito tudo”; que a vítima disse que o réu tinha lhe agredido, colocado lama na sua boca, mas não falou em arma, que afogou ela na água para não gritar; que acha que aconteceu o estupro do lado do Piauí; que a vítima entrou no barco por livre e espontânea vontade, pois o réu chamou a vítima por duas vezes e ela não aceitou, quando chamou novamente ela aceitou; que acha que o acusado tinha ingerido bebida alcóolica, pois tinha uma garrafinha no barco; que a vítima lhe disse que o réu tinha lhe obrigado a beber bebida alcóolica.
A testemunha de Defesa, Ana Maria da Silva, disse: que no dia que aconteceu o fato, foi para o rio com o seu marido e seus filhos; que quando chegou lá a Gilmara já estava lá com o Francivaldo tomando banho; que os dois estavam abraçados e até ficou um pouco constrangida, pois seus filhos ficaram olhando para eles; que banhou todos os seus filhos e também tomou banho, e em momento algum viu o José Adriano lá; que por volta das 17h foram embora e a Gilmara e o Francivaldo ficaram lá ainda tomando banho; que até às 17h não viu o José Adriano lá na beira rio; que todos se conhecem, tanto a vítima, Francivaldo e o réu, que são vizinhos.
A testemunha Cristiano Avelino, disse: que no dia do fato foi procurar uma casa para alugar, quando topou com o Francivaldo por volta das 18h30min; que Francivaldo falou com ele, mas não lhe falou sobre o caso, pois ele era quem estava com a vítima lá no rio; que depois de umas duas horas a polícia foi na sua casa; que a polícia lhe bateu e fez umas perguntas; que nessa hora seu irmão já estava foragido; que acha que a polícia lhe confundiu com o seu irmão, pois chegaram procurando por ele; que seu irmão não voltou para casa; acha que seu irmão fugiu porque acusam muito ele, pois tudo que acontece no bairro muitas vezes colocam a culpa nele; que conhece a vítima; que sua cunhada Ana Maria da Silva lhe disse que viu o Francivaldo e a Gilmara tomando banho no rio; que até a data do fato não existiam confusão entre a vítima, Francivaldo e o acusado.
A testemunha de defesa Romerito Sousa Costa, disse: que no dia do fato foi pescar por voltas das 14h e passou lá onde estava a Gilmara e o Francivaldo; que ficou na beiro do rio até por volta das 16h30min; que foi embora e eles ficaram lá ainda; que não soube se Gilmara deu uma volta de canoa com José Adriano; que ficou sabendo no outro dia que José Adriano teria estuprado a Gilmara; que a vítima e Francivaldo namoravam; que não viu o Francivaldo nesse dia no rio.
O acusado não foi ouvido, tanto na fase inquisitória, como na fase judicial, pois fugiu do distrito da culpa, sendo preso somente em 27 de março de 2018.
Embora a vítima não tenha confirmado em juízo as alegações prestadas na delegacia, foi enfática, nessa oportunidade, ao narrar a conduta perpetrada pelo agente, tecendo detalhes de como ocorreu a prática delituosa.
Vê-se, pois, que a versão da vítima foi única, firme e coerente, encontrando respaldo em outros elementos de prova, notadamente, no depoimento da testemunha Francinaldo Sousa Barros, no auto de exame de conjunção carnal, o qual constatou "sinais de violência sexual, Hiperemia vaginal + presença de sangue em canal vaginal" (id. Num. 5000738 - Pág. 7/8), além de fotografias, as quais registraram que a ofendida estava lesionada no braço, rosto e perna (id. Num. 5000739), em plena consonância com o relato prestado.
Saliento que o depoimento da vítima possui peso significativo em delitos desta natureza, já que não se verifica qualquer motivação desta em realizar uma falsa imputação contra o réu e pelo fato de que normalmente ocorrem às escondidas, mostrando-se suficientes à comprovação do crime desta espécie, especialmente quando corroboradas pelo restante da prova colhida.
Percebe-se, assim, que a negativa por parte da defesa não merece guarida quando confrontada pelas palavras coerentes da vítima, na fase inquisitiva, corroboradas pelos depoimentos testemunhais, em juízo, e demais provas insertas nos autos, não havendo, dessa forma, desrespeito à norma do art. 155 do CPP.
Assim, havendo provas contundentes e harmônicas acerca da materialidade e da autoria delitiva, entendo que não merece reforma o julgado hostilizado.
DISPOSITIVO
Em virtude do exposto, conheço do recurso e nego-lhe provimento, mantendo a sentença condenatória em todos os seus termos.
Desembargador ERIVAN LOPES
Presidente/ Relator
Teresina, 13/05/2022
0002230-94.2016.8.18.0028
Órgão JulgadorDesembargador ERIVAN JOSÉ DA SILVA LOPES
Órgão Julgador Colegiado2ª Câmara Especializada Criminal
Relator(a)ERIVAN JOSE DA SILVA LOPES
Classe JudicialAPELAÇÃO CRIMINAL
CompetênciaCâmaras Criminais
Assunto PrincipalEstupro
AutorJOSE ADRIANO AVELINO
RéuMINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DO PIAUI
Publicação16/05/2022