Acórdão de 2º Grau

FGTS/Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço 0800753-26.2018.8.18.0030


Ementa

EMENTA APELAÇÃO CÍVEL. CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. CONTRATO DE TRABALHO TEMPORÁRIO. FÉRIAS E 13º SALÁRIO. PREVISÃO LEGAL. LEI ESTADUAL Nº 5.309/03. APLICABILIDADE DO TEMA 551. REMUNERAÇÃO DEVIDA. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. 1. A natureza jurídica do contrato de temporário é essencialmente o atendimento de excepcional interesse público (artigo 37, inciso IX , da Constituição da República) e a não de submissão às regras previstas na CLT, contudo sem retirar dos contratados os direitos sociais constitucionalmente garantidos a todos os trabalhadores (artigo 7º , incisos VIII e XVII e artigo 39 , § 3º , da Constituição da República). 2. Servidores temporários não fazem jus a décimo terceiro salário e férias remuneradas acrescidas do terço constitucional, salvo expressa previsão legal e/ou contratual em sentido contrário. 3. Existe previsão legal que define o direito dos servidores temporários estaduais em receber tanto a gratificação natalina (13º salário), conforme art. 57 da Lei Complementar nº 13/94, quanto em receber as férias devidas, de acordo com o art. 72 da referida legislação. 4. Entendo pela plena aplicabilidade do Tema 551 em Repercussão Geral do STF para o caso em questão, pois presente a previsão legal de pagamento das verbas pleiteadas pela requerente, ora apelada, não havendo necessidade de previsão contratual cumulativa. 5. A ordem jurídico-constitucional rechaça a vantagem indevida, sob pena de se caracterizar o enriquecimento ilícito do ente público em detrimento do particular. Os serviços foram realizados de boa-fé e úteis ao recorrido e não se pode excluir o pagamento das verbas referidas, uma vez que tal atitude contraria o princípio geral de direito da equidade, pelo qual ninguém, sobretudo a Administração Pública, pode espoliar o trabalhador pela negação da contraprestação justa. 6. Apelação Cível conhecida e improvida. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800753-26.2018.8.18.0030 - Relator: ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA - 1ª Câmara de Direito Público - Data 06/09/2022 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 1ª Câmara de Direito Público

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800753-26.2018.8.18.0030

APELANTE: FRANCISCA DAS CHAGAS FERREIRA MAURIZ SANTANA

Advogado(s) do reclamante: WALDELIA VIEIRA DA SILVA CAVALCANTE, JORDANA MOURA MARQUES PEREIRA, WILSON DE MENESES ROCHA, VALDEMIR LEITE ARAGAO JUNIOR

APELADO: ESTADO DO PIAUI
REPRESENTANTE: ESTADO DO PIAUI

Advogado(s) do reclamado: JORDANA MOURA MARQUES PEREIRA

RELATOR(A): Desembargador ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA

 


EMENTA


 

                                EMENTA

 

APELAÇÃO CÍVEL. CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. CONTRATO DE TRABALHO TEMPORÁRIO. FÉRIAS E 13º SALÁRIO. PREVISÃO LEGAL. LEI ESTADUAL Nº 5.309/03. APLICABILIDADE DO TEMA 551. REMUNERAÇÃO DEVIDA. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO.

1. A natureza jurídica do contrato de temporário é essencialmente o atendimento de excepcional interesse público (artigo 37, inciso IX , da Constituição da República) e a não de submissão às regras previstas na CLT, contudo sem retirar dos contratados os direitos sociais constitucionalmente garantidos a todos os trabalhadores (artigo 7º , incisos VIII e XVII e artigo 39 , § 3º , da Constituição da República).

2. Servidores temporários não fazem jus a décimo terceiro salário e férias remuneradas acrescidas do terço constitucional, salvo expressa previsão legal e/ou contratual em sentido contrário.

3. Existe previsão legal que define o direito dos servidores temporários estaduais em receber tanto a gratificação natalina (13º salário), conforme art. 57 da Lei Complementar nº 13/94, quanto em receber as férias devidas, de acordo com o art. 72 da referida legislação.

4. Entendo pela plena aplicabilidade do Tema 551 em Repercussão Geral do STF para o caso em questão, pois presente a previsão legal de pagamento das verbas pleiteadas pela requerente, ora apelada, não havendo necessidade de previsão contratual cumulativa.

5. A ordem jurídico-constitucional rechaça a vantagem indevida, sob pena de se caracterizar o enriquecimento ilícito do ente público em detrimento do particular. Os serviços foram realizados de boa-fé e úteis ao recorrido e não se pode excluir o pagamento das verbas referidas, uma vez que tal atitude contraria o princípio geral de direito da equidade, pelo qual ninguém, sobretudo a Administração Pública, pode espoliar o trabalhador pela negação da contraprestação justa. 

6. Apelação Cível conhecida e improvida. 

 


RELATÓRIO


 

Processo nº 0800753-26.2018.8.18.0030 / APELAÇÃO CÍVEL

APELANTE: ESTADO DO PIAUÍ 

APELADO: FRANCISCA DAS CHAGAS FERREIRA MAURIZ SANTANA

RELATOR: ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA

 

RELATÓRIO

 

 

Senhor Presidente, eminentes julgadores integrantes desta e. Primeira Câmara de Direito Público, senhor(a) procurador(a) de justiça, senhores advogados, demais pessoas aqui presentes.

 

Cuida-se de Apelação Cível interposta pelo ESTADO DO PIAUÍ em face da sentença (Id. 3359014) proferida nos autos da Reclamação Trabalhista nº 0800753-26.2018.8.18.0030, ajuizada pela Sra. FRANCISCA DAS CHAGAS FERREIRA MAURIZ SANTANA, ora apelada.

 

Na exordial, o requerente, ora apelado, informa que foi contratada pelo reclamado para exercício do cargo temporário de professora (18 meses) no âmbito do programa PROJOVEM e que durante esse período, não houve o pagamento do décimo terceiro salário e das férias. Continua por afirmar que o edital do processo seletivo e a própria lei de regência determinam que o servidor tem direito a essas parcelas.

 

Por sentença, a MM. Juíza julgou procedentes os pedidos formulados pela autora, para que o requerido pague as verbas referentes às férias e 13º salário devidos no período trabalhado pela autora, observados os parâmetros indicados pela Lei Estadual nº 5.309/03.

 

Inconformado com a referida decisão, o apelante interpôs este recurso, requerendo a reforma da sentença, argumentando pela incorreta aplicação da tese de Repercussão Geral nº 551 do STF, e a ausência de previsão legal ou contratual para o pagamento do décimo terceiro e férias.

 

A parte Apelada apresentou suas contrarrazões, requerendo a manutenção da sentença recorrida.

 

Instado, o Ministério Público opinou pelo conhecimento e desprovimento da apelação (ID 4660970).

 

É o relatório.

 

Encaminhem-se os presentes autos ao Presidente da 1ª Câmara de Direito Público deste TJPI, para a sua inclusão em pauta de julgamento, nos termos do art. 934, do CPC.

 

Cumpra-se.

 

Teresina, 25 de fevereiro de 2022.

 

 

Desembargador ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA

 


VOTO


 

 

VOTO DO RELATOR

 

 

I – DO JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE

 

A apelação cível merece ser conhecida, eis que verificados os seus pressupostos de admissibilidade.

 

II – MÉRITO

 

A celeuma reside na possibilidade jurídica de pagamento do décimo terceiro e férias devido no período trabalhado por servidora temporária, contratada pelo Estado do Piauí.

 

A natureza jurídica do contrato de temporário é essencialmente o atendimento de excepcional interesse público (artigo 37, inciso IX , da Constituição da República) e a não de submissão às regras previstas na CLT, contudo sem retirar dos contratados os direitos sociais constitucionalmente garantidos a todos os trabalhadores (artigo 7º , incisos VIII e XVII e artigo 39 , § 3º , da Constituição da República).

 

Verifico que o recente julgamento do Recurso Extraordinário Nº 1.066.677, firmando o Tema 551 em Repercussão Geral do STF, estabeleceu a orientação no sentindo de que, em regra, o servidor temporário não faz jus a eventuais verbas de natureza trabalhista, ressalvando duas exceções, vejamos:

 

"Servidores temporários não fazem jus a décimo terceiro salário e férias remuneradas acrescidas do terço constitucional, salvo (I) expressa previsão legal e/ou contratual em sentido contrário, ou (II) comprovado desvirtuamento da contratação temporária pela Administração Pública, em razão de sucessivas e reiteradas renovações e/ou prorrogações”.

 

Diante da colacionada orientação, percebo que a Lei Estadual nº 5.309/03 estabelece os direitos que são garantidos aos trabalhadores temporários, fazendo referência aos dispositivos da Lei Complementar nº 13/94 (Estatuto dos Servidores Públicos) que tratam das férias e do 13º salário. Vejamos:

 

“Art. 8° Aplica-se ao pessoal contratado nos termos desta Lei o disposto nos arts. 46 e 49; 50, 51 e 53; 57 a 60-A; 66 e 67, caput; 72, §§ l° e 2°; 106; 112 a 119; 120; incisos, I, in fine, e II, §§ l° a 3°, 137, incisos I a V, alíneas a e c, VI a XII; 138; incisos I a VI e IX a XVIII; 139; 142 a 147; 148, incisos I, II e III, a 153, incisos I a VII, e IX a XII, XV e XVI; 157 a 163; inciso I, primeira parte, a III, e §§ 1 ° a 4°; 201 a 203; 205, da Lei Complementar 13, de 03 de janeiro de 1994. (Artigo 8o com redação dada pela Lei 6.110/2011)”

 

Assim, percebo que existe previsão legal que define o direito dos servidores temporários estaduais em receber tanto a gratificação natalina (13º salário), conforme art. 57 da Lei Complementar nº 13/94, quanto em receber as férias devidas, de acordo com o art. 72 da referida legislação.

 

Entendo pela plena aplicabilidade do Tema 551 em Repercussão Geral do STF para o caso em questão, pois presente a previsão legal de pagamento das verbas pleiteadas pela requerente, ora apelada, não havendo necessidade de previsão contratual cumulativa.

 

Do contrário ao afirmado pelo apelante, desnecessária a previsão contratual de cláusula definidora do pagamento de férias e 13º salário, pois a existência de previsão legal sobre o tema supre qualquer deficiência contratual.

 

A natureza administrativa do contrato e aplicação das regras estatutárias faz com que sejam devidas as parcelas requeridas, das férias e da gratificação natalina, por força das normas do art. 7º, VIII e XVII c/c o § 3º do art. 39 da Constituição da República.

 

A ordem jurídico-constitucional rechaça a vantagem indevida, sob pena de se caracterizar o enriquecimento ilícito do ente público em detrimento do particular. Os serviços foram realizados de boa-fé e úteis ao recorrido e não se pode excluir o pagamento das verbas referidas, uma vez que tal atitude contraria o princípio geral de direito da equidade, pelo qual ninguém, sobretudo a Administração Pública, pode espoliar o trabalhador pela negação da contraprestação justa.

 

 III – DO DISPOSITIVO

 

Diante do exposto, conheço do recurso, eis que existentes os seus pressupostos de admissibilidade, negando-lhe provimento, para manter a sentença impugnada em todos os seus termos.

 

É o voto.

 



Teresina, 06/09/2022

Detalhes

Processo

0800753-26.2018.8.18.0030

Órgão Julgador

Desembargador ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara de Direito Público

Relator(a)

ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras de Direito Público

Assunto Principal

FGTS/Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço

Autor

FRANCISCA DAS CHAGAS FERREIRA MAURIZ SANTANA

Réu

ESTADO DO PIAUI

Publicação

06/09/2022