TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 1ª Câmara de Direito Público
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800340-85.2019.8.18.0027
APELANTE: SINDICATO DOS SERVIDORES PUBLICOS MUNICIPAIS DE CRISTALANDIA DO PIUAI
Advogado(s) do reclamante: ISMAEL PARAGUAI DA SILVA REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO ISMAEL PARAGUAI DA SILVA
APELADO: MUNICIPIO DE CRISTALANDIA DO PIAUI
REPRESENTANTE: MUNICIPIO DE CRISTALANDIA DO PIAUI
RELATOR(A): Desembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
EMENTA
APELAÇÃO CÍVEL. COBRANÇA DE VERBAS SALARIAIS. SERVIDOR MUNICIPAL. LEI FEDERAL Nº 11.738/2008. CONSTITUCIONALIDADE. ADI Nº 4167. OBRIGATORIEDADE DE IMPLEMENTAÇÃO DO PISO SALARIAL AOS PROFISSIONAIS DO MAGISTÉRIO PÚBLICO DA EDUCAÇÃO BÁSICA. CABIMENTO. SENTENÇA MANTIDA EM TODOS OS SEUS TERMOS. RECURSO DE APELAÇÃO CONHECIDO E IMPROVIDO.
RELATÓRIO
RELATÓRIO
Trata-se de RECURSO DE APELAÇÃO interposto pelo MUNICÍPIO DE CRISTALÂNDIA DO PIAUÍ-PI, irresignado com sentença prolatada nos autos da Ação de Obrigação de Fazer – Reajuste do Piso Salarial dos Professores (Processo nº 0800340-85.2019.8.18.0027, Vara única da Comarca de Corrente-PI), ajuizada pelo SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS MUNICIPAIS DE CRISTALÂNDIA DO PIAUÍ, ora apelado.
O requerente ajuizou a ação originária alegando que o Município de Cristalândia do Piauí não implantou o reajuste do Piso Salarial Profissional do Magistério para os professores da Rede Pública Municipal, determinado pela Lei Federal nº 11.738/2008.
Ao final requer a condenação do requerido a pagar a remuneração conforme o valor estabelecido pelo MEC para o Piso Nacional da Educação.
Por decisão, o MM. Juiz a quo DEFERIU o pedido de tutela antecipada para determinar ao Município requerido a imediata implantação do piso salarial nacional aos professores da Rede Municipal de Ensino, a variação de 4,17% para o ano de 2019, este no valor de dois mil, quinhentos e cinquenta e sete reais e setenta e três centavos (R$ 2.557,73), sob pena de responsabilização por descumprimento de ordem judicial e de aplicação de multa cominatória diária no valor de um mil reais (R$ 1.000,00), Num. 3739492 - Pág. 1/2.
Devidamente citado, o requerido não apresentou contestação (Num. 3739644 - Pág. 1).
Por sentença (Num. 3739648 - Pág. 1/5), o d. Magistrado a quo julgou PARCIALMENTE PROCEDENTE a ação, condenando o município requerido na obrigação de implantar o piso salarial nacional aos professores da rede municipal de ensino, à variação de 4,17% para o ano de 2019, sem prejuízo da atualização referente ao ano de 2020; pagar aos professores da rede de ensino municipal a diferença salarial, em relação ao piso nacional salarial – 2019, do período de janeiro de 2019 até fevereiro de 2020, de igual modo, sem prejuízo da atualização referente ao ano de 2020, nos moldes da Lei nº. 11.738/2008.
Inconformado o MUNICÍPIO DE CRISTALÂNDIA-PI apresentou Recurso de Apelação, alegando a perda superveniente do objeto da ação, ausência de interesse processual, haja vista a implementação da Lei Municipal nº 129/2020 ter implementado o piso salarial pleiteado. Ao final pugna pelo conhecimento e provimento do Recurso de Apelação, a fim de reformar a sentença vergastada.
Devidamente intimado, o apelado não apresentou contrarrazões, Num. 3739662 - Pág. 1.
Encaminhados os autos a d. Procuradoria Geral de Justiça, esta opinou pelo improvimento do Recurso de Apelação, Num. 5128249 - Pág. 1.
É o relatório.
VOTO
VOTO DO RELATOR
O DESEMBARGADOR HAROLDO OLIVEIRA REHEM (Votando): Eminentes julgadores, a APELAÇÃO CÍVEL merece ser CONHECIDA, uma vez que se encontra com seus pressupostos extrínsecos de admissibilidade; tempestividade, preparo, regularidade formal e inexistência de fato impeditivo, e intrínsecos: legitimidade, interesse e cabimento.
O cerne da questão discutida nos autos da ação originária, faz referência ao descumprimento, ou não pelo recorrente da Lei Federal no tocante à implementação do Piso Profissional do Magistério.
Como bem fundamentou o d. Magistrado a quo, o apelado objetiva com a ação originária o pagamento da diferença do vencimento básico dos cargos de professor do Município de Cristalândia-PI, tendo como amparo o piso nacional.
Devendo ser considerado para tanto, a data do ajuizamento da ação como o marco inicial para constatação da prescrição quinquenal.
Sobre o piso salarial do magistério da educação básica e a jornada de trabalho para atividade extraclasse, prevê a Lei Federal nº 11.738/2008, in verbis:
“Art. 2º - O piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica será de R$ 950,00 (novecentos e cinquenta reais) mensais, para a formação em nível médio, na modalidade Normal, prevista no art. 62 da Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
§ 1º - O piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios não poderão fixar o vencimento inicial das Carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 (quarenta) horas semanais.
(…)
§ 4º Na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos.”
A supramencionada lei foi objeto da ADI nº 4167/DF, tendo o eg. Supremo Tribunal Federal declarado sua constitucionalidade:
“CONSTITUCIONAL. FINANCEIRO. PACTO FEDERATIVO E REPARTIÇÃO DE COMPETÊNCIA. PISO NACIONAL PARA OS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA. CONCEITO DE PISO: VENCIMENTO OU REMUNERAÇÃO GLOBAL. RISCOS FINANCEIRO E ORÇAMENTÁRIO. JORNADA DE TRABALHO: FIXAÇÃO DO TEMPO MÍNIMO PARA DEDICAÇÃO A ATIVIDADES EXTRACLASSE EM 1/3 DA JORNADA. ARTS. 2º, §§ 1º E 4º, 3º, CAPUT, II E III E 8º, TODOS DA LEI 11.738/2008. CONSTITUCIONALIDADE. PERDA PARCIAL DE OBJETO. 1. Perda parcial do objeto desta ação direta de inconstitucionalidade, na medida em que o cronograma de aplicação escalonada do piso de vencimento dos professores da educação básica se exauriu (arts. 3º e 8º da Lei 11.738/2008). 2. É constitucional a norma geral federal que fixou o piso salarial dos professores do ensino médio com base no vencimento, e não na remuneração global. Competência da União para dispor sobre normas gerais relativas ao piso de vencimento dos professores da educação básica, de modo a utilizá-lo como mecanismo de fomento ao sistema educacional e de valorização profissional, e não apenas como instrumento de proteção mínima ao trabalhador. 3. É constitucional a norma geral federal que reserva o percentual mínimo de 1/3 da carga horária dos docentes da educação básica para dedicação às atividades extraclasse. Ação direta de inconstitucionalidade julgada improcedente. Perda de objeto declarada em relação aos arts. 3º e 8º da Lei 11.738/2008. (ADI 4167, Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno, julgado em 27/04/2011, DJe-162 DIVULG 23-08-2011 PUBLIC 24-08-2011 EMENT VOL-02572-01 PP-00035 RTJ VOL-00220-01 PP-00158 RJTJRS v. 46, n. 282, 2011, p. 29-83)”
Nesta perspectiva, a Corte firmou entendimento que o piso salarial deve ser fixado com base no vencimento, sem abranger as gratificações e vantagens pecuniárias pagas a qualquer título, que somadas àquele compõem a chamada remuneração global.
Cabe registrar que no julgamento dos Embargos de Declaração opostos contra a decisão na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4167, o Supremo Tribunal Federal determinou que a observância ao piso salarial nacional nos termos estabelecidos pela Lei nº 11.738/2008, é devida a contar de 27 de abril de 2011, data do julgamento definitivo pelo Plenário.
Outrossim, não se deve olvidar que, por força do artigo 5º da Lei Federal nº 11.738/08, o montante de novecentos e cinquenta reais (R$ 950,00) deve ser atualizado anualmente, in verbis:
“Art. 5º O piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica será atualizado, anualmente, no mês de janeiro, a partir do ano de 2009.”
Desta feita, verifico que o Município apelante não conseguiu fazer prova do pagamento do piso salarial pleiteado, nos ditames da Lei Federal nº 11.738/08, referente ao período de maio a dezembro de 2009.
É certo que, por força do art. 373, do CPC, incumbe ao Poder Público comprovar fato impeditivo, extintivo ou modificativo do direito da autora, como já exposto anteriormente.
Assim, não tendo o apelante se desincumbido do ônus da prova do pagamento, deve ele ser condenado a pagar o vencimento básico conforme a Lei Federal nº 11.738/2008, sob pena de enriquecimento ilícito.
Portanto, faz jus ao requerente às diferenças relativas ao piso nacional do magistério, referente ao período pleiteado na inicial, posto que recebia subsídio em valor inferior ao parâmetro mínimo estabelecido na Lei Federal nº 11.738/08.
Assim entendo inexistir fundamento legal a justificar a reforma da sentença hostilizada.
Diante o exposto, e em sendo desnecessárias quaisquer outras assertivas, VOTO para NEGAR PROVIMENTO a este recurso, mantendo-se na íntegra a sentença vergastada.
É o voto.
Teresina, 06/05/2022
0800340-85.2019.8.18.0027
Órgão JulgadorDesembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara de Direito Público
Relator(a)HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras de Direito Público
Assunto PrincipalPiso Salarial
AutorSINDICATO DOS SERVIDORES PUBLICOS MUNICIPAIS DE CRISTALANDIA DO PIUAI
RéuMUNICIPIO DE CRISTALANDIA DO PIAUI
Publicação12/05/2022