Acórdão de 2º Grau

Empréstimo consignado 0802254-21.2019.8.18.0049


Ementa

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECIPROCAMENTE OPOSTOS – APELAÇÃO CÍVEL – NEGÓCIOS BANCÁRIOS - APLICAÇÃO DA SÚMULA 18 DO TJPI - MÁ-FÉ CONSTATADA – REPETIÇÃO DE INDÉBITO - OCORRÊNCIA – OMISSÃO - INCIDÊNCIA DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA – TERMO INICIAL – RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL – SÚMULAS 43, 54 E 362 DO STJ – 2° RECURSO PROVIDO. 1. “A ausência de comprovação pela instituição financeira do valor do contrato para a conta bancária do consumidor/mutuário, garantidos o contraditório e a ampla defesa, ensejará a declaração de nulidade da avença, com os consectários”(Súmula n° 18 do TJPI). 2. A repetição em dobro do indébito, com fulcro no parágrafo único do art. 42 do Código de Defesa do Consumidor, é admitida quando comprovada a cobrança indevida e a má-fé do credor. 3. É omisso o julgado que, em sendo o caso, não menciona o período incidente dos juros de mora e da correção monetária sobre o valor no qual fora condenada a parte sucumbente. Incidência das Súmulas 43, 54 e 362, ambas do STJ. 4. Embargos opostos pela 2ª embargante providos. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0802254-21.2019.8.18.0049 - Relator: RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR - 4ª Câmara Especializada Cível - Data 28/10/2021 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0802254-21.2019.8.18.0049

APELANTE: MARIA DAS DORES LUSTOSA E SILVA

Advogado(s) do reclamante: RODOLFO LUIS ARAUJO DE MORAES, LEONARDO BARBOSA SOUSA, MARCOS VINICIUS MACHADO VILARINHO

APELADO: BANCO VOTORANTIM S.A.

Advogado(s) do reclamado: ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 


EMENTA


 

 

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO RECIPROCAMENTE OPOSTOS – APELAÇÃO CÍVEL – NEGÓCIOS BANCÁRIOS - APLICAÇÃO DA SÚMULA 18 DO TJPI - MÁ-FÉ CONSTATADA – REPETIÇÃO DE INDÉBITO - OCORRÊNCIA – OMISSÃO - INCIDÊNCIA DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA – TERMO INICIAL – RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL – SÚMULAS 43, 54 E 362 DO STJ – 2° RECURSO PROVIDO.  

1. “A ausência de comprovação pela instituição financeira do valor do contrato para a conta bancária do consumidor/mutuário, garantidos o contraditório e a ampla defesa, ensejará a declaração de nulidade da avença, com os consectários”(Súmula n° 18 do TJPI).  

2. A repetição em dobro do indébito, com fulcro no parágrafo único do art. 42 do Código de Defesa do Consumidor, é admitida quando comprovada a cobrança indevida e a má-fé do credor.  

3. É omisso o julgado que, em sendo o caso, não menciona o período incidente dos juros de mora e da correção monetária sobre o valor no qual fora condenada a parte sucumbente. Incidência das Súmulas 43, 54 e 362, ambas do STJ.

4. Embargos opostos pela 2ª embargante providos.

 


RELATÓRIO


 

APELAÇÃO CÍVEL (198) -0802254-21.2019.8.18.0049
Origem: 
APELANTE: MARIA DAS DORES LUSTOSA E SILVA
 
Advogados do(a) APELANTE: MARCOS VINICIUS MACHADO VILARINHO - PI7803-A, LEONARDO BARBOSA SOUSA - PI8284-A, RODOLFO LUIS ARAUJO DE MORAES - PI7781-A

APELADO: BANCO VOTORANTIM S.A.

Advogado do(a) APELADO: ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO - PE23255-A

RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

 


Tratam-se de embargos de declaração – reciprocamente opostos - nos autos da APELAÇÃO cível, aqui versada, intentado pelo BANCO VOTORANTIM S.A., ora 1ª embargante/ 2º embargado em face de MARIA DAS DORES LUSTOSA E SILVA, ora 2º embargante/ 1ª embargada, supostamente tencionando suprir omissão que entende repousar no acórdão respectivo.

Para tanto, alega o 1º embargante, em síntese, que o acórdão incorrera no citado vício, visto que, contrariamente ao afirmado na decisão vergastada, aos autos foi juntado o comprovante de depositado dos valores em discussão. Nesse sentido, não houve apreciação do pleito de compensação dos valores depositados na conta do autor, sendo injustificada a aplicação da repetição de indébito, pois a má-fé não foi comprovada. Ao final, pede a procedência dos embargos.

A 1ª embargada, embora regularmente intimada, deixou correr in albis o prazo para responder ao recurso. Por outro lado, opôs embargos declaratórios, figurando, portanto, como 2ª embargante.

A 2ª embargante, em síntese, aduz que o acórdão incorrera no vício supramencionado, pois se omitira quanto ao termo inicial da correção monetária e dos juros para a incidência dos danos morais e materiais. Nesse sentido, propugna para que sejam aplicadas as súmulas 43, 54 e 362, ambas do STJ. Pede, assim, a procedência dos embargos.

O 2º embargado, regularmente intimado, apresentou contrarrazões, nas quais propugnou pelo não acolhimento do petitório da 2° embargante.

É o quanto basta relatar, a fim de se passar ao voto.

 

 


VOTO


 

 

O SENHOR DESEMBARGADOR RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR (votando): Como asseverado, argumenta o 1° embargante que o acórdão recorrido incorreu em omissão, porquanto não teria apreciado o fato de ter sido acostado aos autos o comprovante de depósito da importância objeto da lide, na conta da 2° embargada. Desse modo, seria descabida aplicação da repetição de indébito, pois a má-fé do credor não estaria comprovada.

Sem razão, no entanto, quanto à irresignação elencada. Esse ponto foi devidamente esclarecido e resolvido. A propósito desta assertiva e para melhor elucidá-la, eis o que ficou decidido, naquilo que aqui deveras importa, ipsis litteris:

Aliás, do exame das provas carreadas para o caderno processual pode-se ver que ali sequer está o comprovante de transferência do valor do empréstimo supostamente contratado, sem dúvida, dentre todos, o documento mais hábil para confirmar a existência e validade de uma relação contratual bancária. O s “prints” trazidos pelo apelado aos autos não demonstram e não confirmam a existência, ou não, do TED.

(…)

De mais a mais, ante a ausência de comprovação da transferência do valor tido por contratado, impõe-se reconhecer à apelante o lídimo direito previsto no art. 42, parágrafo único, do CDC, (…)

por via de consequência, que os valores cobrados e recebidos indevidamente pelo apelado consubstanciaram conduta ilícita, por não possuírem lastro negocial válido, impondo a aceitação de que os danos sofridos pela apelante transcenderam a esfera do mero aborrecimento, afigurando-se necessária a condenação do primeiro no pagamento de indenização por danos morais à segunda.

Assim, percebe-se que a razão não assiste ao 1° embargante, pois aos autos não foi juntado comprovante válido, dessa suposta operação bancária. Nesse diapasão, quanto à repetição de indébito, as construções doutrinária e jurisprudencial entendem que, a incidência do parágrafo único do art. 42 do CDC somente pode ocorrer quando comprovada a cobrança indevida e a má-fé do credor. Observa-se, no cenário em debate, que a má-fé do credor é clara e comprovada, visto que cobrou e recebeu valores indevidos. Desse modo, justifica-se o não acolhimento do requisitado, pelo embargante e a manutenção da repetição de indébito.

Adiante, quanto ao que argumenta a 2° embargante, é oportuno transcrever-se o trecho da decisão em que se dá a alegada omissão, verbis:

EX POSITIS e sendo o quanto necessário asseverar, VOTO pelo provimento do recurso, a fim de julgar procedente a ação, condenando o apelado no pagamento de R$ 3.000,00 (três mil reais), a título de danos morais, com correção monetária e juros de mora de 1% ao mês, bem como a restituir à apelante, em dobro, as parcelas que dela indevidamente cobrou e recebeu, arcando, ainda, com as custas e honorários advocatícios, estes arbitrados em 10% (dez por cento) incidentes sobre o valor da condenação.

De fato, tem-se que nos autos a condenação, mostrou-se omissa quanto ao período de incidência dos juros de mora e da correção monetária sobre o valor no qual fora condenada a parte sucumbente.

Nesse contexto, segundo orientação do Superior Tribunal de Justiça, o cálculo dos danos morais dá-se a partir do evento danoso, nos termos da Súmula 54/STJ, e a correção monetária deve ser estabelecida desde a data do arbitramento, consoante a Súmula 362/STJ. Seguindo essa direção, em relação aos danos materiais, a incidência deverá ocorrer do mesmo modo, porém, a correção monetária deverá ser aplicada a partir da data do efetivo prejuízo, conforme a Súmula 43/STJ.

Destarte, faz-se imprescindível, realmente, não só se suprir a omissão denunciada neste recurso, como se estipular, de forma clara e definitiva, a incidência, sobre a condenação imposta ao embargante, tanto dos juros de mora quanto da correção monetária.

EX POSITIS e sendo o quanto se me afigura necessário asseverar, VOTO pelo provimento, unicamente, dos EMBARGOS opostos pela 2° embargante, a fim de, complementando-se o julgado, determinar-se que: i) sobre o valor da indenização pelos danos morais, incidam juros de mora de 1% ao mês, contados a partir do evento danoso, nos termos da Súmula 54, do STJ, com correção monetária desde a data do arbitramento, como prevê a Súmula 362, do STJ; e ii) sobre o valor da indenização pelos danos materiais, incidam os mesmos juros e da mesma forma, porém, aplicando-se a correção monetária, a partir da data do efetivo prejuízo, nos termos da Súmula 43, também do STJ.

 



Teresina, 28/10/2021

Detalhes

Processo

0802254-21.2019.8.18.0049

Órgão Julgador

Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Empréstimo consignado

Autor

MARIA DAS DORES LUSTOSA E SILVA

Réu

BANCO VOTORANTIM S.A.

Publicação

28/10/2021