Decisão Terminativa de 2º Grau

Obrigação de Fazer / Não Fazer 0801303-62.2020.8.18.0026


Decisão Terminativa

PODER JUDICIÁRIO 
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
1ª Câmara Especializada Cível
GABINETE DO DESEMBARGADOR MÁRIO BASÍLIO DE MELO

 

PROCESSO: 0801303-62.2020.8.18.0026

CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)

ASSUNTO(S): [Protesto Indevido de Título, Obrigação de Fazer / Não Fazer]


APELANTE: ANA LUCIA TORRES DE AZEVEDO E SILVA

Advogado do(a) APELANTE: ITALO ANTONIO COELHO MELO - PI9421-A

APELADO: BANCO DO BRASIL SA, BANCO DO BRASIL SA

Advogados do(a) APELADO: KARINA DE ALMEIDA BATISTUCI - PI7197-A, NELSON WILIANS FRATONI RODRIGUES - PI8202-A

RELATOR: Desembargador Mário Basílio de Melo


DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. PASEP. CONTESTAÇÃO DE SAQUES EM CONTA INDIVIDUALIZADA. DISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA. TEMA REPETITIVO 1300 DO STJ. NECESSIDADE DE REABERTURA DA INSTRUÇÃO PROCESSUAL. ANULAÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.


DECISÃO TERMINATIVA

I – RELATÓRIO

Trata-se de Recurso de Apelação Cível interposto por ANA LÚCIA TORRES DE AZEVEDO E SILVA em face da sentença proferida pelo Juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de Campo Maior/PI, que, nos autos da Ação de Reparação por Danos Materiais e Morais ajuizada em face do BANCO DO BRASIL S.A., julgou improcedentes os pedidos formulados na inicial, nos termos do art. 487, inciso I, do Código de Processo Civil.

Na origem, o autor alegou que participou do Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PASEP desde o ano de 1978, permanecendo vinculado ao programa por mais de três décadas. Sustentou que, ao solicitar o levantamento dos valores existentes em sua conta vinculada, recebeu quantia ínfima e incompatível com o período de contribuição, circunstância que, após análise de extratos e microfilmagens, teria revelado a existência de supostos saques indevidos e má gestão dos valores depositados, imputando ao banco réu responsabilidade pelos prejuízos materiais e morais experimentados.

Regularmente citado, o BANCO DO BRASIL S.A. não apresentou contestação.

Sobreveio sentença que, entendendo não haver demonstração de irregularidade na administração da conta vinculada, concluiu pela inexistência de ato ilícito imputável à instituição financeira, julgando improcedentes os pedidos autorais (ID 12050094).

Irresignado, o autor interpôs o presente Recurso de Apelação, sustentando, em síntese, que a demanda versa sobre subtração de valores existentes na conta PASEP, que os extratos apresentados indicariam inconsistências incompatíveis com o período de participação no programa; e que a sentença não teria considerado adequadamente o conjunto probatório constante dos autos. Ao final, requereu a reforma da sentença, para que sejam julgados procedentes os pedidos da inicial (ID 3104003).

Contrarrazões apresentadas, nas quais suscita, em síntese, a regularidade da gestão da conta PASEP e a inexistência de ato ilícito (ID 3104010).

Por decisão, as preliminares arguidas pelo Banco do Brasil S.A foram rejeitadas. Determinou a suspensão do julgamento quanto ao mérito, haja vistas, pendente julgamento do Tema 1300 do Superior Tribunal de Justiça.

O recorrido interpôs Agravo Interno, alegando a ilegitimidade do polo passivo e incompetência da Justiça Estadual (ID 28463407).

Julgamento do Agravo Interno, negando provimento, mantendo integralmente a decisão recorrida (ID 31877341).

Autos não encaminhados ao Ministério Público Superior, por não se vislumbrar hipótese que justifique sua intervenção, nos termos do Ofício-Circular nº 174/2021 (SEI nº 21.0.000043084-3).

É o necessário relatório. Passo a decidir.

II – FUNDAMENTAÇÃO

De início, presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.

1. DA APLICAÇÃO IMEDIATA DO PRECEDENTE VINCULANTE (ARTS. 1.037 E 1.040 DO CPC) E A DESNECESSIDADE DE TRÂNSITO EM JULGADO

A controvérsia posta nos autos diz respeito à alegada responsabilidade do BANCO DO BRASIL S.A. por supostos desfalques e aplicação incorreta de índices de atualização monetária na conta individual do PASEP titularizada por ANA LUCIA TORRES DE AZEVEDO E SILVA, bem como, à inversão do ônus da prova, sob a égide do Código de Defesa do Consumidor.

No caso concreto, verifica-se que a sentença recorrida julgou improcedente a demanda sob o fundamento de inexistência de prova de irregularidade na gestão da conta vinculada ao PASEP.

O Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o Tema 1300 dos recursos repetitivos, fixou a seguinte tese vinculante:

“Nas ações em que o participante contesta saques em sua conta individualizada do PASEP, o ônus de provar cabe:

a) ao participante, quanto aos saques sob as formas de crédito em conta e de pagamento por Folha de Pagamento (PASEP-FOPAG), por ser fato constitutivo de seu direito, na forma do art. 373, I, do CPC, sendo incabível a inversão (art. 6º, VIII, do CDC) ou a redistribuição (art. 373, § 1º, do CPC) do ônus da prova;

b) ao réu, quanto aos saques sob a forma de saque em caixa das agências do BB, por ser fato extintivo do direito do autor, na forma do art. 373, II, do CPC.”

Trata-se de tese de observância obrigatória, nos termos do art. 927, III, do CPC.

No caso concreto, conforme destacado na sentença e nos documentos colacionados, os lançamentos questionados pela autora referem-se, predominantemente, a registros identificados como “PASEP-FOPAG” (pagamento em folha), ou seja, créditos e retiradas efetuados mediante repasse direto à folha de pagamento.

À luz do Tema 1300, quanto a tais modalidades de saque (crédito em conta e pagamento por folha – PASEP-FOPAG), o ônus de provar a irregularidade é da própria participante, por se tratar de fato constitutivo do direito alegado (art. 373, I, do CPC), sendo expressamente vedada tanto a inversão do ônus da prova com fundamento no art. 6º, VIII, do CDC quanto a redistribuição prevista no art. 373, § 1º, do CPC.

Tem-se que é incabível a inversão ou redistribuição do ônus da prova em ações como a presente, recaindo à parte autora a incumbência no tocante aos saques sob as formas de crédito em conta e de pagamento por folha de pagamento, por ser fato constitutivo de seu direito; e ao Banco réu quanto aos saques em caixa das agências do Banco do Brasil, por ser fato extintivo do direito do autor.

No presente caso, observa-se que o autor apresentou extratos, microfilmagens e documentos relativos à sua conta vinculada ao PASEP, elementos que, ao menos em juízo de cognição inicial, revelam a existência de substrato mínimo de constituição do seu direito, apto a justificar a produção de prova técnica ou documental complementar, como contracheques e extratos de conta corrente da época para demonstrar que o crédito (FOPAG/Conta) não foi efetivado (fato constitutivo de seu direito). De igual modo, deve ser oportunizado ao banco a apresentação de documentos, como recibos de saque, para comprovar os lançamentos específicos de saques em caixa (fato extintivo do direito do autor).

Diante desse cenário, mostra-se necessário anular a sentença proferida pelo Juízo de primeiro grau, a fim de que o processo retorne à instância originária para regular prosseguimento da instrução processual, com observância da repartição do ônus probatório estabelecida na tese firmada pelo Superior Tribunal de Justiça.

Finalmente, registre-se que as decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recursos repetitivos constituem espécie de precedente qualificado, cuja observância é obrigatória pelos juízes e tribunais pátrios, na resolução de processos que versem sobre a questão tratada, a teor do que prescreve o art. 927, inciso III, do Código de Processo Civil: 

“Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:

I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade;

II - os enunciados de súmula vinculante;

III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos;

IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional;

V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados.”

Por essa razão, o diploma processual autoriza que o relator julgue monocraticamente o recurso com base no posicionamento assentado pelo Superior Tribunal de Justiça:

“Art. 932. Incumbe ao relator:

[...]

IV - negar provimento a recurso que for contrário a:

[...]

b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;

[...]

V - depois de facultada a apresentação de contrarrazões, dar provimento ao recurso se a decisão recorrida for contrária a:

[...]

b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;

[...]

Art. 1.011. Recebido o recurso de apelação no tribunal e distribuído imediatamente, o relator:

I - decidi-lo-á monocraticamente apenas nas hipóteses do art. 932, incisos III a V;”

Em conclusão, havendo tese repetitiva firmada pela Corte Superior sobre a matéria discutida nos autos, impende-se reconhecer que a demanda comporta julgamento monocrático.

IV- DISPOSITIVO

Ante o exposto, com fundamento nos arts. 932, V, b, do Código de Processo Civil, DOU PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO DE APELAÇÃO, para ANULAR a sentença recorrida, determinando o retorno dos autos ao Juízo de origem, a fim de que seja reaberta a fase instrutória e aplicada, de forma adequada, a sistemática de distribuição do ônus da prova estabelecida no Tema Repetitivo nº 1300 do Superior Tribunal de Justiça.

Publique-se. Intimem-se.

Após o trânsito em julgado desta decisão, retornem os autos ao Juízo de origem para regular prosseguimento, dando-se baixa na distribuição.

Teresina, datado e assinado eletronicamente.


Desembargador MÁRIO BASÍLIO DE MELO

Relator











(TJPI - AGRAVO INTERNO CÍVEL 0801303-62.2020.8.18.0026 - Relator: MARIO BASILIO DE MELO - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 22/05/2026 )

Detalhes

Processo

0801303-62.2020.8.18.0026

Órgão Julgador

Desembargador MARIO BASILIO DE MELO

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

MARIO BASILIO DE MELO

Classe Judicial

AGRAVO INTERNO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Obrigação de Fazer / Não Fazer

Autor

BANCO DO BRASIL SA

Réu

ANA LUCIA TORRES DE AZEVEDO E SILVA

Publicação

22/05/2026