
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
1ª Câmara Especializada Cível
GABINETE DO DESEMBARGADOR MÁRIO BASÍLIO DE MELO
PROCESSO: 0800756-35.2025.8.18.0062
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Indenização por Dano Moral, Empréstimo consignado, Descontos Indevidos, Repetição do Indébito]
APELANTE: LUIZA FRANCISCA DA CONCEICAO
Advogados do(a) APELANTE: AURELIO GABRIEL DE SOUSA ALVES - PI12406-A, GUILHERME ANTUNES ALVES MENDES E SOUSA - PI11532-A
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado do(a) APELADO: ROBERTO DOREA PESSOA - BA12407
RELATOR: Desembargador Mário Basílio de Melo
DECISÃO TERMINATIVA
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE CONTRATUAL C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E REPETIÇÃO DE INDÉBITO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. TERMINAL DE AUTOATENDIMENTO (CAIXA ELETRÔNICO). USO DE CARTÃO COM CHIP, SENHA PESSOAL E BIOMETRIA. ALEGAÇÃO DE ANALFABETISMO AFASTADA. AUTORA ALFABETIZADA. INAPLICABILIDADE DAS SÚMULAS 30 E 37 DO TJ-PI. COMPROVAÇÃO DA DISPONIBILIZAÇÃO DO VALOR NA CONTA BANCÁRIA DA PARTE AUTORA. REGULARIDADE DA CONTRATAÇÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 40 DO TJ-PI. JULGAMENTO MONOCRÁTICO. ART. 932, IV, "a", DO CPC. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. SENTENÇA MANTIDA.
1. RELATÓRIO
Trata-se de Recurso de Apelação Cível interposto por LUIZA FRANCISCA DA CONCEIÇÃO contra sentença proferida pelo Juízo da Vara Única da Comarca de Padre Marcos - PI, que julgou improcedentes os pedidos formulados na Ação de Indenização por Danos Morais c/c Repetição de Indébito ajuizada em face do BANCO BRADESCO S.A..
Na inicial, a autora alegou desconhecer a contratação do empréstimo consignado nº 012356011662, com previsão de 84 parcelas de R$32,20. Em contestação, o banco defendeu a validade da operação, apresentando "log" de sistema que atesta a contratação via caixa eletrônico mediante uso de cartão pessoal e biometria, além de provar a disponibilização o do valor de R$1.387,80 na conta da autora.
A sentença julgou os pedidos improcedentes, aplicando o entendimento da Súmula 40 do TJ-PI. Irresignada, a parte autora interpôs recurso de apelação alegando ser pessoa idosa e analfabeta, pleiteando a nulidade do contrato por inobservância à forma legal (assinatura a rogo e duas testemunhas), invocando a aplicação das Súmulas 30 e 37 do TJ-PI. Questionou, ainda, a ausência de comprovante de transferência bancária válido (TED), requerendo a aplicação da Súmula 18 do TJ-PI. Devidamente intimado, o banco apelado apresentou contrarrazões pugnando pela manutenção da sentença, reiterando a legalidade da contratação eletrônica e o efetivo proveito financeiro por parte da recorrente.
É o breve relatório. Passa-se à decisão.
2. FUNDAMENTAÇÃO
2.1. Da Admissibilidade
O recurso é tempestivo, uma vez interposto dentro do prazo legal de 15 (quinze) dias estabelecido pelo art. 1.009, §2º, do CPC. A parte recorrente é isenta de preparo, vez que litiga sob o pálio da gratuidade de justiça, deferida pelo juízo a quo.
Presentes os pressupostos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade, conheço do recurso.
2.2. Das Preliminares
Não há preliminares pendentes de apreciação ou nulidades a serem sanadas que impeçam a análise do mérito recursal.
2.3. Do Mérito
O presente recurso comporta julgamento monocrático, com fulcro no art. 932, inciso IV, alínea "a", do Código de Processo Civil, que autoriza o relator a negar provimento a recurso que for contrário à súmula do próprio tribunal.
A controvérsia cinge-se em verificar a validade do contrato de empréstimo consignado contestado pela autora e a consequente (in)existência do dever de indenizar por parte da instituição financeira.
Inicialmente, afasta-se peremptoriamente a tese recursal de que a autora é analfabeta. Da análise acurada dos autos, constata-se que a parte apelante é plenamente alfabetizada, possuindo capacidade de ler e escrever, fato incontroverso demonstrado por sua própria assinatura lançada em sua procuração, em seus documentos pessoais de identificação, e na declaração de residência firmada de próprio punho com firma reconhecida.
Dessa forma, cai por terra o principal argumento do apelo. Ao constatar que a autora é alfabetizada, torna-se absolutamente inaplicável ao caso o regramento contido nas Súmulas 30 e 37 deste Egrégio TJ-PI, bem como a exigência do art. 595 do Código Civil (assinatura a rogo e duas testemunhas), regras estas protetivas e exclusivas para pessoas não alfabetizadas.
Superada a tese de vício de forma, a contratação deve ser analisada sob a ótica dos contratos eletrônicos em terminais de autoatendimento.
O acervo probatório demonstra que a instituição financeira se desincumbiu do seu ônus (art. 373, II, do CPC c/c art. 6º, VIII, do CDC). O banco apelado colacionou aos autos o Log de Transações que atesta que o empréstimo foi formalizado em um caixa eletrônico (terminal Bradesco Dia e Noite - BDN), com a inserção física do cartão com chip, digitação de senha pessoal intransferível e confirmação via biometria da própria autora. Tal modalidade possui plena validade jurídica no ordenamento brasileiro.
Ademais, no que tange à alegação de ofensa à Súmula 18 do TJ-PI, verifica-se que o banco comprovou satisfatoriamente a disponibilização financeira. O extrato bancário anexado aos autos demonstra de forma inequívoca o crédito de R$ 1.387,80 na conta corrente de titularidade da apelante na data de 24/07/2024, valor este que foi integralmente sacado/utilizado pela mesma. O fato de a autora ter usufruído do numerário convalida o negócio jurídico.
Nesse cenário, em que há contratação via caixa eletrônico com uso de cartão e senha/biometria e o efetivo depósito do valor na conta do consumidor, o caso atrai de forma exata e cristalina o entendimento pacificado deste Tribunal de Justiça, consubstanciado na Súmula nº 40 do TJ-PI:
"A responsabilidade da instituição financeira deve ser afastada quando o evento danoso decorre de transações que, embora contestadas, são realizadas com a apresentação física do cartão original e mediante uso de senha pessoal do correntista, restando, ainda, comprovado a disponibilização dos valores na conta corrente do postulante."
Inexistindo falha na prestação do serviço bancário ou qualquer ato ilícito, reputam-se legais os descontos das parcelas, não havendo que se falar em nulidade contratual, repetição de indébito ou indenização por danos morais, devendo a sentença de primeiro grau ser mantida irretocável.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, com fundamento no artigo 932, inciso IV, alínea "a", do Código de Processo Civil, CONHEÇO do presente recurso de apelação para NEGAR-LHE PROVIMENTO, mantendo incólume a sentença recorrida, por se encontrar em perfeita consonância com a Súmula 40 do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí.
Em obediência ao art. 85, § 11, do CPC, majoro os honorários advocatícios sucumbenciais devidos pela parte autora de 10% para 15% (quinze por cento) sobre o valor atualizado da causa, restando, contudo, suspensa a sua exigibilidade nos termos do art. 98, § 3º, do CPC, por ser a apelante beneficiária da Justiça Gratuita.
Intimem-se as partes.
Transcorrido in albis o prazo recursal, certifique-se o trânsito em julgado e baixem os autos à origem.
Teresina (PI), data registrada no sistema.
Desembargador Mário Basílio de Melo
Relator
0800756-35.2025.8.18.0062
Órgão JulgadorDesembargador MARIO BASILIO DE MELO
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)MARIO BASILIO DE MELO
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorLUIZA FRANCISCA DA CONCEICAO
RéuBANCO BRADESCO S.A.
Publicação23/04/2026