
poder judiciário
tribunal de justiça do estado do piauí
GABINETE DO Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA
PROCESSO Nº: 0837094-36.2023.8.18.0140
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Empréstimo consignado]
APELANTE: ODECI SILVA DOS SANTOS
APELADO: BANCO BRADESCO SA
Ementa: DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS. CORREÇÃO MONETÁRIA E JUROS DE MORA. APLICAÇÃO DA LEI Nº 14.905/2024. ACOLHIMENTO.
I. CASO EM EXAME
1. Embargos de declaração opostos contra decisão que deu provimento à apelação cível para reformar sentença em ação declaratória de nulidade de negócio jurídico cumulada com repetição de indébito e indenização por danos morais.
2. Fato relevante. A parte embargante sustenta erro material e omissão quanto aos critérios de correção monetária e juros de mora fixados no acórdão.
3. Decisão anterior. O acórdão aplicou os índices das Súmulas 362 e 43 do STJ e a Tabela da Justiça Federal.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
4. A questão em discussão consiste em saber se há erro material ou omissão quanto à fixação dos critérios de atualização monetária e juros de mora, especialmente diante da superveniência da Lei nº 14.905/2024.
III. RAZÕES DE DECIDIR
5. Os embargos de declaração são cabíveis para sanar omissão, contradição, obscuridade ou erro material, nos termos do art. 1.022 do CPC.
6. Verifica-se omissão quanto à aplicação da legislação superveniente que alterou o art. 406 do CC.
7. A Lei nº 14.905/2024 estabeleceu que a taxa legal corresponde à taxa SELIC, deduzido o índice de correção monetária.
8. A jurisprudência do STJ firmou entendimento de que a taxa SELIC não pode ser cumulada com outros índices quando incidir no mesmo período.
9. Assim, a partir da vigência da Lei nº 14.905/2024, devem ser aplicados o IPCA como correção monetária e a taxa SELIC como juros de mora, com abatimento do IPCA na composição da taxa.
IV. DISPOSITIVO E TESE
10. Embargos de declaração conhecidos e acolhidos.
Tese de julgamento: “1. A superveniência da Lei nº 14.905/2024 impõe a adequação dos critérios de atualização das condenações pecuniárias. 2. A partir de sua vigência, aplica-se o IPCA como correção monetária e a taxa SELIC como juros de mora, com dedução do índice inflacionário, vedada a cumulação com outros índices no mesmo período.”
Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 1.022, 1.023 e 1.024, § 2º; CC, art. 406; Lei nº 14.905/2024.
Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp nº 1.111.117/PR, Rel. Min. Teori Zavascki, 1ª Seção, j. 24.03.2010; STJ, REsp nº 1.111.118/PR, Rel. Min. Teori Zavascki, 1ª Seção, j. 24.03.2010; STJ, REsp nº 1.111.119/PR, Rel. Min. Teori Zavascki, 1ª Seção, j. 24.03.2010.
DECISÃO TERMINATIVA
Trata-se de Embargos de Declaração, opostos pelo BANCO BRADESCO S.A, contra a decisão terminativa no id. nº 28619897, que conheceu da Apelação Cível e deu-lhe provimento, reformando a sentença proferida pelo Juiz de Direito da 9ª Vara da Comarca de Teresina – PI, nos autos da Ação Declaratória de Nulidade de Negócio Jurídico c/c Repetição de Indébito, Cumulada com Danos Morais, ajuizada por ODECI SILVA DOS SANTOS.
Nas suas razões recursais, o Embargante pugnou pela ocorrência de erro material e omissão na decisão, especificamente quanto aos índices de correção monetária e juros de mora aplicados. O Banco Embargante argumenta que a decisão proferida fixou a correção monetária pelo Enunciado nº 362 da Súmula do STJ (danos morais) e Súmula nº 43 do STJ (repetição do indébito), e a utilização do indexador conforme a Tabela da Justiça Federal.
Intimada, a Embargada apresentou as suas contrarrazões, alegando, em suma, pela rejeição dos Embargos de Declaração.
É o Relatório.
DECIDO
De início, analisando-se os Embargos de Declarações devem ser conhecidos, tendo em vista o cumprimento de seus requisitos estampados nos arts. 1.022 e 1.023 do CPC, assim como os pressupostos intrínsecos e extrínsecos do recurso.
Nesse sentido, assevero que os Aclaratórios foram opostos tempestivamente, por parte legítima, bem como é o instrumento idôneo para dirimir os supostos vícios apontados pela Embargante na decisão terminativa recorrida.
Passo a análise do mérito recursal, em julgamento monocrático, nos termos do art. 1.024, § 2º, do CPC.
No que diz respeito ao manejo processual em análise, cabe ressaltar que de acordo com a norma do art. 1.022 do CPC, os Embargos Declaratórios são específicos, quer dizer, são admissíveis quando restar evidente a ocorrência de obscuridade, contradição, omissão (ponto controvertido) ou erro material sobre questões em que o Juiz ou o Tribunal deveria se pronunciar necessariamente, estando o recurso com fundamentação vinculada.
Nesse sentido, consoante relatado, insurgiu o Embargante alegando a existência de erro material e omissão na decisão, especificamente quanto aos índices de correção monetária e juros de mora aplicados. O Banco Embargante argumenta que a decisão proferida fixou a correção monetária pelo Enunciado nº 362 da Súmula do STJ (danos morais) e Súmula nº 43 do STJ (repetição do indébito), e a utilização do indexador conforme a Tabela da Justiça Federal.
O Embargante sustenta que esses critérios ignoraram a superveniência da Lei nº 14.905/2024, de 28 de junho de 2024, que teria alterado a sistemática de atualização das condenações pecuniárias para prever a incidência do IPCA como correção monetária e a taxa SELIC como juros de mora (deduzido o IPCA) a partir de 01/09/2024.
Pois bem, sobre o tema, aplica-se o índice do art. 406 do CC, a título de juros de mora, todavia a incidência da taxa Selic, que por se tratar de juros compostos, somente incidirá quando houver a confluência temporal dos juros de mora e da correção monetária, no caso essa deveria ocorrer do evento danoso e da data arbitramento.
Ainda sobre a taxa Selic, há entendimento consolidado pelo STJ em sede de recursos repetitivos, conforme os julgados dos REsps. nº 1.111.117/PR, nº 1.111.118/PR e nº 1.111.119/PR, deve ser aplicada a referida taxa sobre o valor devido, sem acúmulo com qualquer outro índice quando há incidência no mesmo período.
Além disso, houve a entrada em vigor da Lei nº 14.905, DE 28 DE JUNHO DE 2024, que alterou a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), para dispor sobre atualização monetária e juros, nos seguintes termos:
Art. 406. Quando não forem convencionados, ou quando o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, os juros serão fixados de acordo com a taxa legal. (Redação dada pela Lei nº 14.905, de 2024).
§ 1º A taxa legal corresponderá à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), deduzido o índice de atualização monetária de que trata o parágrafo único do art. 389 deste Código. (Incluído pela Lei nº 14.905, de 2024).
Com efeito, deve ser aplicada a taxa SELIC sobre o valor devido até a data do efetivo pagamento, não acumulando com qualquer outro índice a partir do arbitramento quando houve a incidência da correção e dos juros no mesmo marco temporal, que então incidirá apenas a taxa Selic.
Desse modo, a partir da vigência da Lei n. 14.905/2024, aplicam-se IPCA para correção monetária e a SELIC para juros, sendo o IPCA abatido da SELIC.
DISPOSITIVO
Ante o exposto, CONHEÇO dos EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, por atender aos seus requisitos legais de sua admissibilidade, e os ACOLHO, reformando o acórdão embargado para que os correção monetária e de juros de mora sejam adequados às disposições da Lei nº 14.905/2024, aplicando-se o IPCA como índice de correção monetária e a taxa SELIC para os juros de mora, descontando-se, nesta última, o valor do IPCA.
Transcorrido, sem manifestação, o prazo recursal, CERTIFIQUE-SE O TRÂNSITO EM JULGADO desta decisão.
Expedientes necessários.
Teresina – PI, data da assinatura eletrônica.
0837094-36.2023.8.18.0140
Órgão JulgadorDesembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)DIOCLECIO SOUSA DA SILVA
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorODECI SILVA DOS SANTOS
RéuBANCO BRADESCO SA
Publicação23/04/2026