
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
1ª Câmara Especializada Cível
GABINETE DO DESEMBARGADOR MÁRIO BASÍLIO DE MELO
PROCESSO: 0801885-35.2025.8.18.0140
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Defeito, nulidade ou anulação, Inclusão Indevida em Cadastro de Inadimplentes, Empréstimo consignado, Repetição do Indébito]
APELANTE: LEANDRO ARAUJO LEAL
Advogados do(a) APELANTE: CARLA THALYA MARQUES REIS - PI16215-A, LINDEMBERG FERREIRA SOARES CHAVES - PI17541-A
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado do(a) APELADO: JOSE ALMIR DA ROCHA MENDES JUNIOR - PI2338-A
RELATOR: Desembargador Mário Basílio de Melo
DECISÃO TERMINATIVA
PROCESSUAL CIVIL E CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. DECISÃO MONOCRÁTICA (ART. 932, III E IV, "A", DO CPC). AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE CONTRATO C/C INDENIZATÓRIA. EMPRÉSTIMO PESSOAL VIA APLICATIVO. VALIDADE DA CONTRATAÇÃO ELETRÔNICA. USO DE SENHA E MOBILE TOKEN. COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO NA CONTA DO AUTOR. SÚMULA 18 E 40 DO TJ-PI. ALEGAÇÕES RECURSAIS DISSOCIADAS DO ACERVO PROBATÓRIO. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ CONFIGURADA. ALTERAÇÃO DA VERDADE DOS FATOS. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.
1. RELATÓRIO
Trata-se de Recurso de Apelação interposto por Leandro Araujo Leal contra a sentença proferida pelo Juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de Teresina que, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência Contratual c/c Repetição de Indébito e Indenização por Danos Morais movida em face do Banco Bradesco S.A., julgou totalmente improcedentes os pedidos iniciais.
Na petição inicial, o autor alegou desconhecer a contratação do empréstimo nº 002807791, do qual decorreram descontos mensais de R$ 263,43 sob a rubrica "Parcelamento de Crédito Pessoal / Mora Crédito Pessoal". Requereu a declaração de nulidade do contrato, a devolução em dobro dos valores e indenização por danos morais.
O Juízo a quo, após a inversão do ônus da prova, proferiu sentença de improcedência, fundamentando que a instituição financeira se desincumbiu do seu ônus ao apresentar os registros eletrônicos da contratação e os extratos bancários que comprovaram o crédito do mútuo na conta do autor, bem como a legalidade da cobrança dos encargos moratórios decorrentes da insuficiência de saldo para quitação das parcelas.
Inconformado, o autor interpôs o presente apelo. Em suas razões, sustenta que não foi juntado o contrato assinado nem documento (TED/DOC) que comprovasse a transferência do valor. Invoca a aplicação da Súmula 18 do TJ-PI para requerer a nulidade da avença e reitera os pedidos de devolução em dobro e danos morais.
Em sede de contrarrazões, o banco recorrido pugnou, preliminarmente, pela regularização do polo passivo para constar Banco Bradesco S.A., e pela revogação da justiça gratuita. No mérito, defendeu a regularidade do contrato firmado via aplicativo, mediante uso de senha e token, anexando as telas de contratação e os logs com IP. Ressaltou que o extrato comprova o depósito de R$4.000,00 na conta do autor em 19/04/2024 e o respectivo uso do dinheiro (saques). Requereu o desprovimento do apelo e a condenação do autor por litigância de má-fé.
É o relatório. Decido.
2. FUNDAMENTAÇÃO
2.1. Da Admissibilidade e do Julgamento Monocrático
O recurso é tempestivo e o apelante é isento de preparo por ser beneficiário da Justiça Gratuita. Preenchidos os requisitos extrínsecos e intrínsecos de admissibilidade, conheço do recurso.
Passa-se ao julgamento monocrático, com fulcro no art. 932, incisos III e IV, alínea "a", do Código de Processo Civil, uma vez que o recurso não ataca devidamente os fundamentos da sentença e se revela expressamente contrário a entendimentos sumulados deste Egrégio Tribunal (Súmulas 18 e 40 do TJ-PI).
2.2. Das Preliminares (Alegadas em Contrarrazões)
De início, acolhe-se o pedido da instituição financeira para retificar o polo passivo da demanda, passando a constar exclusivamente o Banco Bradesco S.A. (CNPJ nº 60.746.948/0001-12), real responsável pela relação contratual, em substituição ao Banco Bradesco Financiamentos S.A.
No tocante ao pedido de impugnação à Justiça Gratuita formulado pelo apelado, rejeito-o, pois a instituição financeira não trouxe aos autos provas robustas capazes de elidir a presunção de hipossuficiência econômica que milita em favor da pessoa natural (art. 99, § 3º, do CPC).
2.3. Do Mérito
A controvérsia repousa na verificação da (in)existência de relação jurídica contratual e na suposta falta de comprovação da transferência dos valores advindos do mútuo.
O apelante alicerça seu recurso fundamentalmente na Súmula 18 desta Corte, que prevê a nulidade do contrato na "ausência de comprovação pela instituição financeira da transferência do valor do contrato para a conta bancária do consumidor".
No entanto, o recurso carece de substrato fático.
Analisando detidamente o acervo probatório, verifica-se que a instituição financeira se desincumbiu cabalmente de seu ônus probatório (art. 373, II, do CPC). O banco anexou os registros sistêmicos (logs) demonstrando que a contratação do empréstimo de R$ 4.000,00 ocorreu de forma eletrônica no dia 19/04/2024, originada do IP 191.178.7.111, mediante validação de senha e Mobile Token de uso pessoal e intransferível. Sendo o autor pessoa plenamente capaz e alfabetizada, a contratação digital atende aos requisitos do art. 104 do Código Civil e da MP nº 2.200-2/2001.
Ademais, ao revés do que insiste o apelante de que "não foi comprovado nos Autos que o valor do empréstimo foi devidamente repassado", os próprios extratos bancários, inclusive os acostados pelo autor na exordial (ID 31906616, fl. 05), demonstram inequivocamente que, em 19/04/2024, houve o crédito de R$ 4.000,00 em sua conta sob a rubrica "EMPRESTIMO PESSOAL". Tais extratos revelam, ainda, que o autor efetuou saques sequenciais na mesma data, usufruindo do capital.
Desta feita, o requisito da Súmula 18 do TJ-PI encontra-se plenamente satisfeito pelo banco. A pretensão do autor também colide frontalmente com a ratio da Súmula 40 do TJ-PI, que afasta a responsabilidade das instituições financeiras quando a transação é realizada mediante o uso de credenciais pessoais (senha/token) e os valores são disponibilizados ao consumidor.
Restou patente que os débitos contestados, mormente a rubrica "Mora Crédito Pessoal", traduzem o exercício regular de direito da instituição financeira (encargos de atraso) face à insuficiência de saldo na conta do autor para a quitação ordinária das parcelas.
2.4. Da Litigância de Má-Fé
As contrarrazões do apelado requerem a condenação do autor por litigância de má-fé. Razão assiste à instituição financeira.
O apelante movimentou a máquina judiciária e interpôs recurso insistindo enfaticamente na tese de que a instituição financeira não comprovou a transferência do valor para a sua conta, o que atrairia a incidência da Súmula 18 do TJ-PI. Ocorre que o apelante altera deliberadamente a verdade dos fatos. Conforme restou cabalmente provado pelos extratos bancários, juntados inclusive pelo próprio autor na petição inicial e ratificados pelo banco, houve o efetivo crédito do montante de R$4.000,00 no dia 19/04/2024, seguido de imediatos saques nos caixas eletrônicos.
Tal conduta, que visa ao enriquecimento ilícito buscando a anulação de uma dívida legitimamente contraída e cujo proveito econômico foi plenamente usufruído, subsume-se com perfeição às hipóteses de litigância de má-fé previstas no art. 80, incisos II (alterar a verdade dos fatos) e III (usar do processo para conseguir objetivo ilegal), do Código de Processo Civil, ensejando a aplicação da sanção correspondente.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, com fulcro no art. 932, incisos III e IV, alínea "a", do Código de Processo Civil, por se tratar de recurso que não impugna especificamente os fundamentos da sentença e que se revela manifestamente contrário ao entendimento sumulado deste Egrégio Tribunal (Súmulas 18 e 40 do TJ-PI), CONHEÇO do presente Recurso de Apelação e NEGO-LHE PROVIMENTO de forma monocrática, mantendo irretocável a sentença proferida pelo Juízo a quo.
Nos termos do art. 81, caput, do CPC, condeno o apelante ao pagamento de multa por litigância de má-fé, a qual fixo em 5% (cinco por cento) sobre o valor atualizado da causa.
Por fim, com fulcro no art. 85, § 11, do CPC, majora-se os honorários advocatícios de sucumbência fixados na origem para 15% (quinze por cento) sobre o valor da causa. Fica suspensa a exigibilidade exclusivamente em relação aos honorários e custas, face à concessão do benefício da Justiça Gratuita (art. 98, § 3º, do CPC).
Ressalta-se, contudo, que a concessão da gratuidade não afasta o dever do beneficiário de pagar as multas processuais que lhe sejam impostas, devendo a multa por litigância de má-fé ser recolhida de forma integral, a teor do que dispõe o art. 98, § 4º, do CPC.
Publique-se. Intimem-se. Preclusas as vias impugnatórias, arquive-se.
Teresina (PI), data registrada no sistema.
Desembargador Mário Basílio de Melo
Relator
0801885-35.2025.8.18.0140
Órgão JulgadorDesembargador MARIO BASILIO DE MELO
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)MARIO BASILIO DE MELO
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorLEANDRO ARAUJO LEAL
RéuBANCO BRADESCO S.A.
Publicação14/04/2026