Decisão Terminativa de 2º Grau

Tarifas 0800908-50.2024.8.18.0149


Decisão Terminativa

poder judiciário 
tribunal de justiça do estado do piauí
GABINETE DO Desembargador MARIO BASILIO DE MELO

PROCESSO Nº: 0800908-50.2024.8.18.0149
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Tarifas]
APELANTE: JOSE ALVES
APELADO: BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S.A


JuLIA Explica

DECISÃO TERMINATIVA


APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. DIREITO DO CONSUMIDOR. DESCONTOS INDEVIDOS SOB A RUBRICA "CESTA BRADESCO EXPRESSO". CONSUMIDOR IDOSO E ANALFABETO. CONTRATO BANCÁRIO. AUSÊNCIA DE ASSINATURA A ROGO E SUBSCRIÇÃO POR DUAS TESTEMUNHAS. INOBSERVÂNCIA DO ART. 595 DO CÓDIGO CIVIL. NULIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO. SÚMULAS 30 E 37 DO TJ-PI. CONTA DESTINADA EXCLUSIVAMENTE AO RECEBIMENTO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. COBRANÇA DE TARIFA VEDADA. SÚMULA 35 DO TJ-PI. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. DANOS MORAIS CONFIGURADOS IN RE IPSA. SENTENÇA CONTRÁRIA À JURISPRUDÊNCIA PACIFICADA DESTA CORTE. JULGAMENTO MONOCRÁTICO. ART. 932, V, "A", DO CPC. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.


I - RELATÓRIO

Trata-se de Recurso de Apelação (ID 29474821) interposto por JOSÉ ALVES contra sentença (ID 29474819) prolatada pelo Juízo da 2ª Vara da Comarca de Oeiras-PI que, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência de Débito c/c Repetição de Indébito e Indenização por Danos Morais ajuizada em face do BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S.A., julgou improcedentes os pedidos autorais.

Na exordial, a parte autora alega que é idosa, analfabeta, e que percebe seu benefício previdenciário (INSS) por meio de conta mantida junto ao banco réu. Afirma que vem sofrendo descontos indevidos em seu benefício a título de "Cesta Bradesco Expresso", serviço que jamais contratou ou utilizou. Requereu a declaração de nulidade dos descontos, a repetição do indébito em dobro e indenização por danos morais.

Em contestação, o banco réu defendeu a regularidade da cobrança, juntando aos autos o Termo de Opção à Cesta de Serviços (ID 29474752) e o Termo de Adesão (ID 29474753), alegando exercício regular de direito e rechaçando os pleitos indenizatórios.

O magistrado a quo julgou improcedente a demanda, fundamentando que a cobrança das tarifas tem respaldo legal e que o autor anuiu com a sua contratação.

Irresignado, o autor interpôs o presente apelo (ID 29474821) requerendo a reforma integral da sentença, reiterando que o contrato não obedeceu à forma prescrita em lei para pessoas analfabetas e reafirmando a ocorrência de danos morais e materiais.

A parte apelada apresentou contrarrazões (ID 29474824), suscitando preliminar de ofensa ao princípio da dialeticidade e, no mérito, pugnando pela manutenção da sentença.

É breve o relatório. Passa-se à decisão.


II - FUNDAMENTAÇÃO

a) Da Admissibilidade e do Julgamento Monocrático 

O recurso é tempestivo e a parte apelante litiga sob o pálio da gratuidade da justiça.

O art. 932, inciso V, alínea "a", do Código de Processo Civil autoriza o relator a dar provimento ao recurso, monocraticamente, quando a decisão recorrida for contrária a súmula do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou do próprio tribunal. 

Como se demonstrará adiante, a sentença recorrida encontra-se em manifesto confronto com as Súmulas nº 30, 35 e 37 deste Egrégio Tribunal de Justiça (TJ-PI), razão pela qual passo ao julgamento monocrático.

b) Das Preliminares 

Em sede de contrarrazões, o apelado aduz que o recurso não merece ser conhecido por violação ao princípio da dialeticidade recursal. 

Contudo, rejeita-se a preliminar. 

Da simples leitura das razões recursais, constata-se que o apelante impugnou especificamente os fundamentos da sentença, sobretudo ao demonstrar que o juízo a quo não considerou sua condição de vulnerabilidade e a invalidade formal do contrato por ser pessoa analfabeta.

c) Do Mérito 

A controvérsia reside na validade dos descontos efetuados na conta bancária do apelante sob a rubrica "Cesta Bradesco Expresso".

Conforme os documentos pessoais carreados aos autos e destacados no recurso, o apelante é pessoa idosa e analfabeta, fato corroborado por seu documento de identidade (RG), que ostenta apenas a impressão datiloscópica de seu polegar direito.

Ao analisar os instrumentos contratuais trazidos pelo banco apelado para justificar os descontos, notadamente o "Termo de Opção à Cesta de Serviços Bradesco Expresso" (ID 29474752) e o "Termo de Adesão" (ID 29474753), verifica-se que a instituição financeira se limitou a colher a impressão digital do consumidor analfabeto, deixando de observar a formalidade legal inafastável.

O art. 595 do Código Civil dispõe claramente que, em contratos de prestação de serviços nos quais qualquer das partes não saiba ler nem escrever, o instrumento deverá ser assinado a rogo e subscrito por duas testemunhas. Tratando-se de consumidor vulnerável, a exigência é da substância do ato.

Neste sentido, a matéria já se encontra pacificada no âmbito deste Tribunal por meio das Súmulas nº 37 e 30, in verbis:

SÚMULA 37 - Os contratos firmados com pessoas não alfabetizadas, inclusive os firmados na modalidade nato digital, devem cumprir os requisitos estabelecidos pelo artigo 595, do Código Civil.

SÚMULA 30 - A ausência de assinatura a rogo e subscrição por duas testemunhas nos instrumento de contrato de mútuo bancário atribuídos a pessoa analfabeta torna o negócio jurídico nulo (...), configurando ato ilícito, gerando o dever de repará-lo, cabendo ao magistrado ou magistrada, no caso concreto, e de forma fundamentada, reconhecer categorias reparatórias devidas e fixar o respectivo quantum (...)

Ademais, trata-se de conta utilizada unicamente para o recebimento de benefício previdenciário, hipótese em que incide também o entendimento firmado na Súmula nº 35 do TJ-PI, que veda à instituição financeira a cobrança de tarifas de manutenção de conta e de serviços sem a prévia e regular contratação.

Assim, ao julgar improcedente o pedido autoral, a sentença vergastada validou negócio jurídico nulo de pleno direito e chocou-se frontalmente com o entendimento sumulado desta Corte, merecendo imediata reforma.

Reconhecida a nulidade do contrato que instituiu a tarifa, os valores descontados indevidamente devem ser restituídos. Aplica-se ao caso a restituição em dobro, conforme art. 42, parágrafo único, do CDC, e a parte final da já citada Súmula nº 35 do TJ-PI, que orienta que a reiteração de descontos de valores a título de tarifas bancárias não configura engano justificável e denota conduta contrária à boa-fé objetiva (STJ, EAREsp 676.608/RS).

A efetivação de descontos indevidos em conta bancária de pessoa hipossuficiente (idoso, analfabeto e de baixa renda), reduzindo o seu já exíguo benefício previdenciário com base em contrato nulo, ultrapassa o mero aborrecimento, configurando dano moral presumido (in re ipsa), conforme orientação expressa da Súmula 30 do TJ-PI. Considerando as peculiaridades do caso, as condições econômicas das partes, o caráter pedagógico da medida e os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, fixo a indenização em R$5.000,00 (cinco mil reais).


III - DISPOSITIVO

Ante o exposto, com fulcro no art. 932, inciso V, alínea "a", do Código de Processo Civil, CONHEÇO E DOU PROVIMENTO ao Recurso de Apelação, para reformar integralmente a sentença recorrida e julgar PROCEDENTES os pedidos iniciais, nos seguintes termos:

a) DECLARAR a nulidade da contratação da "Cesta Bradesco Expresso" vinculada à conta do autor, determinando ao banco réu o cancelamento definitivo de tais descontos, sob pena de multa a ser arbitrada no juízo de origem; 

b) CONDENAR o banco apelado à restituição EM DOBRO dos valores indevidamente descontados na conta bancária do autor a título da tarifa supramencionada, respeitada a prescrição quinquenal. Sobre o valor incidirá correção monetária pelo INPC a partir de cada desembolso (Súmula 43/STJ) e juros de mora de 1% ao mês a partir da citação (art. 405, CC); 

c) CONDENAR o banco apelado ao pagamento de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) a título de indenização por danos morais, acrescidos de correção monetária pelo INPC a partir da data desta decisão (Súmula 362/STJ) e juros de mora de 1% ao mês a partir da citação contratual.

Diante da inversão da sucumbência, condeno a parte apelada ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, os quais fixo em 20% (vinte por cento) sobre o valor total da condenação, nos termos do art. 85, §2º e §11, do CPC.

Intimem-se. Publique-se. Cumpra-se. 

Após o trânsito em julgado, remetam-se os autos à origem com as baixas de estilo.

 

Teresina-PI, data registrada no sistema.


(TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800908-50.2024.8.18.0149 - Relator: MARIO BASILIO DE MELO - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 14/03/2026 )

Detalhes

Processo

0800908-50.2024.8.18.0149

Órgão Julgador

Desembargador MARIO BASILIO DE MELO

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

MARIO BASILIO DE MELO

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Tarifas

Autor

JOSE ALVES

Réu

BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S.A

Publicação

14/03/2026