Acórdão de 2º Grau

Rescisão do contrato e devolução do dinheiro 0800237-84.2023.8.18.0109


Ementa

Ementa: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO. INDÍCIOS DE LITIGÂNCIA PREDATÓRIA. DETERMINAÇÃO DE EMENDA À PETIÇÃO INICIAL. JUNTADA DE PROCURAÇÃO, DECLARAÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA E COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA ATUALIZADOS. NÃO CUMPRIMENTO DA DETERMINAÇÃO JUDICIAL. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. JUNTADA EXTEMPORÂNEA DE DOCUMENTOS EM GRAU RECURSAL. INADMISSIBILIDADE. PODER GERAL DE CAUTELA DO MAGISTRADO. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Apelação cível interposta contra sentença que extinguiu ação declaratória de nulidade de negócio jurídico, sem resolução do mérito, em razão do não cumprimento de determinação judicial para emenda da petição inicial, consistente na apresentação de instrumento procuratório atualizado, declaração de hipossuficiência e comprovante de residência atualizado, diante de indícios de litigância predatória. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há duas questões em discussão: (i) definir se é admissível a juntada de documentos em grau recursal destinados a suprir determinação judicial não cumprida na origem; e (ii) estabelecer se, diante de indícios de litigância predatória, é legítima a exigência judicial de documentos adicionais para emenda da petição inicial, com fundamento no poder geral de cautela do magistrado. III. RAZÕES DE DECIDIR A juntada de documentos em fase recursal somente é admitida quando se tratar de documentos novos, decorrentes de fatos supervenientes ou de conhecimento posterior pela parte, nos termos dos arts. 397 e 434 do CPC, o que não ocorre quando se busca comprovar fatos anteriores já alegados na petição inicial. Documentos apresentados apenas após a prolação da sentença, sem justificativa plausível para a não apresentação no momento oportuno, configuram juntada extemporânea e não devem ser considerados no julgamento do recurso. Diante de indícios de litigância predatória, é legítima a atuação do magistrado no sentido de determinar a emenda da petição inicial com a apresentação de documentos aptos a demonstrar a verossimilhança mínima das alegações e a autenticidade da postulação. As Notas Técnicas nº 06/2023 do Centro de Inteligência do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí e a Súmula nº 33 do TJPI reconhecem a possibilidade de o magistrado exigir documentos adicionais quando houver fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória. O juiz exerce o poder geral de cautela e possui o dever de dirigir o processo de forma a prevenir ou reprimir atos contrários à dignidade da justiça e à boa-fé processual, nos termos do art. 139 do CPC. A exigência de documentos como procuração atualizada, declaração de hipossuficiência e comprovante de residência, em contexto de suspeita de litigância predatória, constitui medida proporcional e adequada para assegurar a regularidade da demanda e evitar o uso abusivo do Poder Judiciário. O descumprimento da determinação de emenda da petição inicial autoriza o indeferimento da inicial e a consequente extinção do processo sem resolução do mérito, conforme previsão do art. 321 do CPC. A inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC não possui aplicação automática e depende da verificação da verossimilhança das alegações, o que justifica a adoção de cautelas adicionais em hipóteses de suspeita de litigância predatória. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso desprovido. Tese de julgamento: A juntada de documentos em grau recursal destinados a suprir determinação judicial não cumprida na origem é inadmissível quando não se tratar de documentos novos ou de fatos supervenientes. Diante de indícios de litigância predatória, o magistrado pode exigir a emenda da petição inicial com a apresentação de documentos destinados a demonstrar a verossimilhança das alegações e a autenticidade da postulação. O descumprimento de determinação judicial de emenda da inicial, em contexto de suspeita de demanda predatória, autoriza o indeferimento da petição inicial e a extinção do processo sem resolução do mérito. Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 139, 321, 397 e 434; CDC, art. 6º, VIII. Jurisprudência relevante citada: STJ, Tema Repetitivo nº 1198; TJPI, Apelação Cível nº 0801000-38.2023.8.18.0060, Rel. Des. Aderson Antônio Brito Nogueira, j. 24.05.2024; TJPI, Apelação Cível nº 0817036-12.2023.8.18.0140, Rel. Des. José Wilson Ferreira de Araújo Júnior, j. 11.12.2023. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800237-84.2023.8.18.0109 - Relator: DIOCLECIO SOUSA DA SILVA - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 13/04/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

1ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) Nº 0800237-84.2023.8.18.0109
APELANTE: SALVADOR DIAS DE LACERDA
Advogado(s) do reclamante: EDUARDO MARTINS VIEIRA
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado(s) do reclamado: JOSE ALMIR DA ROCHA MENDES JUNIOR
RELATOR(A): Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA



EMENTA

 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO. INDÍCIOS DE LITIGÂNCIA PREDATÓRIA. DETERMINAÇÃO DE EMENDA À PETIÇÃO INICIAL. JUNTADA DE PROCURAÇÃO, DECLARAÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA E COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA ATUALIZADOS. NÃO CUMPRIMENTO DA DETERMINAÇÃO JUDICIAL. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. JUNTADA EXTEMPORÂNEA DE DOCUMENTOS EM GRAU RECURSAL. INADMISSIBILIDADE. PODER GERAL DE CAUTELA DO MAGISTRADO. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO DESPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação cível interposta contra sentença que extinguiu ação declaratória de nulidade de negócio jurídico, sem resolução do mérito, em razão do não cumprimento de determinação judicial para emenda da petição inicial, consistente na apresentação de instrumento procuratório atualizado, declaração de hipossuficiência e comprovante de residência atualizado, diante de indícios de litigância predatória.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão: (i) definir se é admissível a juntada de documentos em grau recursal destinados a suprir determinação judicial não cumprida na origem; e (ii) estabelecer se, diante de indícios de litigância predatória, é legítima a exigência judicial de documentos adicionais para emenda da petição inicial, com fundamento no poder geral de cautela do magistrado.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. A juntada de documentos em fase recursal somente é admitida quando se tratar de documentos novos, decorrentes de fatos supervenientes ou de conhecimento posterior pela parte, nos termos dos arts. 397 e 434 do CPC, o que não ocorre quando se busca comprovar fatos anteriores já alegados na petição inicial.

  2. Documentos apresentados apenas após a prolação da sentença, sem justificativa plausível para a não apresentação no momento oportuno, configuram juntada extemporânea e não devem ser considerados no julgamento do recurso.

  3. Diante de indícios de litigância predatória, é legítima a atuação do magistrado no sentido de determinar a emenda da petição inicial com a apresentação de documentos aptos a demonstrar a verossimilhança mínima das alegações e a autenticidade da postulação.

  4. As Notas Técnicas nº 06/2023 do Centro de Inteligência do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí e a Súmula nº 33 do TJPI reconhecem a possibilidade de o magistrado exigir documentos adicionais quando houver fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória.

  5. O juiz exerce o poder geral de cautela e possui o dever de dirigir o processo de forma a prevenir ou reprimir atos contrários à dignidade da justiça e à boa-fé processual, nos termos do art. 139 do CPC.

  6. A exigência de documentos como procuração atualizada, declaração de hipossuficiência e comprovante de residência, em contexto de suspeita de litigância predatória, constitui medida proporcional e adequada para assegurar a regularidade da demanda e evitar o uso abusivo do Poder Judiciário.

  7. O descumprimento da determinação de emenda da petição inicial autoriza o indeferimento da inicial e a consequente extinção do processo sem resolução do mérito, conforme previsão do art. 321 do CPC.

  8. A inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC não possui aplicação automática e depende da verificação da verossimilhança das alegações, o que justifica a adoção de cautelas adicionais em hipóteses de suspeita de litigância predatória.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso desprovido.

Tese de julgamento:

  1. A juntada de documentos em grau recursal destinados a suprir determinação judicial não cumprida na origem é inadmissível quando não se tratar de documentos novos ou de fatos supervenientes.

  2. Diante de indícios de litigância predatória, o magistrado pode exigir a emenda da petição inicial com a apresentação de documentos destinados a demonstrar a verossimilhança das alegações e a autenticidade da postulação.

  3. O descumprimento de determinação judicial de emenda da inicial, em contexto de suspeita de demanda predatória, autoriza o indeferimento da petição inicial e a extinção do processo sem resolução do mérito.


Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 139, 321, 397 e 434; CDC, art. 6º, VIII.


Jurisprudência relevante citada: STJ, Tema Repetitivo nº 1198; TJPI, Apelação Cível nº 0801000-38.2023.8.18.0060, Rel. Des. Aderson Antônio Brito Nogueira, j. 24.05.2024; TJPI, Apelação Cível nº 0817036-12.2023.8.18.0140, Rel. Des. José Wilson Ferreira de Araújo Júnior, j. 11.12.2023.

 



ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em Plenário Virtual realizada de 27/03/2026 a 07/04/2026, acordam os componentes do(a) 1ª Câmara Especializada Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e negar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).


Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Relator



RELATÓRIO

 



Trata-se, nesse caso, de Apelação Cível interposta por Salvador Dias de Lacerda, contra sentença proferida pelo Juiz de Direito da Vara Única da Comarca de Parnaguá/PI, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência de Negócio Jurídico c/c Indenização por Danos Materiais e Morais e Repetição de Indébito, ajuizada pela parte Apelante, em desfavor do Banco Bradesco S.A/Apelado.

Na sentença recorrida (Id. nº 29700182), o juízo a quo julgou extinto o processo, sem resolução do mérito, com fulcro no art. 485, I, c/c o art. 330, I, e §1º, parágrafo único, ambos do CPC, ante o indeferimento da petição inicial, por indicio de demanda predatória.

Nas suas razões recursais (Id. 29700189), a parte Apelante requer a reforma da sentença recorrida, aduzindo, em síntese, a violação do princípio constitucional da inafastabilidade da jurisdição, pugnando então pela devolução dos autos ao Juízo de origem para regular prosseguimento do feito.

Intimado para Contrarrazões (Id. 29700192) o Apelado pugnou pelo desprovimento do recurso interposto.



VOTO

 




I – DO JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE

Atendidos os pressupostos recursais intrínsecos (cabimento, interesse, legitimidade e inexistência de fato extintivo do direito de recorrer) e os pressupostos recursais extrínsecos (regularidade formal, tempestividade, e preparo), o recurso deve ser admitido, o que impõe o seu conhecimento.

Passo, então, à análise do mérito recursal.


II – DA JUNTADA DE DOCUMENTOS EM GRAU RECURSAL

Convém destacar que o Apelante, já neste grau de jurisdição, após a interposição de recurso de Apelação, juntou nos Ids. nº 29700187 e 29700188, documentos exigidos ainda em Despacho proferido pelo Juízo de Origem (Id. 29700170), porém, estes documentos não devem ser aceitos.

Isso porque, a juntada desses documentos foi extemporânea ao momento processual pertinente, afinal, nos termos do art. 434 do CPC, incumbe à parte instruir a inicial ou a contestação com os documentos que forem necessários para provar o direito alegado, somente pode ser excepcionada se, após o ajuizamento da ação, surgirem documentos novos, ou seja, decorrentes de fatos supervenientes ou que somente tenham sido conhecidos pela parte em momento posterior, nos termos do art. 397 do CPC, o que não aconteceu nesta hipótese.

Assim, os documentos juntados pelo Apelante somente nesta fase recursal, após a prolação da sentença, não podem ser considerados novos porque visavam comprovar fato anterior, já alegado na Inicial, bem como não houve nenhum fato impeditivo justificável, razão pela qual devem ser desentranhados dos autos.


III- DO MÉRITO


De início, convém ressaltar que a demanda se cinge em determinar se é imprescindível a emenda à petição inicial com a juntada de instrumento procuratório, declaração de hipossuficiência e comprovante de residência atualizado, notadamente diante de indícios de litigância predatória.

Pois bem, sobre o tema, consigne-se a existência do Tema Repetitivo nº 1198, afetado perante o STJ, com determinação de suspensão apenas dos processos pendentes que tramitam no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, com o fim de delimitar a possibilidade de o Juiz, vislumbrando a ocorrência de litigância predatória, exigir que a parte emende a petição inicial com documentos capazes de lastrear minimamente as pretensões deduzidas, senão vejamos a questão submetida a julgamento, nestes termos:

Tema Repetitivo 1198. Questão submetida a julgamento: Possibilidade de o juiz, vislumbrando a ocorrência de litigância predatória, exigir que a parte autora emende a petição inicial com apresentação de documentos capazes de lastrear minimamente as pretensões deduzidas em juízo, como procuração atualizada, declaração de pobreza e de residência, cópias do contrato e dos extratos bancários.”


Nesse contexto, apesar de ainda não haver tese firmada pelo STJ, convém ressaltar que este Eg. Tribunal de Justiça já concerniu, por meio da edição da Nota Técnica nº 06, que diante de indícios concretos de demanda predatória, inclusive envolvendo empréstimos consignados, o juiz tem o poder/dever de agir com adoção de diligências cautelares, visando dirigir o processo reprimindo abuso do direito, ato contrário à dignidade da Justiça e à boa-fé, além de assegurar o contraditório e ampla defesa do réu.

Assim, possibilita ao Magistrado determinar medidas a serem cumpridas pelas partes para a demonstração de que a causa não é temerária, sendo que tais providências não se confundem com as regras processuais comuns utilizadas para as causas sem indícios de atuação predatória (Nota Técnica nº 06/2023 – TJPI).

O aludido entendimento restou, inclusive, consolidado pelo Tribunal Pleno, deste e. TJPI, através da aprovação da proposta sumular nº 33, na 141ª Sessão Ordinária Administrativa, a qual possui o seguinte teor, nestas palavras:

Súmula nº 33 TJPI – “Em caso de fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória, é legítima a exigência dos documentos recomendados pelas Notas Técnicas do Centro de Inteligência da Justiça Estadual Piauiense, com base no artigo 321 do Código de Processo Civil”.


Logo, conclui-se pela possibilidade do Juiz, no uso do Poder Geral de Cautela, controlar os processos de forma eficiente, diligenciando para que o andamento do caso concreto seja pautado no princípio da boa-fé, a evitar os abusos de direitos, com a identificação da prática de litigância predatória e adotando medidas necessárias para coibi-la.

Tanto é que, nos Tribunais pátrios que já enfrentam a temática, se estabeleceu que, diante de indícios de litigiosidade artificial tem-se a necessidade de adoção de providências cautelares para a verificação se a ação tem ou não características predatórias, como segue:

“TJMG - Apelação Cível 1.0000.21.129621-5/001, Relator (a): Des.(a) Estevão Lucchesi, 14ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 02/09/2021, publicação da sumula em 02/ 09/ 2021; TJ-PE - AC: 00009617820218172580, Relator: CANDIDO JOSE DA FONTE SARAIVA DE MORAES, Data de Julgamento: 10/11/2022; TJ-MS - AC: 08009035220218120035 MS 0800903- 52.2021.8.12.0035, Relator: Des. Geraldo de Almeida Santiago, Data de Julgamento: 04/02/2022, 1ª Câmara Cível, Data de Publicação: 09/02/2022; TJ-SP - AI: 21398374120208260000 SP 2139837- 41.2020.8.26.0000, Relator: Carlos Alberto de Salles, Data de Julgamento: 28/08/2020, 3ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 28/08/2020; TJ-BA - APL: 80006804920208050027 VARA DOS FEITOS DE REL DE CONS CIV E COMERCIAIS DE BOM JESUS DA LAPA, Relator: TELMA LAURA SILVA BRITTO, TERCEIRA CAMARA CÍVEL, Data de Publicação: 13/09/2022; TJ-SC - APL: 50031105820218240060, Relator: Rosane Portella Wolff, Data de Julgamento: 02/03/2023; TJ-PR - PET: 00071816220228160001 Curitiba 0007181-62.2022.8.16.0001 (Acórdão), Relator: José Ricardo Alvarez Vianna, Data de Julgamento: 02/07/2022, 15ª Câmara Cível, Data de Publicação: 04/07/2022; TJ-CE - AC: 00004695620198060028 Acaraú, Relator: MARIA DE FÁTIMA DE MELO LOUREIRO, Data de Julgamento: 02/02/2022, 2ª Câmara Direito Privado, Data de Publicação: 02/02/2022.”



Na hipótese dos autos, utilizando-se do Poder Geral de Cautela que lhe é atribuído, o Juiz de 1º Grau determinou à Apelante, a emenda à inicial para juntar declaração de hipossuficiência, procuração e comprovante de residências atualizadas, para os fins de justificar o interesse processual e evitar demandas predatórias.

Com efeito, embora este e. TJPI tenha entendimento firmado no sentido de que a juntada de tais documentos não sejam essenciais para o ajuizamento da Ação, no caso dos autos em específico, diante de indícios da prática de litigância predatória, é possível ao Julgador, utilizando-se do Poder Geral de Cautela que lhe é atribuído, adotar as medidas que entender cabíveis para os fins de zelar pela boa-fé processual, consoante recente entendimento sumular aprovado neste e. TJPI (Súmula nº 33 do TJPI).

De fato, tem-se que tais demandas exigem maiores cautelas, pois há expressivo número de ações idênticas que discutem contratos bancários, sem qualquer precaução na análise caso concreto antes do ajuizamento da ação, tais como busca de documentos assinados e valores recebidos, sendo que em sua grande maioria são julgados improcedentes, diante da constatação da validade dos negócios realizados.

Assim, pelo poder geral de cautela e a fim de obstar o uso abusivo da Justiça, que está assoberbado por essas milhares de demandas distribuídas pelos mesmos advogados, tem-se que a sentença não merece reparos.

Tanto assim, que em diversas regiões do país, os abusos da advocacia predatória estão sendo combatidos, inclusive com o indeferimento da inversão do ônus da prova e aplicação de multa por litigância de má-fé.

Ademais, a teor do art. 321 do CPC, é dever da parte cumprir com exatidão as ordens emanadas pelo Juízo, não tendo a parte autora justificado qualquer impedimento para juntada da documentação exigida que indicariam verossimilhança das alegações e não mera aventura jurídica.

De tal sorte, o art. 139 do CPC, no que se refere ao poder/dever do juiz, assim dispõe:

“Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: (...)

III - Prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça e indeferir postulações meramente protelatórias;

IV - Determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária; (...)

VI - Dilatar os prazos processuais e alterar a ordem de produção dos meios de prova, adequando-os às necessidades do conflito de modo a conferir maior efetividade à tutela do direito;

VII - Exercer o poder de polícia, requisitando, quando necessário, força policial, além da segurança interna dos fóruns e tribunais; (...)

IX - Determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vícios processuais;”


Insta destacar a previsão do inciso III, do dispositivo legal, que determina ao magistrado o dever de prevenção ou repressão contra qualquer ato contrário à dignidade da justiça, assim como o indeferimento de postulações meramente protelatórias, conceituando, assim, o Poder Geral de Cautela.

Além do mais, não obstante a possibilidade de ser deferida a inversão do ônus da prova (art. 6°, VIII, do CDC), vislumbra-se que, no caso dos autos, em virtude de excepcional situação, impõe-se a adoção de cautelas extras, também excepcionais, de modo a justificar as exigências determinadas pelo juízo de origem, bem como a aplicação da inversão do ônus da prova não é automática, hipótese que impõe ao Magistrado analisar as condições de verossimilhança das alegações.

A corroborar tal entendimento, cite-se os seguintes precedentes deste E. TJPI, inclusive desta e. 1ª Câmara Especializada Cível, in verbis:

“PROCESSO CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE NEGÓCIO JURÍDICO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. SUSPEITA DE AÇÃO PREDATÓRIA. DETERMINAÇÃO DE JUNTADA DE DOCUMENTO. EMENDA DA INICIAL NÃO CUMPRIDA. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. PODER DE CAUTELA DO MAGISTRADO. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. 1. Do exame dos autos, infere-se que o Magistrado a quo determinou a intimação da apelante, a fim de emendar a inicial, trazendo aos autos os extratos bancários de sua conta-corrente em relação ao mês em que ocorreu o primeiro desconto supostamente indevido e aos dois anteriores, dentre outras medidas. Entretanto, a parte autora/apelante manteve-se inerte ante a determinação judicial. 2. As demandas judicializadas reiteradamente e, em geral, em massa, contendo teses genéricas, desprovidas, portanto, das especificidades do caso concreto, havendo alteração apenas quanto às informações pessoais da parte, de forma a dificultar o exercício do contraditório e da ampla defesa, são consideradas predatórias. 3. Diante de suspeita de possível ação predatória, compete ao juiz, o poder/dever de controlar os processos de forma eficiente, diligenciando para que o andamento do caso concreto seja pautado no princípio da boa-fé, evitando os abusos de direitos, buscando identificar a prática de litigância predatória e adotando medidas necessárias para coibi-la. 4. No caso, a determinação para juntar os extratos bancários de sua conta-corrente em relação ao mês em que ocorreu o primeiro desconto supostamente indevido e aos dois anteriores, dentre outras medidas, diante das fundadas suspeitas de ação predatória se mostra como medida proporcional e que não gera um ônus de grande dificuldade ao autor, de forma a impossibilitá-lo o acesso à justiça. 5. Recurso conhecido e desprovido. (TJPI | Apelação Cível Nº 0801000-38.2023.8.18.0060 | Relator: Aderson Antônio Brito Nogueira | 1ª CÂMARA ESPECIALIZADA CÍVEL | Data de Julgamento: 24/05/2024).

“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO. EMENDA À INICIAL. JUNTADA DE EXTRATOS BANCÁRIOS. NÃO CUMPRIMENTO. EXTINÇÃO DA AÇÃO. IRRESIGNAÇÃO DA PARTE AUTORA. PRESCINDIBILIDADE. DOCUMENTAÇÃO NÃO INDISPENSÁVEL À PROPOSITURA DA DEMANDA. REJEIÇÃO. PODER GERAL DE CAUTELA DO JUIZ. INDÍCIOS DE AÇÃO PREDATÓRIA. OFENSA À PREVISÃO DA INVERSÃO AO ÔNUS DA PROVA. ART. 6°, VII, DO CDC. DESCABIMENTO. GARANTIA QUE NÃO POSSUI APLICABILIDADE AUTOMÁTICA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DA VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES. RECURSO DESPROVIDO. SENTENÇA INALTERADA (TJPI | Apelação Cível Nº 0817036-12.2023.8.18.0140 | Relator: José Wilson Ferreira de Araújo Júnior | 2ª CÂMARA ESPECIALIZADA CÍVEL | Data de Julgamento: 11/12/2023).



Portanto, não atendida a determinação judicial, o indeferimento da inicial é medida impositiva, em deferência ao Poder Geral de Cautela diante demandas predatórias.

IV – DO DISPOSITIVO


Ante o exposto, CONHEÇO da APELAÇÃO CÍVEL, por atender aos requisitos legais de sua admissibilidade, mas NEGO-LHE o PROVIMENTO, mantendo-se a sentença vergastada, em todos os seus termos. Custas de lei.

É o VOTO.



Teresina – PI, data da assinatura eletrônica.



 




Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Relator



JuLIA Explica


Detalhes

Processo

0800237-84.2023.8.18.0109

Órgão Julgador

Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

DIOCLECIO SOUSA DA SILVA

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Rescisão do contrato e devolução do dinheiro

Autor

SALVADOR DIAS DE LACERDA

Réu

BANCO BRADESCO S.A.

Publicação

13/04/2026