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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ 1ª Turma Recursal |
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RECURSO INOMINADO CÍVEL (460) Nº 0800042-89.2025.8.18.0122
EMENTA
CONSUMIDOR. RECURSO INOMINADO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. CONSUMIDOR ANALFABETO. CONTRATAÇÃO DIGITAL. SEGURO PRESTAMISTA. VENDA CASADA. FALHA NO DEVER DE INFORMAÇÃO. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE. I. CASO EM EXAME II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO III. RAZÕES DE DECIDIR
IV. DISPOSITIVO E TESE
Tese de julgamento: "1. É abusiva a venda casada de seguro prestamista a consumidor analfabeto em contrato digital sem a devida assistência ou prova de ciência inequívoca. 2. A prática enseja restituição em dobro e indenização por danos morais." Legislação citada: CDC, arts. 6º, III; 39, I; 42.
ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos em Plenário Virtual realizada de 23/03/2026 a 30/03/2026, acordam os componentes do(a) 1ª Turma Recursal do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e dar parcial provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).
2ª Cadeira da 1ª Turma Recursal Relator
RELATÓRIO
Trata-se de Recurso Inominado interposto por DURVAL DA COSTA SILVA contra sentença que julgou improcedentes os pedidos de nulidade de cobrança de seguro prestamista, repetição de indébito e danos morais, em face de FACTA FINANCEIRA S.A. O recorrente sustenta, em síntese, ser analfabeto e não ter consentido com a contratação do seguro inserido no empréstimo consignado, alegando venda casada e inobservância das formalidades legais. Contrarrazões apresentadas. É o breve relatório.
VOTO
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso. No mérito, a controvérsia reside na validade da contratação de seguro prestamista atrelado a empréstimo consignado firmado por consumidor analfabeto via meio digital. Da análise dos autos, verifica-se que o autor é pessoa não alfabetizada (RG no Id 31312986). O contrato (Id 31313000) foi formalizado mediante biometria facial ("selfie"). No caso, a Cédula de Crédito Bancário (Id 31313000) apresenta o campo do seguro já preenchido. Tratando-se de consumidor hipervulnerável, a instituição financeira tem o dever qualificado de informar. A complexidade de cláusulas acessórias em ambiente digital impede que o analfabeto compreenda a facultatividade da contratação sem auxílio de terceiro ou formalidade específica. Não havendo prova de que o autor foi alertado clara e individualmente sobre a opção de não contratar o seguro, resta configurada a violação à liberdade de escolha e a prática abusiva da venda casada (art. 39, I, do CDC). Portanto, a cobrança do prêmio de seguro é indevida. Quanto à restituição, deve ocorrer em dobro, pois a inclusão de serviços não solicitados em contratos de pessoas analfabetas configura conduta contrária à boa-fé objetiva, não se tratando de engano justificável. Quanto aos danos morais, entendo que restaram configurados. A conduta da instituição financeira de impor produtos a consumidor analfabeto, aproveitando-se de sua vulnerabilidade e da falta de compreensão plena das cláusulas digitais, extrapola o mero aborrecimento cotidiano. Houve apropriação indevida de verba alimentar de pessoa idosa através de prática abusiva, ferindo sua dignidade e sossego. Considerando as funções punitiva e pedagógica da indenização, bem como a capacidade econômica das partes e a extensão do dano, fixo o quantum indenizatório em R$ 3.000,00 (três mil reais), valor que atende aos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Ante o exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso para reformar a sentença e:
Sem custas e honorários, ante o êxito parcial do recurso. Teresina (PI), datado e assinado eletronicamente.
2ª Cadeira da 1ª Turma Recursal Relator
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0800042-89.2025.8.18.0122
Órgão Julgador2ª Cadeira da 1ª Turma Recursal
Órgão Julgador Colegiado1ª Turma Recursal
Relator(a)HAYDEE LIMA DE CASTELO BRANCO
Classe JudicialRECURSO INOMINADO CÍVEL
CompetênciaTurma Recursal
Assunto PrincipalPráticas Abusivas
AutorDURVAL DA COSTA SILVA
RéuFACTA FINANCEIRA S.A. CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO
Publicação12/04/2026