Decisão Terminativa de 2º Grau

Empréstimo consignado 0800722-81.2024.8.18.0034


Decisão Terminativa

poder judiciário 
tribunal de justiça do estado do piauí
GABINETE DO Desembargador LIRTON NOGUEIRA SANTOS

PROCESSO Nº: 0800722-81.2024.8.18.0034
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Empréstimo consignado]
APELANTE: ESMERALDA RODRIGUES DA SILVA
APELADO: BANCO DO BRASIL SA


JuLIA Explica

 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL E CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE CONTRATUAL C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. DESCONTOS EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. DETERMINAÇÃO DE EMENDA À INICIAL. LITIGÂNCIA PREDATÓRIA. EXIGÊNCIA DE DOCUMENTOS RECOMENDADOS PELO CIJEPI E CNJ. SÚMULA Nº 33 DO TJPI. INDEFERIMENTO DA INICIAL. EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO. RECURSO DESPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação Cível interposta por beneficiária idosa e aposentada por pensão por morte contra sentença que, em Ação Declaratória de Nulidade Contratual c/c Repetição de Indébito c/c Indenização por Danos Morais ajuizada em face de banco, extinguiu o feito sem resolução do mérito por descumprimento de determinação de emenda da petição inicial, em demanda fundada em alegados descontos indevidos em benefício previdenciário vinculados a empréstimo consignado (contrato nº 926942058) e outras cobranças não reconhecidas, com pedidos de nulidade contratual, devolução em dobro e danos morais.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. A questão em discussão consiste em definir se foi legítima a extinção do processo sem resolução do mérito, diante do entendimento do juízo de origem de que não houve cumprimento integral e satisfatório da ordem de emenda à inicial, especialmente quanto à procuração atualizada com reconhecimento de firma e à documentação destinada a afastar fundada suspeita de demanda predatória.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. O art. 321 do CPC autoriza o juiz a determinar a emenda da inicial quando houver defeitos ou irregularidades que dificultem o julgamento de mérito, e o não cumprimento da diligência conduz ao indeferimento da inicial, nos termos do parágrafo único do art. 321, combinado com o art. 485, I, do CPC.

  2. A Nota Técnica nº 06/2023 do CIJEPI e a Recomendação nº 127 do CNJ orientam a adoção de cautelas diante do aumento de demandas massificadas, com alegações genéricas e instrução documental mínima, admitindo-se exigências específicas para aferir autenticidade da vontade da parte e verossimilhança da narrativa, com suporte no poder geral de cautela do art. 139, III, do CPC.

  3. A Súmula nº 33 do TJPI reconhece a legitimidade da exigência, em caso de fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória, dos documentos recomendados pelas Notas Técnicas do Centro de Inteligência, com base no art. 321 do CPC, respaldando a atuação do juízo de origem.

  4. Em se tratando de parte vulnerável (pessoa idosa), o magistrado pode impor cautelas excepcionais para resguardar a regularidade do acesso à justiça e a genuína manifestação de vontade, inclusive com exigência de procuração atualizada com firma reconhecida, comprovação contemporânea de hipossuficiência e extratos bancários do período indicado para demonstrar o prejuízo alegado.

  5. O juízo de origem entende que a emenda não atende integralmente ao comando judicial, não apenas sob o aspecto temporal da procuração reputada inadequada ao fim imposto, mas também quanto à substância e adequação dos documentos para dissipar a suspeita de litigância predatória, razão pela qual mantém o indeferimento da inicial.

  6. A extinção não viola a inafastabilidade da jurisdição nem a primazia do mérito quando fundada na inobservância de ordem de emenda adequadamente delimitada e precedida de advertência, voltada a garantir a regularidade do ingresso da ação e a proteção do jurisdicionado.

  7. O julgamento monocrático é admitido pelo art. 932, IV, “b”, do CPC, diante de jurisprudência dominante no Tribunal local sobre o tema, consubstanciada na Súmula nº 33 do TJPI.

  8. A pretensão de reconhecimento de litigância de má-fé é afastada, pois as hipóteses dos arts. 79 e 80 do CPC são endereçadas às partes, e eventual responsabilização do advogado depende de via própria, nos termos do art. 32 da Lei 8.906/1994, conforme precedente citado (STJ, AgInt no AREsp 1.722.332/MT).

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso desprovido.

Tese de julgamento:

  1. Em caso de fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória, o juiz pode exigir, com base no art. 321 do CPC e no poder geral de cautela, documentos adicionais recomendados por notas técnicas institucionais, para aferir a autenticidade da representação e a verossimilhança das alegações.

  2. Não cumprida de forma integral e satisfatória a determinação de emenda à inicial, é cabível o indeferimento da petição inicial e a extinção do processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 321, parágrafo único, c/c art. 485, I, do CPC.

  3. A adoção de cautelas documentais em demandas bancárias, sobretudo com parte vulnerável, não configura violação ao acesso à justiça quando voltada a resguardar a regularidade do processo e a genuína manifestação de vontade da parte.

Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 321 e parágrafo único; 485, I; 932, IV, “b”; 139, III; 142; 98, § 3º; 85; 1.026, § 2º; 1.021, § 4º; CDC, art. 6º, VIII; Lei 8.906/1994, art. 32.

 

Jurisprudência relevante citada: TJPI, Súmula nº 33; STJ, Tema Repetitivo nº 1198; STJ, AgInt no AREsp 1.722.332/MT, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, 4ª Turma, j. 13/06/2022, DJe 21/06/2022; TJMG, Apelação Cível 1.0000.21.129621-5/001, Rel. Des. Estevão Lucchesi, 14ª Câmara Cível, j. 02/09/2021; TJPE, AC 0000961-78.2021.8.17.2580, Rel. Cândido José da Fonte Saraiva de Moraes, 6ª CC, j. 10/11/2022; TJMS, AC 0800903-52.2021.8.12.0035, Rel. Des. Geraldo de Almeida Santiago, 1ª Câmara Cível, j. 04/02/2022, publ. 09/02/2022.

 

DECISÃO TERMINATIVA

 

1. RELATÓRIO


Trata-se de Apelação Cível (ID 30840994) interposta por ESMERALDA RODRIGUES DA SILVA contra sentença proferida (ID 30840993) nos autos da AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE CONTRATUAL C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS, ajuizada em face do BANCO DO BRASIL S.A., que julgou extinto o feito sem resolução de mérito, nos termos do art. 485, I, do Código de Processo Civil (CPC), ante o alegado descumprimento da parte autora quanto à determinação de emenda da petição inicial.

Na origem, a parte autora, alegando ser idosa e aposentada por morte, sofreu descontos indevidos em seu benefício previdenciário sob a rubrica de empréstimo consignado (contrato nº 926942058) e outras cobranças/contratos que afirma não reconhecer. Pleiteou a declaração de nulidade contratual, a devolução em dobro dos valores descontados e indenização por danos morais.

 O juízo a quo da Vara Única da Comarca de Água Branca/PI, por meio de decisão (ID 30840983), proferida em 28/06/2025, determinou que a autora emendasse a petição inicial no prazo de 15 (quinze) dias úteis, instruindo-a com: (i) procuração atualizada (datada de no máximo 30 dias) com firma reconhecida ou por escritura pública (se analfabeta) e documentos de identificação dos assinantes; (ii) comprovação de hipossuficiência econômica contemporânea; e (iii) comprovante do prejuízo alegado sobre seus proventos com extratos bancários (três anteriores e três posteriores aos descontos questionados), além de manifestação sobre litispendência e prescrição, sob pena de indeferimento da petição inicial e extinção do processo sem resolução do mérito. Tal determinação foi motivada por preocupações com a litigância predatória, em conformidade com as Notas Técnicas do Centro de Inteligência da Justiça Estadual Piauiense (CIJEPI) e recomendações do CNJ.

 Em suas razões recursais (ID 30840994), a apelante sustenta ter cumprido integralmente as determinações de emenda. Argumenta que a procuração (ID 30840989) foi emitida em 07/07/2025 e juntada em 07/07/2025, após a decisão de emenda de 28/06/2025, estando, portanto, dentro do prazo de 30 dias exigido e não "vencida" como alegado na sentença. Defende o excesso de formalismo, a desnecessidade de tais documentos para a propositura da ação, especialmente em face de sua condição de vulnerabilidade (idosa). Sustenta que a extinção violou os princípios constitucionais de acesso à justiça e da primazia do julgamento de mérito, citando precedentes do próprio TJPI nesse sentido. Ao final, requer a reforma da sentença para afastar a extinção do feito e determinar o regular prosseguimento do processo na origem.

 Em contrarrazões (ID 30840995), o Banco do Brasil S.A. pugna pela manutenção da sentença, defendendo a legitimidade da exigência de documentos adicionais pelo juízo de primeiro grau. Argumenta a falta de cumprimento integral das determinações pela autora, a ausência de comprovação de prévia tentativa de solução administrativa e a conformidade da decisão com o Tema Repetitivo n.º 1198 do STJ e a Súmula nº 33 do TJPI, que visam combater a litigância predatória. Requer a condenação da apelante ao pagamento de honorários recursais.

É o sucinto relatório. Passo a decidir.


2. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE RECURSAL


O recurso é tempestivo, conforme Certidão de ID 30840996. Houve deferimento da gratuidade de justiça à Apelante, razão pela qual fica dispensada do recolhimento do preparo recursal.

Presentes os demais pressupostos de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos, CONHEÇO do recurso.

 

Autos não remetidos ao Ministério Público Superior, pois inexiste interesse público a justificar a intervenção do órgão.


3. DO JULGAMENTO MONOCRÁTICO


Aplica-se ao caso o art. 932, inciso IV, alínea "b", do Código de Processo Civil, diante da manifesta improcedência do recurso, haja vista a existência de jurisprudência dominante deste Tribunal de Justiça, consubstanciada na Súmula nº 33 do TJPI, que respalda a atuação do juízo a quo em casos de fundada suspeita de demanda predatória.


 

4. DO MÉRITO DO RECURSO


A controvérsia central do presente recurso reside em definir se a extinção do processo sem resolução de mérito, decorrente do alegado descumprimento da ordem de emenda à petição inicial, foi legítima.

O Código de Processo Civil estabelece, em seu art. 321, que "O juiz, ao verificar que a petição inicial não preenche os requisitos dos arts. 319 e 320 ou que apresenta defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, determinará que o autor, no prazo de 15 (quinze) dias, a emende ou a complete, indicando com precisão o que deve ser corrigido ou completado." O parágrafo único do referido artigo, c.c. o art. 485, inciso I, do CPC, dispõe que "Se o autor não cumprir a diligência, o juiz indeferirá a petição inicial".

 É inegável a necessidade de cautela do juiz singular na prevenção de lides temerárias. Essa cautela é recomendada pela Nota Técnica nº 6/2023 do Centro de Inteligência deste Tribunal de Justiça (CIJEPI) e pela Recomendação nº 127 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ante o crescimento expressivo de demandas, especialmente daquelas relacionadas a empréstimos e serviços bancários, nas quais se verifica, com frequência, a utilização de modelos de petição genéricos, desacompanhados de documentos que instruam minimamente a ação, ou mesmo quantidade expressiva e irrazoável de ações em nome de uma mesma parte autora.

 

Oportuno transcrever, nesse ponto, o conceito de demanda predatória, previsto na Nota Técnica nº 06/2023 do CIJEPI:


"As demandas judicializadas reiteradamente e, em geral, em massa, contendo teses genéricas, desprovidas, portanto, das especificidades do caso concreto, havendo alteração apenas quanto às informações pessoais da parte, de forma a dificultar o exercício do contraditório e a ampla defesa, são consideradas predatórias."


Nesse contexto, para reprimir tais demandas, a Nota Técnica nº 06/2023 sugere a tomada de algumas ações, lastreadas no dever-poder geral de cautela do juiz, previsto no art. 139, inciso III, do Código de Processo Civil, quais sejam:


a) Exigir apresentação de procuração e de comprovante de endereço atualizado, além da outorga de poderes específicos no mandato, nos casos de juntada de procuração em via não original e/ou desatualizada, ou até mesmo quando existe divergência quanto ao endereço;

b) Determinar a apresentação de extrato bancário do período, para comprovar diligência prévia na aferição da viabilidade jurídica da pretensão por meio da confirmação de que o valor do empréstimo não teria sido disponibilizado à parte autora;

c) Intimação pessoal da parte autora para que esclareça ao oficial de justiça se contratou o profissional habilitado nos autos para a propositura da ação, se firmou a procuração acostada nos autos e como se deu a contratação;

d) Determinação à parte autora para exibir procuração por escritura pública, quando se tratar de analfabeto;

e) Determinar a comprovação de autenticidade através do reconhecimento de firma.

 

No mesmo sentido, destaque-se que o Egrégio TJPI pacificou sua jurisprudência sobre a matéria, por meio da edição do seguinte enunciado sumular:

 

Súmula nº 33 do TJPI: “Em caso de fundada suspeita de demanda repetitiva ou predatória, é legítima a exigência dos documentos recomendados pelas Notas Técnicas do Centro de Inteligência da Justiça Estadual Piauiense, com base no artigo 321 do Código de Processo Civil”.

 

Ademais, enfatiza-se o preceituado pelo Código de Processo Civil, em seu art. 142:


Art. 142. Convencendo-se, pelas circunstâncias, de que autor e réu se serviram do processo para praticar ato simulado ou conseguir fim vedado por lei, o juiz proferirá decisão que impeça os objetivos das partes, aplicando, de ofício, as penalidades da litigância de má-fé.

 

No caso, verifica-se que a parte Autora, ora Apelante, é pessoa de idade avançada. Nesse caso, havendo indícios de se tratar de demanda predatória, o magistrado deve pautar-se no poder/dever de cautela, determinando as diligências que entender prudentes. Assim, não obstante a possibilidade de ser deferida a inversão do ônus da prova (art. 6°, VIII, do CDC), impõe-se a adoção de cautelas extras e, também, excepcionais, de modo a justificar as exigências determinadas pelo juízo de origem. 

A controvérsia, no caso concreto, reside no fato de que o juízo de primeiro grau, ao proferir a sentença de extinção (ID 30840993), fundamentou seu indeferimento no alegado descumprimento da ordem de emenda em relação à procuração, afirmando que o documento se encontrava "vencido". A sentença asseverou que "o documento apresentado extrapola, em meses, o prazo de validade expressamente fixado na decisão que determinou a emenda da inicial" e que "já no momento em que a procuração foi juntada aos autos com a finalidade de cumprir a ordem judicial, encontrava-se vencida, considerada a data de sua outorga, à luz do contexto singular da demanda e da finalidade específica atribuída à exigência."

Conforme se extrai da decisão, a não integralidade do cumprimento da emenda, não apenas em relação ao lapso temporal da procuração, mas também à substância e adequação dos documentos para o fim de dissipar a fundada suspeita de litigância predatória, justifica a manutenção da sentença. A exigência de procuração atualizada com firma reconhecida e demais documentos, como os extratos bancários que comprovassem o prejuízo alegado e o recebimento de valores, possui o fito de salvaguardar a autenticidade da manifestação de vontade da parte, especialmente quando se trata de pessoa vulnerável, garantindo que a ação represente seu genuíno interesse e não uma instrumentalização.

Tendo a parte apelante sido devidamente intimada para emendar a petição inicial, com a advertência expressa das consequências de seu não cumprimento, e considerando que o juízo a quo entendeu que o comando judicial não foi atendido de forma integral e satisfatória, a tempo e modo devidos, para afastar as suspeitas de litigância predatória, agiu corretamente ao indeferir a petição inicial. A Súmula nº 33 do TJPI, bem como o Tema Repetitivo nº 1198 do STJ, legitimam a atuação do magistrado em exigir diligências adicionais em contextos de suspeita de demandas em massa ou predatórias.

Portanto, não há que se falar em ofensa aos princípios da inafastabilidade da jurisdição e do acesso à justiça, uma vez que o que se busca é a regularidade no ingresso da ação e a efetiva vontade da parte, visando proteger o próprio jurisdicionado. A desídia da parte autora ou a insuficiência do cumprimento da ordem de emenda, no cenário específico de cautelas excepcionais impostas pelo juízo, justifica a extinção do processo sem resolução de mérito.

Os precedentes dos Tribunais pátrios corroboram a legitimidade das exigências do juízo de primeiro grau em casos de fundada suspeita de litigância predatória e a correção da extinção do feito por descumprimento de ordem de emenda à inicial:

 

“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO. REPRESENTAÇÃO PROCESSUAL. DESCONHECIMENTO DA PARTE. A capacidade processual e a representação judicial das partes constituem pressupostos processuais de constituição e desenvolvimento válido e regular do processo. Para evitar a litigiosidade artificial e práticas predatórias no âmbito do Poder Judiciário, o Magistrado possui o poder-dever de tomar medidas saneadoras para coibir o uso abusivo do acesso à Justiça. Verificada a irregularidade da representação processual da parte autora, que afirmou desconhecer o advogado e a própria demanda ajuizada, forçoso reconhecer a ausência dos pressupostos processuais. Tendo o procurador dado ensejo à movimentação indevida do aparato judicial, pelo princípio da causalidade, cabível sua condenação ao pagamento das custas e despesas do processo. (TJMG - Apelação Cível 1.0000.21.129621-5/001, Relator (a): Des.(a) Estevão Lucchesi, 14ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 02/09/2021, publicação da sumula em 02/ 09/ 2021).”

 

“APELAÇÃO. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DETERMINAÇÃO DE EMENDA À INICIAL. DESCUMPRIMENTO. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO (ART. 485, I E VI DO CPC/2015). DEMANDAS PREDATÓRIAS. ABUSO DO DIREITO DE AÇÃO. APELAÇÃO DESPROVIDA. 1. Transcorrido o prazo para a emenda da petição inicial sem que a parte tenha cumprido com a determinação, o indeferimento da petição inicial é de rigor. 2. Há indícios robustos de que o advogado que patrocina a causa promove advocacia predatória, pela enorme quantidade de ações idênticas, devendo o julgador analisar os autos com maior rigor e cautela, exigindo a juntada de documentos que demonstrem verossimilhança das alegações iniciais. 3. Conforme dispõe a Nota Técnica nº 4/2022, emitida pelo Centro de Inteligência da Justiça Estadual de Pernambuco (Cijuspe), nos casos em que houver a suspeita de se tratar de demanda agressora, repetitiva ou predatória, é possível ao magistrado exigir a comprovação de autenticidade mediante reconhecimento de firma do signatário, no caso de pessoa alfabetizada, ou a apresentação de procuração pública, na hipótese de se tratar de pessoa analfabeta. 4. Portanto, pelo poder geral de cautela e a fim de obstar o uso abusivo da Justiça, que está assoberbada por milhares de demandas distribuídas pelos mesmos advogados, tem-se que a determinação de juntada de procuração pública visa coibir o exercício abusivo do direito de acesso à justiça. 5. Na hipótese, a parte não cumpriu a ordem de emenda (determinação de juntada de procuração atualizada), pelo que a sentença não merece reparos. 6. Demais disso, o exercício de advocacia predatória por parte do patrono da autora já chegou a este Tribunal de Justiça, o qual tem reiteradamente mantido as sentenças de extinção. 7. O exercício abusivo do direito de acesso à justiça pode e deve ser reprimido pelo Judiciário. 8. É que o ajuizamento em massa de falsos litígios prejudica o acesso à justiça de quem realmente necessita de intervenção judicial para solucionar alguma questão, eis que assoberba o Judiciário, influindo na qualidade da prestação jurisdicional. 9. Apelação desprovida. (TJ-PE - AC: 0000961-78.2021.8.17.2580, Relator: CANDIDO JOSE DA FONTE SARAIVA DE MORAES, Data de Julgamento: 10/11/2022, Gabinete do Des. Márcio Fernando de Aguiar Silva (6ª CC).)”

 

“APELAÇÃO CÍVEL DA PARTE AUTORA - AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE/INEXIGIBILIDADE DE DESCONTO EM FOLHA DE PAGAMENTO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS - INDEFERIMENTO DA INICIAL – DETERMINAÇÃO DE JUNTADA DE DOCUMENTOS – EMENDA DA INICIAL NÃO CUMPRIDA – ADVOCACIA PREDATÓRIA - PODER GERAL DE CAUTELA DO JUÍZO - SENTENÇA MANTIDA - RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. No caso dos autos, a parte autora deixou de cumprir a determinação judicial de emenda da inicial, para juntada de extratos bancários aos autos. A desídia da parte autora culminou no indeferimento da inicial, com extinção do processo sem resolução de mérito, nos termos do art. 321, parágrafo único, c/c art. 485, I, ambos do Código de Processo Civil. Assim, não há falar em ofensa ao princípio da inafastabilidade da jurisdição. Ademais, há indícios de que os advogados que patrocinam a causa promovem advocacia predatória, pelo número expressivo de ações idênticas, devendo o julgador analisar os autos com mais rigor e cautela, exigindo-se a juntada de documentos que demonstrem a verossimilhança das alegações iniciais. (TJ-MS - AC: 0800903-52.2021.8.12.0035, Relator: Des. Geraldo de Almeida Santiago, Data de Julgamento: 04/02/2022, 1ª Câmara Cível, Data de Publicação: 09/02/2022).”

 

Dessa forma, considerando adequada a exigência de documentação posta na decisão recorrida, bem como a avaliação do juízo a quo quanto à inércia da parte autora em atender o comando judicial na sua totalidade ou a contento, justificam não só a manutenção da sentença como, também, a adoção de medidas eficazes ao combate de atos que atentem contra a dignidade da justiça e a boa-fé.

Por fim, refuto o pleito do Apelado em prol do reconhecimento da litigância de má-fé, previstas nos artigos 79 e 80 do CPC de 2015, pois são endereçadas às partes, não podendo ser estendidas ao advogado que atuou na causa, o qual deve ser responsabilizado em ação própria, consoante o artigo 32 da Lei 8.906/1994 (AgInt no AREsp 1.722.332/MT, Relatora Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, Quarta Turma, julgado em 13/6/2022, DJe de 21/6/2022). Logo, o improvimento do recurso e manutenção da sentença é medida que se impõe.


5. DISPOSITIVO

 

DO EXPOSTO, com fundamento no art. 932, inciso IV, alínea "b", do Código de Processo Civil, CONHEÇO da apelação, mas para NEGAR-LHE PROVIMENTO, mantendo incólume a sentença vergastada.

Condeno a parte autora/apelante ao pagamento de custas processuais e de honorários do patrono do Apelado, ora fixados em 10% (dez por cento), na forma do 85 do CPC, observada a suspensão de sua exigibilidade, nos termos do art. 98, §3°, CPC. 

Intimem-se as partes.

 Advirto às partes que a oposição de Embargos Declaratórios ou a interposição de Agravo Interno manifestamente protelatórios ensejará a aplicação da multa prevista, respectivamente, no art. 1.026, § 2º, e no art. 1.021, § 4º, ambos do CPC.

 Transcorrendo in albis o prazo recursal, arquivem-se os autos, dando-se baixa na distribuição.

 Cumpra-se.

 

Teresina/PI, data da assinatura eletrônica.

 

Desembargador LIRTON NOGUEIRA SANTOS

Relator

(TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800722-81.2024.8.18.0034 - Relator: LIRTON NOGUEIRA SANTOS - 4ª Câmara Especializada Cível - Data 21/02/2026 )

Detalhes

Processo

0800722-81.2024.8.18.0034

Órgão Julgador

Desembargador LIRTON NOGUEIRA SANTOS

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

LIRTON NOGUEIRA SANTOS

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Empréstimo consignado

Autor

ESMERALDA RODRIGUES DA SILVA

Réu

BANCO DO BRASIL SA

Publicação

21/02/2026