Acórdão de 2º Grau

Empréstimo consignado 0800273-16.2025.8.18.0026


Ementa

Ementa: DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATO BANCÁRIO. CONTRATAÇÃO DIGITAL. VALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO. AUSÊNCIA DE ATO ILÍCITO. DANO MORAL E REPETIÇÃO DE INDÉBITO INDEVIDOS. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Apelação Cível interposta por consumidora contra sentença que reconheceu a validade de contrato bancário digital firmado com instituição financeira e julgou improcedentes os pedidos de indenização por danos morais e repetição de indébito. A parte apelante alegou ausência de contratação válida, postulando o reconhecimento de ato ilícito e a consequente responsabilização civil do banco. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há duas questões em discussão: (i) verificar se houve violação ao princípio da dialeticidade, com consequente inadmissibilidade do recurso; (ii) analisar a validade do contrato bancário digital e a existência de responsabilidade civil da instituição financeira por suposta contratação fraudulenta. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso preenche os requisitos legais e ataca especificamente os fundamentos da sentença, não havendo violação ao princípio da dialeticidade, conforme previsto no art. 932, III, do CPC. A relação jurídica estabelecida entre as partes configura típica relação de consumo, nos termos do Enunciado nº 297 da Súmula do STJ, sendo aplicável o Código de Defesa do Consumidor. A inversão do ônus da prova foi corretamente determinada, em virtude da hipossuficiência da parte consumidora, conforme art. 6º, VIII, do CDC. Restou comprovada a manifestação de vontade da parte apelante, por meio de instrumento contratual digital que contém dados pessoais, selfie, geolocalização e informações do aparelho utilizado na contratação. Constatou-se a efetiva transferência do valor contratado para a conta bancária da parte recorrente, o que reforça a regularidade da operação financeira. Ausente qualquer demonstração de ato ilícito por parte da instituição financeira, não se configuram os pressupostos para a responsabilização civil, tampouco para indenização por danos morais ou repetição de indébito. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso desprovido. Tese de julgamento: O recurso de apelação que impugna especificamente os fundamentos da sentença não viola o princípio da dialeticidade e deve ser conhecido. A contratação bancária realizada por meio digital, com comprovação de autenticidade dos dados do contratante e transferência do valor pactuado, é válida e eficaz. A inexistência de ato ilícito praticado pela instituição financeira afasta o dever de indenizar e impede a repetição de indébito. Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 1.010, 1.013, 932, III, 85, §11º e 98, §3º; CDC, art. 6º, VIII. Jurisprudência relevante citada: STJ, Súmula nº 297; TJ-MG, Ap. Cív. 1.0000.20.599818-0/001, Rel. Des. Arnaldo Maciel, j. 09.03.2021; TJ-MS, APL 0800279-26.2018.8.12.0029, Rel. Des. Fernando Mauro Moreira Marinho, j. 12.03.2019; TJ-RS, Ap. Cív. 70077970374, Rel. Des. Adriana da Silva Ribeiro, j. 19.09.2018. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800273-16.2025.8.18.0026 - Relator: DIOCLECIO SOUSA DA SILVA - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 04/03/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

1ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) Nº 0800273-16.2025.8.18.0026
APELANTE: FRANCISCO DA COSTA SILVA
Advogado(s) do reclamante: ERINALDO MORAES DA SILVA
APELADO: FACTA FINANCEIRA S.A. CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO
Advogado(s) do reclamado: DENNER DE BARROS E MASCARENHAS BARBOSA
RELATOR(A): Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA



EMENTA

 

DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATO BANCÁRIO. CONTRATAÇÃO DIGITAL. VALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO. AUSÊNCIA DE ATO ILÍCITO. DANO MORAL E REPETIÇÃO DE INDÉBITO INDEVIDOS. RECURSO DESPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação Cível interposta por consumidora contra sentença que reconheceu a validade de contrato bancário digital firmado com instituição financeira e julgou improcedentes os pedidos de indenização por danos morais e repetição de indébito. A parte apelante alegou ausência de contratação válida, postulando o reconhecimento de ato ilícito e a consequente responsabilização civil do banco.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão: (i) verificar se houve violação ao princípio da dialeticidade, com consequente inadmissibilidade do recurso; (ii) analisar a validade do contrato bancário digital e a existência de responsabilidade civil da instituição financeira por suposta contratação fraudulenta.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. O recurso preenche os requisitos legais e ataca especificamente os fundamentos da sentença, não havendo violação ao princípio da dialeticidade, conforme previsto no art. 932, III, do CPC.

  2. A relação jurídica estabelecida entre as partes configura típica relação de consumo, nos termos do Enunciado nº 297 da Súmula do STJ, sendo aplicável o Código de Defesa do Consumidor.

  3. A inversão do ônus da prova foi corretamente determinada, em virtude da hipossuficiência da parte consumidora, conforme art. 6º, VIII, do CDC.

  4. Restou comprovada a manifestação de vontade da parte apelante, por meio de instrumento contratual digital que contém dados pessoais, selfie, geolocalização e informações do aparelho utilizado na contratação.

  5. Constatou-se a efetiva transferência do valor contratado para a conta bancária da parte recorrente, o que reforça a regularidade da operação financeira.

  6. Ausente qualquer demonstração de ato ilícito por parte da instituição financeira, não se configuram os pressupostos para a responsabilização civil, tampouco para indenização por danos morais ou repetição de indébito.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso desprovido.

Tese de julgamento:

  1. O recurso de apelação que impugna especificamente os fundamentos da sentença não viola o princípio da dialeticidade e deve ser conhecido.

  2. A contratação bancária realizada por meio digital, com comprovação de autenticidade dos dados do contratante e transferência do valor pactuado, é válida e eficaz.

  3. A inexistência de ato ilícito praticado pela instituição financeira afasta o dever de indenizar e impede a repetição de indébito.



Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 1.010, 1.013, 932, III, 85, §11º e 98, §3º; CDC, art. 6º, VIII.
Jurisprudência relevante citada: STJ, Súmula nº 297; TJ-MG, Ap. Cív. 1.0000.20.599818-0/001, Rel. Des. Arnaldo Maciel, j. 09.03.2021; TJ-MS, APL 0800279-26.2018.8.12.0029, Rel. Des. Fernando Mauro Moreira Marinho, j. 12.03.2019; TJ-RS, Ap. Cív. 70077970374, Rel. Des. Adriana da Silva Ribeiro, j. 19.09.2018.

 



ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em Plenário Virtual realizada de 20/02/2026 a 27/02/2026, acordam os componentes do(a) 1ª Câmara Especializada Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e negar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).


Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Relator



RELATÓRIO

 



Trata-se de Apelação Cível interposta por Francisco da Costa e Silva contra a sentença proferida pelo Juízo de Direito da 2ª Vara da Comarca de Campo Maior/PI, nos autos da Ação Declaratória de Nulidade Contratual c/c Repetição do Indébito e Indenização por Danos Morais ajuizada em face do Facta Finaceira S.A, Crédito, Financiamento e Investimento S/A, ora Apelado.

Na sentença recorrida (id nº 25254340), o Juízo de origem julgou improcedentes os pedidos contidos na inicial, extinguindo o processo com resolução do mérito, nos termos do art. 487, I, do CPC.

Nas suas razões recursais (id nº 25965519), a parte apelante pleiteia a reforma da sentença aduzindo, em suma, a falta de comprovação nos autos da validade do contrato objeto da ação.

Em contrarrazões (id nº 25965523), o Apelado pugnou, em síntese, pela manutenção da sentença recorrida.

Juízo de admissibilidade positivo, conforme decisão de ID nº 28119616.

É o relatório.


VOTO

 


I – DO JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE DO RECURSO


De início, CONFIRMO o Juízo de Admissibilidade positivo realizado na decisão de ID nº 28119616, tendo em vista o preenchimento dos requisitos de admissibilidade recursal.

Passo, pois, à análise do mérito recursal.


II – DA VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE


O art. 1.010 do Código de Processo Civil estabelece os pressupostos do recurso de Apelação, a saber: os nomes e a qualificação das partes; os fundamentos de fato e de direito; o pedido de nova decisão; devolvendo, à luz do artigo 1.013 do mesmo diploma legal, o conhecimento da matéria impugnada.

Assim, assevera-se que todo recurso deve ser interposto junto com as razões do seu inconformismo e deve atacar especificamente as matérias de fato e de direito da sentença recorrida, sob pena de violação ao princípio da dialeticidade e não conhecimento, conforme preceitua o artigo 932, inciso III, do CPC:


Art. 932. Incumbe ao relator:

(...);

III - não conhecer de recurso inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os fundamentos da decisão recorrida.


A propósito da preliminar suscitada pelo Apelado em suas contrarrazões, não verifico lhe assistir razão, haja vista que o recurso interposto combate os fundamentos determinantes do julgado recorrido. Dessa forma, inexiste violação ao princípio da dialeticidade.


II – DO MÉRITO


Consoante relatado, o Juízo de origem entendeu pela validade do contrato litigado nos autos, constituído entre a Instituição Credora/Apelada e a parte apelante, por entender que o Banco/Apelado comprovou, através dos documentos juntados aos autos, que a parte apelante aderiu ao contrato questionado, tendo se beneficiado com o crédito oriundo do mesmo, restando demonstrada a licitude da operação financeira.

Cabe ressaltar que, na espécie, há típica relação de consumo entre as partes, uma vez que, de acordo com o teor do Enunciado nº 297, da Súmula do STJ, as instituições bancárias, como prestadoras de serviços, estão submetidas ao CDC.

Além disso, vislumbro a condição de hipossuficiência da parte apelante, razão pela qual correta a inversão do ônus probatório realizada na origem, nos moldes do art. 6º, VIII, do CDC.

No caso, verifica-se que não assiste razão à parte apelante, uma vez que o Apelado juntou o instrumento contratual nos autos (ID25964014), onde se verifica, de forma clara, as informações pertinentes à contratação, informações pessoais relativas à parte apelante, além de foto selfie e demais dados relativos à assinatura, como geolocalização, data e hora e dados do celular através do qual foi realizada a contratação.

Desse modo, tenho por comprovada a manifestação de vontade expressa da parte Recorrente no sentido de efetivar a contratação.

De igual modo, restou comprovada a transferência do valor contratado para a conta bancária da parte apelante, consoante documento de ID nº 259640120, no qual consta a transferência do valor contratado realizada em favor da parte Recorrente.

Assim, todo o lastro probatório presente nos autos, leva a crer a existência da relação contratual, uma vez que consta o instrumento contratual com a assinatura da parte Apelante e comprovante da transferência dos valores contratados para a conta da parte recorrente, desconstituindo, assim, o direito da parte Autora/Apelante.

Dessa forma, não há que se falar em ato ilícito que justifique a alegada responsabilidade civil do Apelado pelo suposto dano experimentado pela parte Apelante, razão pela qual improcedem os pedidos de indenização por danos morais e de repetição de indébito.

Nesse sentido, firmou-se a jurisprudência dos tribunais pátrios, consoante precedente acostado à similitude: TJ-MG- Apelação Cível 1.0000.20.599818-0/001, Relator(a): Des.(a) ARNALDO MACIEL , 18ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 09/03/2021, publicação: 09/03/2021; TJ-MS - APL: 08002792620188120029 MS 0800279-26.2018.8.12.0029, Relator: Des. FERNANDO MAURO MOREIRA MARINHO, Data de Julgamento: 12/03/2019, 2ª Câmara Cível, Data de Publicação: 14/03/2019; TJ-RSApelação Cível, nº 70077970374, Décima Quinta Câmara Cível, Relatora: ADRIANA DA SILVA RIBEIRO, Julgado em: 19-09-2018 Publicação: 28-09-2018.

Desse modo, a manutenção da sentença é medida que se impõe.


III – DO DISPOSITIVO


Diante do exposto, CONHEÇO da APELAÇÃO CÍVEL, por atender aos seus requisitos legais de admissibilidade, mas NEGO-LHE PROVIMENTO, mantendo a sentença recorrida, em todos os seus termos.

Com fulcro no art. 85, §11º, do CPC, bem como consoante o entendimento da Corte Superior (Tema 1.059), MAJORO os honorários sucumbenciais para o percentual de 15% (quinze por cento) sobre o valor da causa, observando-se, contudo, a suspensão da exigibilidade, nos termos do art. 98, §3º, do CPC, em razão de a parte apelante ser beneficiária da Justiça Gratuita. Custas de lei.

É como VOTO.


Teresina – PI, data e assinatura eletrônicas.


Des. Dioclécio Sousa da Silva

Relator


 



Detalhes

Processo

0800273-16.2025.8.18.0026

Órgão Julgador

Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

DIOCLECIO SOUSA DA SILVA

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Empréstimo consignado

Autor

FRANCISCO DA COSTA SILVA

Réu

FACTA FINANCEIRA S.A. CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO

Publicação

04/03/2026