Acórdão de 2º Grau

Rescisão do contrato e devolução do dinheiro 0801448-45.2025.8.18.0123


Ementa

DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR. JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. RECURSO INOMINADO. INCOMPETÊNCIA TERRITORIAL. AGÊNCIA BANCÁRIA NO FORO DA DEMANDA. ART. 4º DA LEI Nº 9.099/95. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. ALEGAÇÃO DE FRAUDE. CONTRATAÇÃO COMPROVADA. VALIDADE DO CONTRATO. IMPROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS. RECURSO PROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso inominado interposto contra sentença que extinguiu a ação sem resolução do mérito, por incompetência territorial, em demanda na qual o autor alegou descontos indevidos em benefício previdenciário decorrentes de empréstimo consignado supostamente fraudulento, ajuizada em face de instituição financeira com agência no foro da comarca. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há duas questões em discussão: (i) definir se é competente o Juizado Especial Cível da comarca onde localizada agência da instituição financeira demandada; (ii) estabelecer se houve fraude na contratação de empréstimo consignado que justificasse a declaração de nulidade do contrato e a restituição dos valores descontados. III. RAZÕES DE DECIDIR A competência territorial no âmbito dos Juizados Especiais rege-se pelo art. 4º, I, da Lei nº 9.099/95, que autoriza o ajuizamento da ação no foro do domicílio do réu ou de sua agência ou filial. A existência de agência bancária da instituição financeira demandada na comarca onde proposta a ação autoriza o reconhecimento da competência territorial, sendo indevida a extinção do feito de ofício. A jurisprudência admite a escolha do foro pelo autor, quando observadas as hipóteses legais de fixação da competência territorial nos Juizados Especiais. A causa encontra-se madura para julgamento, permitindo a apreciação do mérito nos termos da teoria da causa madura. A relação jurídica entre as partes é de consumo, aplicando-se o Código de Defesa do Consumidor, inclusive quanto à inversão do ônus da prova, quando presentes seus requisitos. A instituição financeira comprovou a regularidade da contratação do empréstimo consignado mediante apresentação de contrato válido, assinado a rogo, com observância das formalidades legais, bem como a efetiva disponibilização do valor contratado na conta do autor. Ausentes indícios de fraude ou de vício de consentimento, inexiste conduta ilícita por parte da instituição financeira, o que afasta os pedidos de nulidade contratual, repetição de indébito e indenização por danos morais. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso provido. (TJPI - RECURSO INOMINADO CÍVEL 0801448-45.2025.8.18.0123 - Relator: KELSON CARVALHO LOPES DA SILVA - 2ª Turma Recursal - Data 07/04/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

2ª Turma Recursal

RECURSO INOMINADO CÍVEL (460) Nº 0801448-45.2025.8.18.0123
RECORRENTE: FRANCISCO MAGALHAES PASSOS
Advogado(s) do reclamante: CLAUDIO ROBERTO CASTELO BRANCO
RECORRIDO: BANCO ITAU CONSIGNADO S/A
Advogado(s) do reclamado: GIOVANA NISHINO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO GIOVANA NISHINO, ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO, FRANCISCO ANTONIO FRAGATA JUNIOR
RELATOR(A): 2ª Cadeira da 2ª Turma Recursal

 

 

EMENTA

 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR. JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. RECURSO INOMINADO. INCOMPETÊNCIA TERRITORIAL. AGÊNCIA BANCÁRIA NO FORO DA DEMANDA. ART. 4º DA LEI Nº 9.099/95. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. ALEGAÇÃO DE FRAUDE. CONTRATAÇÃO COMPROVADA. VALIDADE DO CONTRATO. IMPROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS. RECURSO PROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Recurso inominado interposto contra sentença que extinguiu a ação sem resolução do mérito, por incompetência territorial, em demanda na qual o autor alegou descontos indevidos em benefício previdenciário decorrentes de empréstimo consignado supostamente fraudulento, ajuizada em face de instituição financeira com agência no foro da comarca.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão: (i) definir se é competente o Juizado Especial Cível da comarca onde localizada agência da instituição financeira demandada; (ii) estabelecer se houve fraude na contratação de empréstimo consignado que justificasse a declaração de nulidade do contrato e a restituição dos valores descontados.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. A competência territorial no âmbito dos Juizados Especiais rege-se pelo art. 4º, I, da Lei nº 9.099/95, que autoriza o ajuizamento da ação no foro do domicílio do réu ou de sua agência ou filial.

  2. A existência de agência bancária da instituição financeira demandada na comarca onde proposta a ação autoriza o reconhecimento da competência territorial, sendo indevida a extinção do feito de ofício.

  3. A jurisprudência admite a escolha do foro pelo autor, quando observadas as hipóteses legais de fixação da competência territorial nos Juizados Especiais.

  4. A causa encontra-se madura para julgamento, permitindo a apreciação do mérito nos termos da teoria da causa madura.

  5. A relação jurídica entre as partes é de consumo, aplicando-se o Código de Defesa do Consumidor, inclusive quanto à inversão do ônus da prova, quando presentes seus requisitos.

  6. A instituição financeira comprovou a regularidade da contratação do empréstimo consignado mediante apresentação de contrato válido, assinado a rogo, com observância das formalidades legais, bem como a efetiva disponibilização do valor contratado na conta do autor.

  7. Ausentes indícios de fraude ou de vício de consentimento, inexiste conduta ilícita por parte da instituição financeira, o que afasta os pedidos de nulidade contratual, repetição de indébito e indenização por danos morais.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso provido.

 

 

 

 

 

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em Plenário Virtual realizada de 11/02/2026 a 23/02/2026, acordam os componentes do(a) 2ª Turma Recursal do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e dar parcial provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).


2ª Cadeira da 2ª Turma Recursal

Relator

 

 

RELATÓRIO

 

 

Trata-se de Ação Judicial na qual a parte autora afirma que vem sofrendo descontos indevidos em seu benefício previdenciário em razão de empréstimo consignado supostamente realizado de forma fraudulenta pela instituição financeira.

Sobreveio sentença, ID 28588105, que declarou a extinção da demanda, por incompetência territorial, nos termos do artigo 51, III da Lei n° 9.099/95.

Inconformado com a sentença proferida, o autor interpôs o presente recurso inominado, ID 28588106, aduzindo, em síntese, que não há o que se falar em incompetência territorial, pois como já mencionado anteriormente o artigo 53, III, do CPC, assegura que deve ser reconhecida a aplicação da regra básica da competência, segundo a qual o réu deve ser demandado no local de seu domicílio, sede, agência ou sucursal.

É o relatório.

 

VOTO

 

 

 

Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso.

O presente feito foi ajuizado no Juizado Especial Cível da comarca de Parnaíba – PI com fundamento no art. 4º, inciso I, da Lei nº 9.099/95. Sobreveio sentença que julgou extinto sem resolução do mérito sobre a alegação de incompetência territorial.

Ocorre que, a sentença foi equivocada, uma vez que o banco demandado possui agência na Comarca de Parnaíba, cujo endereço fora apontado na exordial. Diante disso, a agência do município de Parnaíba pode ser tida como filial para efeitos de fixação da competência territorial na forma do art. 4º, inciso I, da Lei nº 9.099/95.

Cumpre registrar que a jurisprudência é robusta no entendimento de que o autor pode escolher o foro para demandar contra o réu, como se ver na decisão do Egrégio Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:



RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. REGISTRO DE MARCAS E PATENTES. NÃO INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. CLÁUSULA DE ELEIÇÃO DE FORO. COMPETÊNCIA TERRITORIAL NÃO ABUSIVA. INCOMPETÊNCIA DE FORO RECONHECIDA NA ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE DE EXTINÇÃO DO FEITO EX OFFÍCIO. APLICAÇÃO DO ART. 4º DA LEI 9099/95. POSSIBILIDADE DE O AUTOR ESCOLHER O FORO PARA DEMANDAR CONTRA O RÉU. SENTENÇA DESCONSTITUÍDA. RETORNO DOS AUTOS À ORIGEM PARA INSTRUÇÃO E JULGAMENTO DA AÇÃO. RECURSO PROVIDO. (Recurso Cível Nº 71006108237, Quarta Turma Recursal Cível, Turmas Recursais, Relator: Glaucia Dipp Dreher, Julgado em 01/07/2016). (TJ-RS - Recurso Cível: 71006108237 RS, Relator: Glaucia Dipp Dreher, Data de Julgamento: 01/07/2016, Quarta Turma Recursal Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do dia 06/07/2016)(grifo nosso).



Destarte, afasto a incompetência territorial, passando-se à análise do mérito, tendo em vista que o feito já se encontra instruído, com base na teoria da causa madura.

Faz-se necessário consignar que a relação jurídica existente entre as partes litigantes é de consumo, de modo que se aplicam ao caso todas as disposições do Código de Defesa do Consumidor, inclusive no que se refere à responsabilidade objetiva do prestador de serviço considerado defeituoso.

Aduziu a parte requerida, em síntese, que a parte promovente realizou contratação de empréstimo consignado com o banco ora demandado. Esclarece que caberia ao recorrente comprovar de que forma se deu a contratação, podendo demonstrar, por exemplo, por meio de telas sistêmicas, extratos da contratação.

Com efeito, dúvidas não há de que o vínculo estabelecido entre autor e ré é regido pelas normas da Lei Consumerista, vez que se trata de relação de consumo, conforme dispõe os artigos 2º e 3º do CDC, sendo plenamente aplicáveis ao presente caso as normas protetivas da referida lei.

Neste respeito, a Legislação Consumerista confere uma série de prerrogativas ao consumidor, na tentativa de equilibrar a relação de consumo, a exemplo do art. 6º, inciso VIII, do sobredito diploma legal, o qual disciplina a facilitação da defesa dos seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente.

Compulsando os autos, verifica-se que o banco réu juntou o contrato em debate, devidamente assinado e cumpridos os requisitos para contratação com analfabeto, bem como o comprovante de disponibilização do valor do empréstimo na conta do autor.

Observa-se que dos autos consta prova contundente da contratação sem quaisquer indícios de fraude, estando presentes todos os requisitos legais para validade do documento.

Assim, constato a inexistência de conduta ilícita do banco recorrido, pois o contrato foi cumprido integralmente, e nos termos acordados com a parte autora. Nesse sentido:



APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE EMPRÉSTIMO CONSIGNADO CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS. CONTRATAÇÃO COMPROVADA POR CONTRATO ASSINADO A ROGO. DISPONIBILIZAÇÃO DO PRODUTO DO MÚTUO DEMONSTRADA POR TED. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO NÃO PROVIDO. 1. Restando efetivamente demonstrada nos autos a contratação do empréstimo consignado questionado, através de apresentação de contrato válido, com assinatura da parte contratante e indicação de sua conta bancária, com apresentação do respectivo TED, reputa-se válida a relação jurídica que existiu entre as partes. 2. Ao afastar a ilegalidade do contrato questionado, restam prejudicados, por consequência, os pedidos de repetição de indébito e indenização por danos morais. 3. Recurso não provido. (TJ-MS – AC: 08072644020208120029 MS 0807264-40.2020.8.12.0029, Relator: Des. Sérgio Fernandes Martins, Data de Julgamento: 16/12/2021, 1ª Câmara Cível, Data de Publicação: 11/01/2022) (negritou-se).



Ante o exposto, conheço do recurso e dou-lhe provimento, a fim de reformar a sentença recorrida para afastar a declaração de incompetência e, no mérito, declarar válida a contratação do empréstimo consignado, não estando a avença eivada de quaisquer vícios, julgando improcedentes os pedidos da inicial.

Sem ônus de sucumbência.

É como voto.

Assinado e datado eletronicamente.






 

 

 

 

2ª Cadeira da 2ª Turma Recursal

Relator

 

 

JuLIA Explica

 

Detalhes

Processo

0801448-45.2025.8.18.0123

Órgão Julgador

2ª Cadeira da 2ª Turma Recursal

Órgão Julgador Colegiado

2ª Turma Recursal

Relator(a)

KELSON CARVALHO LOPES DA SILVA

Classe Judicial

RECURSO INOMINADO CÍVEL

Competência

Turma Recursal

Assunto Principal

Rescisão do contrato e devolução do dinheiro

Autor

FRANCISCO MAGALHAES PASSOS

Réu

BANCO ITAU CONSIGNADO S/A

Publicação

07/04/2026