Acórdão de 2º Grau

Empréstimo consignado 0800591-71.2024.8.18.0078


Ementa

EMENTA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CABIMENTO RESTRITO A OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO, OMISSÃO OU ERRO MATERIAL. AUSÊNCIA DE VÍCIO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. INADEQUAÇÃO DOS EMBARGOS PARA REDISCUSSÃO DE MÉRITO. PRESCRIÇÃO. PRAZO QUINQUENAL PREVISTO NO ART. 27 DO CDC. TERMO INICIAL NO ÚLTIMO DESCONTO DO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. INEXISTÊNCIA DE CONSUMAÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. RECURSO IMPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Embargos de declaração opostos contra acórdão que rejeitou pedido de reconhecimento de omissão quanto à análise da prescrição em contrarrazões de recurso de apelação. O embargante busca, na verdade, a revisão do julgado, sem apontar obscuridade, contradição ou omissão. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO2. Discute-se: (i) a possibilidade de utilização dos embargos declaratórios para rediscussão do mérito da decisão; e (ii) o prazo prescricional aplicável à demanda, considerando o termo inicial para sua contagem. III. RAZÕES DE DECIDIR3. Os embargos declaratórios são cabíveis somente para sanar obscuridade, contradição, omissão ou erro material, não servindo para reexame do mérito da decisão, conforme entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal.4. A prescrição aplicável é quinquenal, nos termos do art. 27 do Código de Defesa do Consumidor, tendo seu termo inicial na data do último desconto realizado no benefício previdenciário da parte autora.5. O prazo prescricional não foi consumado, razão pela qual o mérito da ação não foi afetado por prescrição.6. O julgador possui liberdade para fundamentar sua decisão com base no livre convencimento motivado, não sendo obrigado a responder a todas as questões apresentadas pelas partes quando já existam fundamentos suficientes para o julgamento.7. Inadequação dos embargos declaratórios para reexame da matéria, que deve ser discutida por meio dos recursos próprios. IV. DISPOSITIVO8. Embargos de declaração conhecidos e rejeitados por ausência de omissão, contradição, obscuridade ou erro material. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800591-71.2024.8.18.0078 - Relator: RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS - 3ª Câmara Especializada Cível - Data 05/03/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

3ª Câmara Especializada Cível

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CÍVEL (1689) Nº 0800591-71.2024.8.18.0078
EMBARGANTE: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado(s) do reclamante: ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO
EMBARGADO: IRENE PEREIRA DA COSTA
Advogado(s) do reclamado: ANA PIERINA CUNHA SOUSA
RELATOR(A): Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS



EMENTA

 

EMENTA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CABIMENTO RESTRITO A OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO, OMISSÃO OU ERRO MATERIAL. AUSÊNCIA DE VÍCIO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. INADEQUAÇÃO DOS EMBARGOS PARA REDISCUSSÃO DE MÉRITO. PRESCRIÇÃO. PRAZO QUINQUENAL PREVISTO NO ART. 27 DO CDC. TERMO INICIAL NO ÚLTIMO DESCONTO DO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. INEXISTÊNCIA DE CONSUMAÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. RECURSO IMPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

1. Embargos de declaração opostos contra acórdão que rejeitou pedido de reconhecimento de omissão quanto à análise da prescrição em contrarrazões de recurso de apelação. O embargante busca, na verdade, a revisão do julgado, sem apontar obscuridade, contradição ou omissão.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2. Discute-se: (i) a possibilidade de utilização dos embargos declaratórios para rediscussão do mérito da decisão; e (ii) o prazo prescricional aplicável à demanda, considerando o termo inicial para sua contagem.

III. RAZÕES DE DECIDIR
3. Os embargos declaratórios são cabíveis somente para sanar obscuridade, contradição, omissão ou erro material, não servindo para reexame do mérito da decisão, conforme entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal.
4. A prescrição aplicável é quinquenal, nos termos do art. 27 do Código de Defesa do Consumidor, tendo seu termo inicial na data do último desconto realizado no benefício previdenciário da parte autora.
5. O prazo prescricional não foi consumado, razão pela qual o mérito da ação não foi afetado por prescrição.
6. O julgador possui liberdade para fundamentar sua decisão com base no livre convencimento motivado, não sendo obrigado a responder a todas as questões apresentadas pelas partes quando já existam fundamentos suficientes para o julgamento.
7. Inadequação dos embargos declaratórios para reexame da matéria, que deve ser discutida por meio dos recursos próprios.

IV. DISPOSITIVO
8. Embargos de declaração conhecidos e rejeitados por ausência de omissão, contradição, obscuridade ou erro material.

 



ACÓRDÃO

Acordam os componentes do(a) 3ª Câmara Especializada Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e rejeitar os Embargos de Declaração, nos termos do voto do Relator.

Participaram do julgamento os(as) Excelentíssimos(as) Senhores(as) Desembargadores(as): AGRIMAR RODRIGUES DE ARAUJO, FERNANDO LOPES E SILVA NETO e RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS.

Acompanhou a sessão, o(a) Excelentíssimo(a) Senhor(a) Procurador(a) de Justiça, MARTHA CELINA DE OLIVEIRA NUNES.

 

SALA DAS SESSÕES DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, em Teresina, 13 de fevereiro de 2026.



RELATÓRIO

 


Trata-se de Embargos de Declaração opostos pelo BANCO BRADESCO S/A contra o acórdão proferido por esta 3ª Câmara Especializada Cível (ID n. 27562017) que negou provimento ao recurso seu recurso de apelação, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência de Débito c/c Repetição de Indébito e Indenização por Danos Morais.

Em seus aclaratórios (ID 28078052), o embargante alega que o acórdão padece de omissão, pois omitiu pronunciamento sobre o prazo prescricional.

Regularmente intimada, a parte embargada apresentou contrarrazões, pugnando pelo não acolhimento do recurso.

É o que basta relatar.


VOTO

 

I- DO CONHECIMENTO

Conheço dos presentes Embargos de Declaração, porquanto presentes os pressupostos genéricos e específicos de admissibilidade recursal, inclusive a tempestividade.

 

II- DA ANÁLISE DOS EMBARGOS DECLARATÓRIOS

Pelo que se depreende do artigo 1022 do Código de Processo Civil, são cabíveis os Embargos Declaratórios sempre que uma decisão estiver eivada de um dos seguintes vícios: obscuridade, contradição, omissão ou erro material. 

Alega- se que houve omissão devido não ter analisado a prescrição e que o prazo para tal prescrição é o trienal.

Constata- se que o prazo prescricional não foi consumado, sendo tal prazo quinquenal, e não trienal.

Quanto à inércia, assentada a aplicação da regra do artigo 27 do Código de Defesa do Consumidor, e por tratar-se de prestações sucessivas, bem como diante das condições pessoais da parte lesada, tem-se que o prazo prescricional de cinco anos da pretensão da parte apelante deve possuir como termo inicial de incidência a data da última parcela descontada indevidamente.

Portanto, para a contagem do prazo prescricional quinquenal previsto no art. 27 do CDC, o termo inicial a ser observado é a data em que ocorreu a lesão ou pagamento, o que, no caso dos autos, se deu com o último desconto na conta do benefício da parte autora.

Assim tem decidido o Superior Tribunal de Justiça, consoante percebe-se das ementas doravante transcritas:

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. IRRESIGNAÇÃO MANIFESTADA NA VIGÊNCIA DO NCPC. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE NEGÓCIO JURÍDICO CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO EM BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PRAZO PRESCRICIONAL. CINCO ANOS. ART. 27 DO CDC. TERMO INICIAL. ÚLTIMO DESCONTO. DECISÃO EM CONFORMIDADE COM O ENTENDIMENTO DESTA CORTE. PRESCRIÇÃO RECONHECIDA NA ORIGEM COM BASE NOS FATOS DA CAUSA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 7 DO STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. NÃO DEMONSTRAÇÃO, NOS MOLDES LEGAIS. RECURSO MANIFESTAMENTE INADMISSÍVEL. INCIDÊNCIA DA MULTA DO ART. 1.021, § 4º, DO NCPC. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. (…) 2. O Tribunal a quo dirimiu a controvérsia em conformidade com a orientação firmada nesta Corte, no sentido de que, para a contagem do prazo prescricional quinquenal previsto no art. 27 do CDC, o termo inicial a ser observado é a data em que ocorreu a lesão ou pagamento, o que, no caso dos autos, se deu com o último desconto do mútuo da conta do benefício da parte autora. Incidência da Súmula nº 568 do STJ, segundo a qual, o relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema. (…) (AgInt no AREsp 1481507/MS, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, TERCEIRA TURMA, julgado em 26/08/2019, DJe 28/08/2019)

AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL RECONHECIDA. REVISÃO. INVIABILIDADE. REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. ENUNCIADO 7 DA SÚMULA DO STJ. TERMO INICIAL. DATA DO ÚLTIMO DESCONTO DO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. INCIDÊNCIA DO VERBETE 83 DA SÚMULA DO STJ. NÃO PROVIMENTO. 1. A alteração das conclusões adotadas no acórdão recorrido, tal como pretendido, demandaria o reexame da matéria fática, o que é vedado em recurso especial, a teor da Súmula 7/STJ. No caso dos autos, o Tribunal de origem consignou que o prazo prescricional tem como termo inicial a data da lesão, qual seja, o último desconto efetuado no seu benefício previdenciário (novembro de 2008). 2. O Tribunal de origem julgou nos moldes da jurisprudência desta Corte. Incidente, portanto, o enunciado 83 da Súmula do STJ. 3. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1395941/MS, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 21/05/2019, DJe 28/05/2019)

 

Portanto, entre o último desconto e o ingresso da demanda não se passaram 05 (cinco) anos.

No caso em tela, a matéria controvertida é eminentemente de direito e os fatos relevantes para a sua resolução já se encontram suficientemente comprovados pelos documentos acostados ao processo.

Por fim, diferente do que foi alegado, a decisão embargada reconheceu a aplicação do artigo 405 do CC, e não da súmula 54 do STJ.

Sobre a matéria é firme o entendimento do Supremo Tribunal Federal, no sentido de que os embargos de declaração não se revelam cabíveis “quando a parte recorrente, a pretexto de esclarecer uma inexistente situação de obscuridade, omissão ou contradição, vem a utilizá-los com o objetivo de infringir o julgado e de, assim, viabilizar um indevido reexame da causa.” (RTJ 191/694-695, Relator o Ministro Celso de Mello).

Ademais, ainda que eventuais pontos não tenham sido discutidos na íntegra, é permitido ao julgador, com base no sistema do livre convencimento motivado, que seja soberano no exame das provas trazidas aos autos, cabendo-lhe então decidir de acordo com a sua convicção. Assim, não fica adstrito aos argumentos apontados pelas partes, o que lhe autoriza adotar aqueles que julgar adequados para a solução do litígio.

Com efeito, nos termos da jurisprudência do STJ, “o julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão” (STJ, Edcl no MS 21.315-DF, j. 08/06/2016).

 

DISPOSITIVO

 

Ante o exposto, CONHEÇO dos presentes Embargos de Declaração para, no mérito, REJEITÁ-LOS, ante a inexistência do vício apontado.

 

É como voto.

Teresina (PI)data registrada no sistema.

 

Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS

Relator

 

Detalhes

Processo

0800591-71.2024.8.18.0078

Órgão Julgador

Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS

Órgão Julgador Colegiado

3ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Empréstimo consignado

Autor

BANCO BRADESCO S.A.

Réu

IRENE PEREIRA DA COSTA

Publicação

05/03/2026