Acórdão de 2º Grau

Direito de Imagem 0800871-81.2020.8.18.0078


Ementa

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO POR AUSÊNCIA DE INTERESSE DE AGIR. CONDENAÇÃO DO ADVOGADO POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO PROVIDO. I. Caso em exame Apelação cível interposta contra sentença que extinguiu o processo sem resolução do mérito, por ausência de interesse de agir, nos termos do art. 485, VIII, do CPC, e condenou os advogados da parte autora ao pagamento de multa por litigância de má-fé, fixada em 5% sobre o valor da causa. A apelante limita sua insurgência à condenação imposta aos patronos, sustentando a impossibilidade de responsabilização direta do advogado por litigância de má-fé no bojo do processo. II. Questão em discussão A questão em discussão consiste em saber se é juridicamente possível a condenação direta do advogado ao pagamento de multa por litigância de má-fé, nos termos dos arts. 79 e 80 do CPC, em razão de sua atuação profissional no processo. III. Razões de decidir As penalidades por litigância de má-fé previstas nos arts. 79 e 80 do CPC são dirigidas exclusivamente às partes do processo, não podendo ser estendidas ao advogado. A eventual responsabilização do advogado por atos praticados no exercício da profissão depende da apuração de dolo ou culpa em ação própria, conforme dispõe o art. 32 da Lei nº 8.906/1994 (Estatuto da OAB). Jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça afasta a possibilidade de imposição direta de multa por litigância de má-fé ao advogado, ressalvada a apuração em via adequada. IV. Dispositivo e tese Apelação cível conhecida e provida, para excluir da sentença a condenação do advogado ao pagamento de multa por litigância de má-fé, mantendo-se os demais termos do decisum. Tese de julgamento: “A multa por litigância de má-fé prevista nos arts. 79 e 80 do CPC é dirigida exclusivamente às partes, sendo incabível sua imposição direta ao advogado, cuja eventual responsabilidade deve ser apurada em ação própria, nos termos do art. 32 do Estatuto da OAB.” (TJPI - EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CÍVEL 0800871-81.2020.8.18.0078 - Relator: DIOCLECIO SOUSA DA SILVA - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 09/03/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

1ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) Nº 0800871-81.2020.8.18.0078
APELANTE: MARIA FRANCISCA DE ARAUJO SILVA
Advogado(s) do reclamante: MARCOS VINICIUS ARAUJO VELOSO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO MARCOS VINICIUS ARAUJO VELOSO, KERCYA MAYAHARA MOURA CAVALCANTE REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO KERCYA MAYAHARA MOURA CAVALCANTE, POLIANA CRISPIM DA SILVA
APELADO: BANCO PAN S.A.
Advogado(s) do reclamado: PAULO ROBERTO JOAQUIM DOS REIS
RELATOR(A): Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA



EMENTA

 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO POR AUSÊNCIA DE INTERESSE DE AGIR. CONDENAÇÃO DO ADVOGADO POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO PROVIDO.

I. Caso em exame

  1. Apelação cível interposta contra sentença que extinguiu o processo sem resolução do mérito, por ausência de interesse de agir, nos termos do art. 485, VIII, do CPC, e condenou os advogados da parte autora ao pagamento de multa por litigância de má-fé, fixada em 5% sobre o valor da causa.

  2. A apelante limita sua insurgência à condenação imposta aos patronos, sustentando a impossibilidade de responsabilização direta do advogado por litigância de má-fé no bojo do processo.

II. Questão em discussão

  1. A questão em discussão consiste em saber se é juridicamente possível a condenação direta do advogado ao pagamento de multa por litigância de má-fé, nos termos dos arts. 79 e 80 do CPC, em razão de sua atuação profissional no processo.

III. Razões de decidir

  1. As penalidades por litigância de má-fé previstas nos arts. 79 e 80 do CPC são dirigidas exclusivamente às partes do processo, não podendo ser estendidas ao advogado.

  2. A eventual responsabilização do advogado por atos praticados no exercício da profissão depende da apuração de dolo ou culpa em ação própria, conforme dispõe o art. 32 da Lei nº 8.906/1994 (Estatuto da OAB).

  3. Jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça afasta a possibilidade de imposição direta de multa por litigância de má-fé ao advogado, ressalvada a apuração em via adequada.

IV. Dispositivo e tese

  1. Apelação cível conhecida e provida, para excluir da sentença a condenação do advogado ao pagamento de multa por litigância de má-fé, mantendo-se os demais termos do decisum.

Tese de julgamento: “A multa por litigância de má-fé prevista nos arts. 79 e 80 do CPC é dirigida exclusivamente às partes, sendo incabível sua imposição direta ao advogado, cuja eventual responsabilidade deve ser apurada em ação própria, nos termos do art. 32 do Estatuto da OAB.”

 



ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em Plenário Virtual realizada de 20/02/2026 a 27/02/2026, acordam os componentes do(a) 1ª Câmara Especializada Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e dar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).


Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Relator



RELATÓRIO

 


Trata-se de Apelação Cível, interposta por MARIA FRANCISCA DE ARAÚJO SILVA, contra sentença proferida pelo Juiz de Direito da 2ª Vara da Comarca de Valença – PI, nos autos da AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS, ajuizada pela parte Apelante, em desfavor do BANCO PAN S.A.

Na sentença, o Magistrado de 1º grau julgou extinguiu o processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 485, VIII do CPC, sob o fundamento de que o autor não tinha interesse de agir. Ainda, condenou os seus advogados por litigância de má-fé, no percentual de 5% do valor da causa.

Inconformado, a autora interpôs o recurso de apelação. Nas suas razões recursais, a apelante impugnou a condenação ao pagamento de multa por litigância de má-fé, tendo em vista a impossibilidade de condenação do advogado.

Nas contrarrazões, a parte Apelada pugnou, em síntese, pela manutenção da condenação por litigância de má-fé.

Juízo de admissibilidade positivo, conforme decisão de id. nº 27329993.

O Ministério Público deixou de emitir parecer, por não se tratar de hipótese que demande sua intervenção obrigatória, nos termos do art. 127, caput, da Constituição Federal, bem como dos arts. 176 e 178, incisos I a III, do Código de Processo Civil.

É o relatório.



VOTO

 


I – DO JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE


Juízo de admissibilidade positivo realizado, conforme decisão id. nº 27329993, uma vez preenchido os requisitos extrínsecos e intrínsecos, razão por que reitero o conhecimento do Apelo.

Passo a análise do mérito recursal.


II – DO MÉRITO


Conforme se extrai dos autos, a Apelante busca a reforma da sentença, tão somente, para afastar a multa por litigância de má-fé imposta aos advogados constituídos, sob o argumento de que não houve intenção dolosa ou prática abusiva, mas apenas o legítimo exercício do direito constitucional de ação, considerando as circunstâncias do caso e o entendimento consolidado de que advogados, por sua atuação profissional, não devem ser penalizados diretamente por litigância de má-fé.

Com efeito, à luz da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, tem-se que a referida multa, previstas nos arts. 79 e 80 do CPC, são endereçadas às partes, não podendo ser estendidas ao advogado que atuou na causa, o qual deve ser responsabilizado em ação própria, conforme disposição do Estatuto da OAB, senão vejamos:


“Lei Federal nº 8.906/1994, Art. 32. O advogado é responsável pelos atos que, no exercício profissional, praticar com dolo ou culpa.

Parágrafo único. Em caso de lide temerária, o advogado será solidariamente responsável com seu cliente, desde que coligado com este para lesar a parte contrária, o que será apurado em ação própria.” Grifos nossos.


Nesse sentido, cite-se os seguintes precedentes do STJ à similitude:


“AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. ALEGADA AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO. REEXAME DE PROVAS. SÚMULA N. 7/STJ. CONDENAÇÃO DO ADVOGADO POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. IMPOSSIBILIDADE. PARCIAL PROVIMENTO. 1. Não cabe, em recurso especial, reexaminar matéria fático-probatória (Súmula n. 7/STJ). 2. As penas por litigância de má-fé, previstas nos artigos 79 e 80 do CPC de 2015, são endereçadas às partes, não podendo ser estendidas ao advogado que atuou na causa, o qual deve ser responsabilizado em ação própria, consoante o artigo 32 da Lei 8.906/1994. Precedentes. 3. Agravo interno parcialmente provido (STJ - AgInt no AREsp: 1722332 MT 2020/0159573-3, Data de Julgamento: 13/06/2022, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 21/06/2022).”

 

“PROCESSUAL CIVIL. RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. ATO JUDICIAL. IMPETRAÇÃO. EXCEPCIONAL CABIMENTO. ILEGALIDADE, TERATOLOGIA OU ABUSO DE PODER. ADVOGADO. TERCEIRO INTERESSADO. SÚMULA N. 202/STJ. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. IMPOSIÇÃO DE MULTA AO PROFISSIONAL. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO PROVIDO. 1. É excepcional o cabimento de mandado de segurança contra ato judicial impugnável por recurso em relação ao qual se faz possível atribuir efeito suspensivo. A impetração, nessa hipótese, somente é admitida em casos de flagrante ilegalidade, teratologia ou abuso de poder. 2. Os advogados, públicos ou privados, e os membros da Defensoria Pública e do Ministério Público não estão sujeitos à aplicação de pena por litigância de má-fé em razão de sua atuação profissional. Eventual responsabilidade disciplinar decorrente de atos praticados no exercício de suas funções deverá ser apurada pelo respectivo órgão de classe ou corregedoria, a quem o magistrado oficiará. Aplicação do art. 77, § 6º, do CPC/2015. Precedentes do STJ. 3. A contrariedade direta ao dispositivo legal antes referido e à jurisprudência consolidada desta Corte Superior evidencia flagrante ilegalidade e autoriza o ajuizamento do mandado de segurança, em caráter excepcional. 4. "A impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se condiciona à interposição de recurso" (Súmula n. 202/STJ). O advogado, representante judicial de seu constituinte, é terceiro interessado na causa originária em que praticado o ato coator, e, nessa condição, tem legitimidade para impetrar mandado de segurança para defender interesse próprio. 5. Recurso provido. (RMS 59.322/MG, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, DJe 14/2/2019).”


Com efeito, o advogado não está sujeito às penalidades previstas nos art. 79 e 80 do CPC, uma vez que essas disposições se aplicam exclusivamente à parte litigante, não podendo ser estendidas àquele profissional, o qual poderá ser responsabilizado por eventual ato em ação própria em observância às regras do Estatuto da OAB.

Desse modo, esse capítulo da sentença deve ser reformado, a fim de excluir a condenação do advogado ao pagamento de multa em razão de litigância de má-fé.


III – DO DISPOSITIVO:


Ante o exposto, CONHEÇO da APELAÇÃO CÍVEL, pois preenchidos os seus requisitos legais de admissibilidade, e DOU-LHE PROVIMENTO, apenas para excluir da sentença a condenação do advogado ao pagamento da multa por litigância de má-fé, mantendo-se a decisão objurgada nos demais pontos não reformados por este voto.

É o VOTO.



Teresina – PI, data da assinatura eletrônica.


 

Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Relator



JuLIA Explica


Detalhes

Processo

0800871-81.2020.8.18.0078

Órgão Julgador

Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

DIOCLECIO SOUSA DA SILVA

Classe Judicial

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Direito de Imagem

Autor

MARIA FRANCISCA DE ARAUJO SILVA

Réu

BANCO PAN S.A.

Publicação

09/03/2026