Acórdão de 2º Grau

Capitalização e Previdência Privada 0801703-38.2023.8.18.0037


Ementa

Ementa: DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO, DANOS MORAIS E TUTELA DE URGÊNCIA. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. CONTRATAÇÃO COMPROVADA. APRESENTAÇÃO DE CONTRATO VÁLIDO E TED. RECEBIMENTO DO VALOR CONFESSADO NA INICIAL. AUSÊNCIA DE ATO ILÍCITO. INEXISTÊNCIA DE DANO MORAL E DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO. MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS RECURSAIS. DESPROVIMENTO. I. CASO EM EXAME 1. O recurso. Apelação cível interposta contra sentença que julgou improcedentes os pedidos formulados em ação declaratória de nulidade de negócio jurídico cumulada com repetição de indébito, indenização por danos morais e tutela de urgência, decorrente de empréstimo consignado. 2. Fato relevante. Parte autora alegou inexistência de contratação válida, ausência de autorização para descontos em benefício previdenciário e não recebimento dos valores do mútuo. 3. As decisões anteriores. O juízo de origem reconheceu a validade do contrato e a inexistência de ilegalidade nos descontos realizados. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 4. A questão em discussão consiste em saber se, comprovadas a contratação de empréstimo consignado e a efetiva transferência dos valores à parte autora, é cabível a declaração de nulidade do negócio jurídico, a repetição de indébito e a indenização por danos morais. III. RAZÕES DE DECIDIR 5. O contrato de empréstimo consignado apresentado preenche os requisitos legais de validade. 6. A instituição financeira comprovou a efetiva transferência do valor do mútuo mediante TED válido, além de haver reconhecimento do recebimento do valor na petição inicial. 7. Inexistente cobrança indevida, afasta-se a aplicação do art. 42, parágrafo único, do CDC. 8. Ausente ato ilícito, não se configura dano moral indenizável. 9. Não demonstrados fatos constitutivos do direito alegado pela parte autora, nos termos do art. 373, I, do CPC. 10. Mantida a improcedência dos pedidos, impõe-se a majoração dos honorários advocatícios em grau recursal, observados os limites legais. IV. DISPOSITIVO E TESE 11. Recurso desprovido. Honorários advocatícios majorados. Tese de julgamento: “Comprovadas a validade do contrato de empréstimo consignado e a efetiva transferência dos valores à conta do consumidor, é indevida a declaração de nulidade do negócio jurídico, a repetição de indébito e a indenização por danos morais.” Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 373, I; 487, I; 85, §§ 2º e 11; CDC, art. 42, parágrafo único. Jurisprudência relevante citada: TJPI, Apelação Cível nº 0800179-64.2020.8.18.0084, Rel. Des. Oton Mário José Lustosa Torres, 4ª Câmara Especializada Cível, j. 02.09.2022; TJMA, Apelação Cível nº 0801111-87.2022.8.10.0057, Rel. Des. Lourival de Jesus Serejo Sousa, 3ª Câmara Cível. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0801703-38.2023.8.18.0037 - Relator: DIOCLECIO SOUSA DA SILVA - 1ª Câmara Especializada Cível - Data 02/03/2026 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ

1ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) Nº 0801703-38.2023.8.18.0037
APELANTE: MARIA LEONILIA BARBOSA DOS SANTOS
Advogado(s) do reclamante: JOSE DE RIBAMAR NEVES DE OLIVEIRA, BRENO DA SILVA DE OLIVEIRA
APELADO: BANCO C6 S.A.
Advogado(s) do reclamado: FERNANDA RAFAELLA OLIVEIRA DE CARVALHO
RELATOR(A): Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA



EMENTA

 

DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO, DANOS MORAIS E TUTELA DE URGÊNCIA. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. CONTRATAÇÃO COMPROVADA. APRESENTAÇÃO DE CONTRATO VÁLIDO E TED. RECEBIMENTO DO VALOR CONFESSADO NA INICIAL. AUSÊNCIA DE ATO ILÍCITO. INEXISTÊNCIA DE DANO MORAL E DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO. MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS RECURSAIS. DESPROVIMENTO.

I. CASO EM EXAME

 1. O recurso. Apelação cível interposta contra sentença que julgou improcedentes os pedidos formulados em ação declaratória de nulidade de negócio jurídico cumulada com repetição de indébito, indenização por danos morais e tutela de urgência, decorrente de empréstimo consignado.

2. Fato relevante. Parte autora alegou inexistência de contratação válida, ausência de autorização para descontos em benefício previdenciário e não recebimento dos valores do mútuo.

3. As decisões anteriores. O juízo de origem reconheceu a validade do contrato e a inexistência de ilegalidade nos descontos realizados.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

 4. A questão em discussão consiste em saber se, comprovadas a contratação de empréstimo consignado e a efetiva transferência dos valores à parte autora, é cabível a declaração de nulidade do negócio jurídico, a repetição de indébito e a indenização por danos morais.

III. RAZÕES DE DECIDIR

 5. O contrato de empréstimo consignado apresentado preenche os requisitos legais de validade.

6. A instituição financeira comprovou a efetiva transferência do valor do mútuo mediante TED válido, além de haver reconhecimento do recebimento do valor na petição inicial.

7. Inexistente cobrança indevida, afasta-se a aplicação do art. 42, parágrafo único, do CDC.

8. Ausente ato ilícito, não se configura dano moral indenizável.

9. Não demonstrados fatos constitutivos do direito alegado pela parte autora, nos termos do art. 373, I, do CPC.

10. Mantida a improcedência dos pedidos, impõe-se a majoração dos honorários advocatícios em grau recursal, observados os limites legais.

IV. DISPOSITIVO E TESE

 11. Recurso desprovido. Honorários advocatícios majorados.

Tese de julgamento: “Comprovadas a validade do contrato de empréstimo consignado e a efetiva transferência dos valores à conta do consumidor, é indevida a declaração de nulidade do negócio jurídico, a repetição de indébito e a indenização por danos morais.”


Dispositivos relevantes citados: CPC, arts. 373, I; 487, I; 85, §§ 2º e 11; CDC, art. 42, parágrafo único.

Jurisprudência relevante citada: TJPI, Apelação Cível nº 0800179-64.2020.8.18.0084, Rel. Des. Oton Mário José Lustosa Torres, 4ª Câmara Especializada Cível, j. 02.09.2022; TJMA, Apelação Cível nº 0801111-87.2022.8.10.0057, Rel. Des. Lourival de Jesus Serejo Sousa, 3ª Câmara Cível.

 



ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos em Sessão do Plenário Virtual da 1ª Câmara Especializada Cível de 13/02/2026 a 25/02/2026 - Relator: Des. Dioclécio Sousa, acordam os componentes do(a) 1ª Câmara Especializada Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e negar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).



RELATÓRIO

 

 

Trata-se, de Apelação Cível, interposta por MARIA LEONILIA BARBOSA DOS SANTOS contra sentença prolatada pelo Juízo de Direito da Vara Única da Comarca de Amarante- PI, nos autos da AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE NEGÓCIO JURÍDICO CC REPETIÇÃO DE INDÉBITO CC COM DANOS MORAIS E PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA, ajuizada contra o BANCO C6 S.A.

Na sentença recorrida (ID nº 25797275), o Juízo de Origem julgou improcedentes os pedidos da Inicial, extinguindo o processo com resolução do mérito, com fulcro no art. 487, I, do CPC.

Nas suas razões recursais (ID nº 25797277), o Apelante pleiteia a reforma da sentença, aduzindo, em síntese, a nulidade do contrato.

Intimado, o Apelado, para contrarrazões (ID nº 25797281) aduziu em suma o desprovimento do recurso interposto.

Juízo de admissibilidade positivo, conforme decisão de ID nº 27812836.

Encaminhados os autos ao Ministério Público Superior, este deixou de emitir parecer de mérito, ante a ausência de interesse público que justifique a sua intervenção.

É o relatório.


VOTO

 

I – DO JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE

Presentes os requisitos de admissibilidade recursal, CONFIRMO o Juízo de admissibilidade positivo realizado na decisão ID nº 27812836.

 

II – DO MÉRITO

Conforme se extrai dos autos, a Ação foi proposta objetivando a nulidade/inexistência do contrato supostamente firmado entre as partes, a repetição do indébito, assim como a indenização por danos morais, em face dos descontos mensais incidentes sobre o benefício de aposentadoria do Apelante, sem que houvesse a sua anuência, pugnando, ainda, pela inversão do ônus da prova e pelo reconhecimento da responsabilidade objetiva do Apelado.

Nesse perfil, infere-se que o Apelante aduziu na exordial que não efetuou a contratação de empréstimo consignado com o Apelado, bem como não recebeu os valores constantes ao contrato, sustentando pela ocorrência de contrato com analfabeto de modo divergente daquele prescrito em lei.

Em sua irresignação recursal, o Apelante embasa seu pleito na inexistência do negócio jurídico, alegando que o Banco/Apelado agiu com abusividade e que não autorizou e nem lhe foi informado os descontos em seus proventos.

Por outro lado, o Apelado afirma não haver qualquer ilegalidade nos descontos realizados, tendo em vista que a contratação se deu de forma legítima, com anuência do Apelante, juntando aos autos contrato válido do Empréstimo consignado (ID nº 25797268), além da prova da transação dos valores conforme Documento de Crédito – TED (Id. 25796714), e reconhecimento em sede de Inicial do recebimento do valor referente ao contrato.

Analisando-se o ponto fulcral da lide e examinando-se os documentos acostados aos autos, constata-se que o contrato juntado aos autos é válido, por preencher os requisitos necessários.

Por conseguinte, não subsistindo a alegação de ausência de comprovação do contrato firmado, inclusive, porque restou comprovada a transferência do valor do mútuo para a conta bancária indicada pelo Apelante, resta inócua a tese de configuração de ato ilícito por cobrança indevida, sem relação jurídica subjacente, uma vez que os descontos possuem como fundamento jurídico o Contrato supramencionado.

Nesse sentido, firmou-se a jurisprudência dos tribunais pátrios, consoante precedente acostado quanto a casos em que há comprovação de contratação e TED válidos, nestes termos:


EMENTA. APELAÇÃO CÍVEL. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. PREJUDICIAL DE MÉRITO. PRESCRIÇÃO MÉRITO. AUSÊNCIA DE INSTRUMENTO CONTRATUAL VÁLIDO. SENTENÇA REFORMADA. RECURSO PROVIDO. 1. Contrato acostado não se reveste dos requisitos necessários a sua validade. Comprovante de transferência bancária (TED), válido. 2. Assim, impõe-se a condenação do banco fornecedor do serviço ao pagamento de indenização por danos morais, que se constituem in re ipsa, e a devolução em dobro da quantia que fora indevidamente descontada (repetição do indébito – art. 42, parágrafo único, do CDC). Porém, deverá ser abatido o valor de R$ 582,00 (quinhentos e oitenta e dois reais), que fora disponibilizado na conta corrente do apelante. 3. O instituto da repetição de indébito é aplicável tantos nos casos de má-fé (dolo) quanto de culpa (negligência) 4. Recurso conhecido e provido, sentença reformada.

(TJ-PI - Apelação Cível: 0800179-64.2020.8.18.0084, Relator: Oton Mário José Lustosa Torres, Data de Julgamento: 02/09/2022, 4ª CÂMARA ESPECIALIZADA CÍVEL)

 

No que se refere ao dano moral e ao dever de responsabilização civil, estes restaram perfeitamente configurados, uma vez que a responsabilidade civil do fornecedor de serviços é objetiva, independentemente da existência de culpa (art. 14, do CDC), assim como o evento danoso e o nexo causal não estão satisfatoriamente comprovados nos autos, diante do fato de não haver ilegalidade nos descontos efetuados no benefício previdenciário do Apelante.

No que pertine à responsabilização civil por danos morais, o Brasil adota a Teoria Pedagógica Mitigada, que aduz ter tal instituto um duplo viés: a) o caráter compensatório da vítima; e b) o aspecto pedagógico-punitivo do ofensor.

Assim, na fixação do valor da indenização por danos morais, tais como as condições pessoais e econômicas das partes, deve o arbitramento operar-se com moderação e razoabilidade, atento à realidade da vida e às peculiaridades de cada caso, de forma a não haver o enriquecimento indevido do ofendido e, também, de modo que sirva para desestimular o ofensor a repetir o ato ilícito.

Portanto, em relação ao valor indenizatório, considerando as circunstâncias do presente caso, não há o que se falar em valor a ser arbitrado a título de Danos Morais nesse caso.

Partindo dessa perspectiva, em relação à transferência de valores a parte apelada apresentou TED válido, de modo que associados aos Contratos que conforme já ressaltado são válidos, não há cobrança indevida e consequentemente repetição de indébito em dobro, haja vista que o art. 42, parágrafo único, do CDC, que prevê a repetição do indébito em dobro, pressupõe comportamento contrário a boa-fé objetiva, que não é o caso deste.

Isso porque, na espécie, a cobrança das parcelas referentes ao contrato entabulado entre as partes, eis que fundamentada em pactuação válida, pautou-se em previsão contratual avençada entre as partes (fato incontroverso, ante a juntada do contrato), havendo a comprovação inequívoca nos autos do recebimento do crédito contratado.

Dessa forma, é indevida a repetição dos valores descontados do benefício previdenciário da Apelante, de forma simples ou em dobro, levando-se em consideração o disponibilizado na conta, uma vez que o Recorrente recebeu o dinheiro contratado.

Desse modo, não havendo ato ilícito, não há que se falar danos materiais e morais a serem indenizados, uma vez que os descontos foram realizados em consonância com pactuação jurídica realizada entre as partes.

Com efeito, consoante dispõe o art. 373, I do CPC, o ônus da prova incumbe ao autor quanto aos fatos constitutivos do seu direito, o que não ocorre na hipótese dos autos, notadamente no que pertine à alegação de não realização do negócio jurídico e/ou não recebimento dos valores do mútuo, consoante se depreende do exame da prova documental acostada aos autos.

Exaurindo-se os autos, constata-se que a Apelante não logrou êxito em apresentar fundamentos aptos a desconstituir a decisão recorrida, ainda que parcialmente.

Logo, mostra-se correta a sentença de improcedência do pleito autoral, constatado que o Apelado se desincumbiu do seu ônus probatório e comprovou a existência do negócio jurídico, ficando demonstrado, ainda, a transferência do valor do mútuo.

No que pertine aos honorários advocatícios, devem ser estabelecidos em termos justos, considerando-se a importância e a presteza do trabalho profissional e a tramitação processual enfrentada, devendo pautar-se na equidade para o arbitramento da verba em tese, aliando-se a imprescindibilidade de o causídico ser remunerado condignamente.

Desse modo, a fixação de honorários advocatícios deve observar aos parâmetros legais e a equidade, razão pela qual majoro os honorários para 15% (quinze por cento) sobre o valor da condenação, por se mostrar adequado em função da complexidade da causa, e atender o que disciplina o art. 85, §§ 2º e 11º, do CPC, ressalvando-se a suspensão de sua exigibilidade em caso na incidência das benesses da Justiça gratuita.


III – DO DISPOSITIVO

Ante o exposto, CONHEÇO da APELAÇÃO CÍVEL, por atender aos requisitos legais de sua admissibilidade, mas NEGO-LHE PROVIMENTO, mantendo a sentença vergastada, em todos os seus termos.

MAJORO os honorários para 15% (quinze por cento) sobre o valor da condenação, por se mostrar adequado em função da complexidade da causa, e atender o que disciplina o art. 85, §§ 2º e 11º, do CPC, ressalvando-se a suspensão de sua exigibilidade em caso na incidência das benesses da Justiça gratuita.

É o VOTO.

 

Teresina – PI, data da assinatura eletrônica.

 



Detalhes

Processo

0801703-38.2023.8.18.0037

Órgão Julgador

Desembargador DIOCLÉCIO SOUSA DA SILVA

Órgão Julgador Colegiado

1ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

DIOCLECIO SOUSA DA SILVA

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Capitalização e Previdência Privada

Autor

MARIA LEONILIA BARBOSA DOS SANTOS

Réu

BANCO C6 S.A.

Publicação

02/03/2026