Acórdão de 2º Grau

Defeito, nulidade ou anulação 0803257-50.2021.8.18.0078


Ementa

DIREITO DO CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS. CONTRATO BANCÁRIO NÃO COMPROVADO. AUSÊNCIA DE TRANSFERÊNCIA DOS VALORES PARA A CONTA DO CONSUMIDOR. SÚMULA 18 DO TJPI. REPETIÇÃO EM DOBRO DO INDÉBITO. DANOS MORAIS. QUANTUM FIXADO EM R$ 2.000,00. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME Apelação cível interposta contra sentença que julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na Ação Declaratória de Nulidade de Negócio Jurídico c/c Repetição de Indébito e Danos Morais, proposta em face do requerido. A decisão de primeiro grau reconheceu a inexistência da relação contratual, condenando o réu à devolução em dobro dos valores indevidamente descontados e ao pagamento de indenização por danos morais. A autora recorre pleiteando a majoração da indenização e dos honorários advocatícios. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há duas questões em discussão: (i) verificar se o montante arbitrado a título de danos morais deve ser majorado; e (ii) definir se os honorários advocatícios devem ser elevados. III. RAZÕES DE DECIDIR A litigância de má-fé não pode ser presumida, exigindo-se prova satisfatória da conduta dolosa da parte, nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. A simples interposição de recurso não caracteriza litigância de má-fé. A ausência de prova documental da contratação e da transferência dos valores para a conta da consumidora impede a caracterização da relação jurídica entre as partes, justificando a declaração de nulidade do contrato, nos termos da Súmula 18 do TJPI. A repetição do indébito, nos moldes do art. 42, parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor, aplica-se independentemente da comprovação de má-fé, bastando a negligência da instituição financeira na realização dos descontos indevidos. O valor da indenização por danos morais deve observar os critérios de razoabilidade e proporcionalidade, evitando enriquecimento sem causa da vítima e penalidade excessiva ao réu. A jurisprudência da 4ª Câmara Especializada Cível do TJPI tem fixado, em casos análogos, o montante de R$ 2.000,00, quantia mantida no caso concreto. A majoração dos honorários advocatícios é incabível, pois o apelante já obteve êxito na ação de origem. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso desprovido. Tese de julgamento: A repetição do indébito em dobro independe da comprovação de má-fé, bastando a negligência da instituição financeira na efetuação dos descontos indevidos. A ausência de comprovação da contratação do empréstimo e da transferência dos valores para a conta do consumidor enseja a nulidade do negócio jurídico, nos termos da Súmula 18 do TJPI. A fixação de indenização por danos morais deve observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, sendo adequado o montante de R$ 2.000,00 em casos semelhantes. Dispositivos relevantes citados: Código de Defesa do Consumidor, art. 42, parágrafo único. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgInt no REsp 1306131/SP, Rel. Min. Raul Araújo, 4ª Turma, j. 16.05.2019; TJPI, Apelação Cível nº 0800891-62.2020.8.18.0049, Rel. Des. Raimundo Nonato da Costa Alencar, 4ª Câmara Especializada Cível, j. 28.03.2023. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0803257-50.2021.8.18.0078 - Relator: JOAO GABRIEL FURTADO BAPTISTA - 4ª Câmara Especializada Cível - Data 17/03/2025 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0803257-50.2021.8.18.0078

APELANTE: OTILIA SANTANA DOS SANTOS

Advogado(s) do reclamante: LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO, KILSON FERNANDO DA SILVA GOMES

APELADO: BANCO BRADESCO S.A.

Advogado(s) do reclamado: WILSON SALES BELCHIOR

RELATOR(A): Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

 


JuLIA Explica

EMENTA


DIREITO DO CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E DANOS MORAIS. CONTRATO BANCÁRIO NÃO COMPROVADO. AUSÊNCIA DE TRANSFERÊNCIA DOS VALORES PARA A CONTA DO CONSUMIDOR. SÚMULA 18 DO TJPI. REPETIÇÃO EM DOBRO DO INDÉBITO. DANOS MORAIS. QUANTUM FIXADO EM R$ 2.000,00. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO DESPROVIDO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação cível interposta contra sentença que julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na Ação Declaratória de Nulidade de Negócio Jurídico c/c Repetição de Indébito e Danos Morais, proposta em face do requerido. A decisão de primeiro grau reconheceu a inexistência da relação contratual, condenando o réu à devolução em dobro dos valores indevidamente descontados e ao pagamento de indenização por danos morais. A autora recorre pleiteando a majoração da indenização e dos honorários advocatícios.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão: (i) verificar se o montante arbitrado a título de danos morais deve ser majorado; e (ii) definir se os honorários advocatícios devem ser elevados.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. A litigância de má-fé não pode ser presumida, exigindo-se prova satisfatória da conduta dolosa da parte, nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. A simples interposição de recurso não caracteriza litigância de má-fé.
  2. A ausência de prova documental da contratação e da transferência dos valores para a conta da consumidora impede a caracterização da relação jurídica entre as partes, justificando a declaração de nulidade do contrato, nos termos da Súmula 18 do TJPI.
  3. A repetição do indébito, nos moldes do art. 42, parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor, aplica-se independentemente da comprovação de má-fé, bastando a negligência da instituição financeira na realização dos descontos indevidos.
  4. O valor da indenização por danos morais deve observar os critérios de razoabilidade e proporcionalidade, evitando enriquecimento sem causa da vítima e penalidade excessiva ao réu. A jurisprudência da 4ª Câmara Especializada Cível do TJPI tem fixado, em casos análogos, o montante de R$ 2.000,00, quantia mantida no caso concreto.
  5. A majoração dos honorários advocatícios é incabível, pois o apelante já obteve êxito na ação de origem.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso desprovido.

Tese de julgamento:

  1. A repetição do indébito em dobro independe da comprovação de má-fé, bastando a negligência da instituição financeira na efetuação dos descontos indevidos.
  2. A ausência de comprovação da contratação do empréstimo e da transferência dos valores para a conta do consumidor enseja a nulidade do negócio jurídico, nos termos da Súmula 18 do TJPI.
  3. A fixação de indenização por danos morais deve observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, sendo adequado o montante de R$ 2.000,00 em casos semelhantes.

Dispositivos relevantes citados: Código de Defesa do Consumidor, art. 42, parágrafo único.

Jurisprudência relevante citada: STJ, AgInt no REsp 1306131/SP, Rel. Min. Raul Araújo, 4ª Turma, j. 16.05.2019; TJPI, Apelação Cível nº 0800891-62.2020.8.18.0049, Rel. Des. Raimundo Nonato da Costa Alencar, 4ª Câmara Especializada Cível, j. 28.03.2023.

 


RELATÓRIO


APELAÇÃO CÍVEL (198) -0803257-50.2021.8.18.0078
Origem: 
APELANTE: OTILIA SANTANA DOS SANTOS 
Advogados do(a) APELANTE: KILSON FERNANDO DA SILVA GOMES - PI12492-A, LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO - PI15522-A

APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado do(a) APELADO: WILSON SALES BELCHIOR - PI9016-A

RELATOR(A): Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

JuLIA Explica


Em exame apelação interposta a fim de reformar a sentença pela qual foi julgada a Ação Declaratória de Nulidade Negócio Jurídico c/c Repetição de Indébito com Danos Morais, aqui versada, proposta por Otília Santana dos Santos, ora apelante, contra Banco Bradesco S.A, ora apelada.

A sentença consistiu, essencialmente, em julgar parcialmente procedentes os pedidos veiculados pela parte autora, e custas e despesas processuais dos honorários advocatícios em 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação.

Inconformada, a parte apelante, requer a majoração da indenização por danos morais e honorários advocatícios.

Em contrarrazões, a parte apelada alega inicialmente, preliminar de litigância de má-fé e pede que seja negado provimento ao recurso interposto pela parte autora.

Participação do Ministério Público desnecessária diante da recomendação contida no Ofício – Circular nº 174/2021.

É o quanto basta relatar, a fim de se passar ao voto, prorrogando-se, antes, a gratuidade judiciária deferida em primeiro grau, para efeito de admissão do recurso.

 


VOTO



            Inicialmente, à alegação da litigância de má-fé não se presume, exige-se prova satisfatória de conduta dolosa da parte, conforme já decidiu o Superior Tribunal de Justiça: 1. A simples interposição de recurso previsto em lei não caracteriza litigância de má-fé, porque esta não pode ser presumida, sendo necessária a comprovação do dolo, ou seja, da intenção de obstrução do trâmite regular do processo, o que não se percebe nos presentes autos. 2. Agravo interno a que se nega provimento. (STJ - AgInt no REsp: 1306131 SP 2011/0200058-9, Relator: Ministro RAUL ARAÚJO, Data de Julgamento: 16/05/2019, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 30/05/2019).

            Preliminar afastada em sede de contrarrazões.

                   Senhores julgadores, o juízo de 1º grau julgou parcialmente procedentes os pedidos iniciais  declarando inexistente o débito respectivo, e CONDENAR a parte requerida no pagamento de indenização à parte requerente em valor equivalente ao dobro do que aquela houver descontado no benefício desta perante o INSS, a título de danos materiais. Condeno ainda a parte demandada no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais) a título de danos morais.”

                   Compulsando os autos, verifica-se que o referido contrato e a transferência de valores para conta da autora não foram juntados aos autos restando afastada a perfectibilidade da relação contratual, ensejando a declaração de sua inexistência e a condenação da requerida à repetição do indébito (art. 42, parágrafo único, do CDC) e à indenização por danos morais, nos termos da Súmula 18, deste eg. Tribunal de Justiça do Estado do Piauí.

                   Com efeito, não há falar, in casu, em necessária prova da má-fé, vez que o instituto da repetição de indébito é aplicável tanto no caso de má-fé (dolo) como no caso de culpa, sendo suficiente a demonstração de a negligência da instituição financeira bancária na efetuação dos descontos indevidos. Nesse sentido:

PROCESSUAL CIVIL – APELAÇÃO - AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE CONTRATUAL – NEGÓCIO BANCÁRIO – AUSÊNCIA DE PROVA DA REGULARIDADE DO EMPRÉSTIMO – INCIDÊNCIA DA SÚMULA 18 DO TJ-PI – RESTITUIÇÃO EM DOBRO – DANOS MORAIS – QUANTUM RAZOÁVEL E PROPORCIONAL – RECURSO PROVIDO.

1. A ausência de comprovação, pela instituição financeira, da transferência do empréstimo supostamente contratado, para a conta bancária do consumidor/mutuário, garantidos o contraditório e a ampla defesa, enseja a declaração de nulidade da avença, com os consectários legais, nos termos da Súmula nº 18 do TJPI, inclusive.

2. Sendo ilegal a cobrança do empréstimo tido como contratado, por não decorrer de negócio jurídico válido, é obrigatória a restituição, em dobro, do que fora indevidamente pago pelo suposto devedor. Incidência do art. 42, § único, do CDC.

3. O valor da condenação por danos morais deve ser fixado com observância dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, não só a fim de cumprir a sua função punitiva/pedagógica, em relação ao ofensor, mas, ainda, para não propiciar o enriquecimento sem causa do ofendido.

4. Sentença reformada.

(TJPI | Apelação Cível Nº 0800891-62.2020.8.18.0049 | Relator: Raimundo Nonato da Costa Alencar | 4ª CÂMARA ESPECIALIZADA CÍVEL | Data de Julgamento: 28/03/2023).

 

                       No tocante ao montante indenizatório, sabe-se que a estipulação do montante deve ser compatível com a dor causada, bem como se ater aos critérios de proporcionalidade e razoabilidade, a fim de não causar o enriquecimento sem causa da vítima e fazer com que o responsável pelo evento danoso seja excessivamente punido.

                        Em sendo assim, a egrégia 4ª Câmara Especializada Cível deste Tribunal de Justiça, em casos semelhantes e recentemente julgados, tem considerado razoável a quantia de R$ 2.000,00 (dois mil reais) devidas a título de danos morais.

                        Com estes fundamentos, conheço do recurso e, no mérito, voto pelo não provimento do recurso da parte autora, mantendo a sentença a quo em todos os seus termos. 

                Deixo de majorar os honorários advocatícios em razão de o apelante já ter sido vencedor na ação de origem.




Teresina, 15/03/2025

Detalhes

Processo

0803257-50.2021.8.18.0078

Órgão Julgador

Desembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

JOAO GABRIEL FURTADO BAPTISTA

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Defeito, nulidade ou anulação

Autor

OTILIA SANTANA DOS SANTOS

Réu

BANCO BRADESCO S.A.

Publicação

17/03/2025