Acórdão de 2º Grau

Contratos Bancários 0800272-61.2021.8.18.0029


Ementa

Ementa: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. MULTA POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. INEXISTÊNCIA DE DOLO PROCESSUAL OU PROVAS SUFICIENTES. REFORMA DA SENTENÇA. PROVIMENTO DO RECURSO. I. CASO EM EXAME Apelação Cível interposta contra sentença que condenou a parte autora ao pagamento de multa por litigância de má-fé, no percentual de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa. A demanda originária questiona descontos indevidos realizados pelo banco apelado no benefício previdenciário da apelante, relativos a contrato de empréstimo consignado do qual alegava desconhecimento. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há duas questões em discussão:(i) definir se a parte apelante agiu com dolo processual que configure litigância de má-fé, nos termos do art. 80 do CPC/2015; e(ii) analisar se a imposição da multa por litigância de má-fé deve ser mantida. III. RAZÕES DE DECIDIR O art. 80 do CPC/2015 exige a comprovação de dolo processual ou conduta que configure má-fé, como alterar a verdade dos fatos, resistir injustificadamente ao andamento processual ou interpor recurso com intuito protelatório. O fato de a apelante, pessoa idosa, questionar a regularidade de um contrato não configura, por si só, intenção de alterar a verdade dos fatos ou de litigar com má-fé, especialmente quando se limita ao exercício de seu direito de ação. A má-fé processual exige demonstração inequívoca de dolo, o que não se verifica nos autos, uma vez que a parte apenas buscou esclarecer eventual irregularidade no contrato. O magistrado sentenciante aplicou a multa por entender que a parte alterou a verdade dos fatos, mas tal interpretação não encontra suporte em provas ou fatos incontroversos. Em razão da ausência de dolo processual, a aplicação da penalidade por litigância de má-fé revela-se inadequada, impondo-se a reforma da sentença nesse ponto. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso provido. Tese de julgamento: A configuração de litigância de má-fé, nos termos do art. 80 do CPC/2015, exige demonstração inequívoca de dolo processual. O exercício legítimo do direito de ação, sem elementos que comprovem má-fé, não justifica a aplicação de multa por litigância de má-fé. Dispositivos relevantes citados: CPC/2015, arts. 80 e 81; CC, art. 595. Jurisprudência relevante citada: Não citada. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800272-61.2021.8.18.0029 - Relator: JOSE WILSON FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR - 2ª Câmara Especializada Cível - Data 14/02/2025 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 2ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800272-61.2021.8.18.0029

APELANTE: FRANCISCA PEREIRA CAMPOS

Advogado(s) do reclamante: VITOR GUILHERME DE MELO PEREIRA, JOSE CASTELO BRANCO ROCHA SOARES FILHO, EDUARDO FURTADO CASTELO BRANCO SOARES

APELADO: BANCO PAN S.A.

Advogado(s) do reclamado: FELICIANO LYRA MOURA REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO FELICIANO LYRA MOURA

RELATOR(A): Desembargador JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR



JuLIA Explica

 

Ementa: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. MULTA POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. INEXISTÊNCIA DE DOLO PROCESSUAL OU PROVAS SUFICIENTES. REFORMA DA SENTENÇA. PROVIMENTO DO RECURSO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação Cível interposta contra sentença que condenou a parte autora ao pagamento de multa por litigância de má-fé, no percentual de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa. A demanda originária questiona descontos indevidos realizados pelo banco apelado no benefício previdenciário da apelante, relativos a contrato de empréstimo consignado do qual alegava desconhecimento.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. Há duas questões em discussão:
    (i) definir se a parte apelante agiu com dolo processual que configure litigância de má-fé, nos termos do art. 80 do CPC/2015; e
    (ii) analisar se a imposição da multa por litigância de má-fé deve ser mantida.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. O art. 80 do CPC/2015 exige a comprovação de dolo processual ou conduta que configure má-fé, como alterar a verdade dos fatos, resistir injustificadamente ao andamento processual ou interpor recurso com intuito protelatório.
  2. O fato de a apelante, pessoa idosa, questionar a regularidade de um contrato não configura, por si só, intenção de alterar a verdade dos fatos ou de litigar com má-fé, especialmente quando se limita ao exercício de seu direito de ação.
  3. A má-fé processual exige demonstração inequívoca de dolo, o que não se verifica nos autos, uma vez que a parte apenas buscou esclarecer eventual irregularidade no contrato.
  4. O magistrado sentenciante aplicou a multa por entender que a parte alterou a verdade dos fatos, mas tal interpretação não encontra suporte em provas ou fatos incontroversos.
  5. Em razão da ausência de dolo processual, a aplicação da penalidade por litigância de má-fé revela-se inadequada, impondo-se a reforma da sentença nesse ponto.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso provido.

Tese de julgamento:

  1. A configuração de litigância de má-fé, nos termos do art. 80 do CPC/2015, exige demonstração inequívoca de dolo processual.
  2. O exercício legítimo do direito de ação, sem elementos que comprovem má-fé, não justifica a aplicação de multa por litigância de má-fé.

Dispositivos relevantes citados: CPC/2015, arts. 80 e 81; CC, art. 595.

Jurisprudência relevante citada: Não citada.


ACÓRDÃO

 

Acordam os componentes da 2ª Câmara Especializada Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, CONHECER do recurso e DAR-LHE PROVIMENTO, reformando a sentença para afastar a condenação de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa em multa por litigância de má-fé. Mantenho, ainda, a condenação em custas e honorários sucumbenciais, no entanto, suspendo a sua exequibilidade em face da concessão dos benefícios da Justiça Gratuita.


RELATÓRIO


Trata-se de Recurso de Apelação interposto por FRANCISCA PEREIRA CAMPOS em face da sentença proferida pelo juízo da Vara Única da Comarca de José de Freitas - PI, que nos autos da AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA c/c REPETIÇÃO DE INDÉBITO c/c INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS, ajuizada pela parte Apelante, em desfavor do BANCO PAN S.A., julgou improcedentes os pedidos iniciais, com fulcro no artigo 487, I, do CPC, extinguindo o processo com resolução do mérito e condenando a parte Autora ao pagamento de multa no percentual de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa, em razão da litigância de má-fé. Condenou, ainda, ao pagamento das custas e honorários advocatícios, com a exigibilidade suspensa, ante o deferimento da justiça gratuita.

Em suas razões recursais (ID 21644215), a parte Autora, ora Apelante, requer o provimento ao apelo, a fim de que, neste plano recursal, haja a reforma integral da sentença vergastada, ante ao descabimento da aplicação da multa por litigância de má- fé.

Em contrarrazões (ID 21644219), a instituição financeira, ora Apelada, refuta todos os argumentos apresentados em apelatório e, ao fim, requer o desprovimento do recurso com a manutenção da sentença recorrida.

Diante da recomendação do Ofício Circular 174/2021 – OJOI/TJPI/PRESIDENCIA/GABJAPRE/GABJAPRES2, deixo de remeter os autos ao Ministério Público, por não vislumbrar interesse público que justifique sua atuação.

É o relatório.

Inclua-se em pauta virtual.

JuLIA Explica

 

VOTO


II – DO CONHECIMENTO DO RECURSO

Preenchidos os requisitos legais de admissibilidade, conheço da Apelação Cível interposta e passo a analisar o seu mérito.


III – DO MÉRITO RECURSAL


O recurso retrata a pretensão da parte Recorrente em ver afastada a condenação por litigância de má-fé imposta pelo juízo sentenciante.

Na origem, trata-se de demanda proposta pela parte Apelante que, demonstrando a existência de sucessivos descontos pelo banco Apelado em seu benefício previdenciário, relativos ao contrato de empréstimo consignado nº 330102914-0, alega total desconhecimento da pactuação ou anuência para tanto.

Sucede que, conforme demonstrado nos autos, a instituição bancária se desincumbiu do ônus de comprovar a existência de negócio jurídico, juntando, aos autos, o contrato discutido, ID. 21644099. Ocorre que do referido contrato, embora conste a aposição da digital da parte autora, bem como a assinatura de duas testemunhas, carece de assinatura a rogo, o que, em tese, configura violação ao art. 595 do Código Civil:


Art. 595. No contrato de prestação de serviço, quando qualquer das partes não souber ler, nem escrever, o instrumento poderá ser assinado a rogo e subscrito por duas testemunhas.


De qualquer forma, observa-se que, a despeito do vício apontado, a parte autora apelou exclusivamente em relação à aplicação da multa por litigância de má- fé, o que impede este órgão colegiado rever a questão concernente à nulidade da avença em si.

Conforme relatado, o recorrente também pretende a reforma da sentença a quo na parte referente a sua condenação por litigância de má-fé.

Constata-se que o magistrado sentenciante condenou o autor/apelante ao pagamento de multa de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa por litigância de má-fé, nos termos do art. 81, do CPC/15, sob o fundamento de que a parte autora alterou a verdade dos fatos, pois tinha ciência da legalidade da contratação.

Não obstante, a aplicação da multa pecuniária imposta ao apelante não merece prosperar.

O art. 80 do CPC/15 prescreve:


Art. 80. Considera-se litigante de má-fé aquele que:

I - deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso;

II - alterar a verdade dos fatos;

III - usar do processo para conseguir objetivo ilegal;

IV - opuser resistência injustificada ao andamento do processo;

V - proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo;

VI - provocar incidente manifestamente infundado;

VII - interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório.


Ao observar o dispositivo retro, não vislumbro qualquer hipótese que se amolde à conduta da recorrente, haja vista que a autora é pessoa idosa e que apenas exerceu seu direito de ação de acordo com o disposto na lei, conduta que não configura propósito de opor resistência injustificada ou intuito protelatório, não havendo a configuração de litigância de má-fé.

Tem-se que o fato de a autora ter questionado a regularidade da contratação não é justificativa para a penalidade imposta, até mesmo porque a má-fé deve ser comprovada.

Nesse contexto, não há espaço para aplicação da penalidade por litigância de má-fé, porque necessária comprovação, estreme de dúvida, de dolo processual.

Logo, por não estar presente algum dos requisitos contidos no art. 80 do CPC/15, tampouco o dolo processual ou prejuízo à parte contrária, impõe-se o acolhimento da irresignação, para reformar a sentença e afastar a condenação da autora ao pagamento de multa por litigância de má-fé.

Em face do exposto, CONHEÇO do recurso e DOU-LHE PROVIMENTO, reformando a sentença para afastar a condenação de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa em multa por litigância de má-fé.

Mantenho, ainda, a condenação em custas e honorários sucumbenciais, no entanto, suspendo a sua exequibilidade em face da concessão dos benefícios da Justiça Gratuita.

É como voto.


Sessão do Plenário Virtual da 2ª Câmara Especializada Cível de 31/01/2025 a 07/02/2025, presidida pelo(a) Excelentíssimo(a) Senhor(a) Desembargador(a) JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR.

Participaram do julgamento os Excelentíssimos(as) Senhores(as) Desembargadores(as): JOSÉ JAMES GOMES PEREIRA, JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR e MANOEL DE SOUSA DOURADO.

Acompanhou a sessão, o(a) Excelentíssimo(a) Senhor(a) Procurador(a) de Justiça, CATARINA GADELHA MALTA DE MOURA RUFINO.

SALA DAS SESSÕES DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, em Teresina, 7 de fevereiro de 2025.



Des. José Wilson Ferreira de Araújo Júnior

- Relator -

Detalhes

Processo

0800272-61.2021.8.18.0029

Órgão Julgador

Desembargador JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR

Órgão Julgador Colegiado

2ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

JOSE WILSON FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Contratos Bancários

Autor

FRANCISCA PEREIRA CAMPOS

Réu

BANCO PAN S.A.

Publicação

14/02/2025