Acórdão de 2º Grau

Empréstimo consignado 0825018-77.2023.8.18.0140


Ementa

PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ GABINETE DO DESEMBARGADOR RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS PROCESSO Nº: 0825018-77.2023.8.18.0140CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)ASSUNTO(S): [Empréstimo consignado]APELANTE: MARIA DAS DORES DE MORAIS CLEMENTEAPELADO: BANCO ITAU CONSIGNADO S/A E M E N T A DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. GRATUIDADE DE JUSTIÇA. PESSOA NATURAL. PRESUNÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA. DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO PRÉVIA. PROVIMENTO. I. CASO EM EXAME Apelação cível interposta contra decisão que determinou à parte agravante a comprovação de sua condição de hipossuficiência para a concessão da gratuidade de justiça. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO A questão em discussão consiste em saber se, em se tratando de pessoa natural, é necessária a comprovação prévia da condição de hipossuficiência para a concessão da gratuidade de justiça, considerando a presunção legal estabelecida pelo art. 99, § 3º, do CPC. III. RAZÕES DE DECIDIR O art. 99, § 3º, do CPC estabelece a presunção de veracidade da alegação de insuficiência de recursos deduzida exclusivamente por pessoa natural, tratando-se de presunção relativa (iuris tantum). Ao juiz não é dado determinar à pessoa natural que produza prova que confirme a presunção, sob pena de contrariar o disposto no art. 374, IV, do CPC. Admite-se, contudo, que a parte contrária produza prova capaz de afastar a presunção relativa, mediante impugnação à gratuidade de justiça. Formulado o requerimento por pessoa natural, o juiz só poderá indeferi-lo se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão da gratuidade, e mesmo assim, deve antes determinar à parte a comprovação do preenchimento dos pressupostos (art. 99, § 2° do CPC). No caso em apreço, o juízo de origem, sem apontar qualquer elemento nos autos capaz de elidir a presunção relativa de veracidade das afirmações do agravante, determinou a comprovação da hipossuficiência, o que contraria o art. 374, IV, do CPC. A concessão do benefício, em se tratando de pessoa natural, não depende da presença nos autos de elementos que demonstrem a condição de hipossuficiente. A não concessão é que reclama a presença de indícios da ausência da carência de recursos, sendo o único requisito legal a afirmação da parte. IV. DISPOSITIVO E TESE Recurso provido. Legislação relevante citada: arts. 99, §§ 2º e 3º, e 374, IV, do Código de Processo Civil; art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal. . Teresina (PI), data registrada no sistema. Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS Relator (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0825018-77.2023.8.18.0140 - Relator: RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS - 3ª Câmara Especializada Cível - Data 06/03/2025 )

Acórdão

PODER JUDICIÁRIO 
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
GABINETE DO
DESEMBARGADOR RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS

PROCESSO Nº: 0825018-77.2023.8.18.0140
CLASSE: APELAÇÃO CÍVEL (198)
ASSUNTO(S): [Empréstimo consignado]
APELANTE: MARIA DAS DORES DE MORAIS CLEMENTE
APELADO: BANCO ITAU CONSIGNADO S/A



E M E N T A

  

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. GRATUIDADE DE JUSTIÇA. PESSOA NATURAL. PRESUNÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA. DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO PRÉVIA. PROVIMENTO.

I. CASO EM EXAME

  1. Apelação cível interposta contra decisão que determinou à parte agravante a comprovação de sua condição de hipossuficiência para a concessão da gratuidade de justiça.

II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO

  1. A questão em discussão consiste em saber se, em se tratando de pessoa natural, é necessária a comprovação prévia da condição de hipossuficiência para a concessão da gratuidade de justiça, considerando a presunção legal estabelecida pelo art. 99, § 3º, do CPC.

III. RAZÕES DE DECIDIR

  1. O art. 99, § 3º, do CPC estabelece a presunção de veracidade da alegação de insuficiência de recursos deduzida exclusivamente por pessoa natural, tratando-se de presunção relativa (iuris tantum).
  2. Ao juiz não é dado determinar à pessoa natural que produza prova que confirme a presunção, sob pena de contrariar o disposto no art. 374, IV, do CPC. Admite-se, contudo, que a parte contrária produza prova capaz de afastar a presunção relativa, mediante impugnação à gratuidade de justiça.
  3. Formulado o requerimento por pessoa natural, o juiz só poderá indeferi-lo se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão da gratuidade, e mesmo assim, deve antes determinar à parte a comprovação do preenchimento dos pressupostos (art. 99, § 2° do CPC).
  4. No caso em apreço, o juízo de origem, sem apontar qualquer elemento nos autos capaz de elidir a presunção relativa de veracidade das afirmações do agravante, determinou a comprovação da hipossuficiência, o que contraria o art. 374, IV, do CPC.
  5. A concessão do benefício, em se tratando de pessoa natural, não depende da presença nos autos de elementos que demonstrem a condição de hipossuficiente. A não concessão é que reclama a presença de indícios da ausência da carência de recursos, sendo o único requisito legal a afirmação da parte.

IV. DISPOSITIVO E TESE

  1. Recurso provido.

Legislação relevante citada: arts. 99, §§ 2º e 3º, e 374, IV, do Código de Processo Civil; art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal.

  

A C Ó R D Ã O

 

Acordam os componentes da 3ª Câmara Especializada Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, por unanimidade, conhecer e dar provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Relator(a).



RELATÓRIO

 

Trata-se de APELAÇÃO interposta por MARIA DAS DORES DE MORAIS CLEMENTE, já qualificado, contra decisão que extinguiu o feito em razão indeferimento do pedido de gratuidade da justiça. 

Em suas razões recursais alega, em síntese, que é necessária a concessão da justiça gratuita, visto que a sua situação econômica não lhe permite vir a Juízo sem prejuízo da sua manutenção ou de sua família, e que a declaração de hipossuficiência que apresentou goza de presunção de veracidade     

Requer, assim, o recebimento e provimento do recurso, a fim de ser reformada a sentença a quo, restando deferidos os benefícios da justiça gratuita.  

Remetidos os autos à apreciação do Ministério Público Superior, que os restituiu sem exarar parecer de mérito, entendendo pela ausência de interesse público apto a provocar sua intervenção.

Vieram-me os autos conclusos. 

É a síntese do necessário. 


V O T O

  

O EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS (RELATOR): 

  

JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE RECURSAL 

  

De início, em razão do integral cumprimento dos seus requisitos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade, dou seguimento ao recurso. 



RAZÕES DO VOTO

  

O juiz de piso proferiu decisão quanto ao pedido gratuidade nos seguintes termos: 


Para fazer jus ao benefício da justiça gratuita há a necessidade de que a insuficiência de recursos prevista no art. 98, CPC, esteja associada ao sacrifício para a manutenção da própria parte, elemento este que não se verifica nos presentes autos.

Embora haja presunção de veracidade quanto à alegação da parte de necessitar da gratuidade de justiça, na forma do art. 99, §3, CPC, cumpre ao magistrado observar o cenário processual a fim de viabilizar o acolhimento da presunção ou a determinação para efetiva comprovação.

Sobre o tema, é a jurisprudência do STJ:

(omissis)

Dessa forma, a parte autora deverá COMPROVAR a sua necessidade para fins de concessão da benesse, podendo ainda requerer o parcelamento das custas processuais, na forma do art. 98, §6, CPC.

Para tal fim deverá acostar os 03 (três) últimos extratos bancários, declarações de imposto de renda, contracheques e outros documentos que entender necessário.

De todo o exposto, intime-se a parte autora, por intermédio de seu advogado, para, no prazo de 15 (quinze) dias, comprovar a sua necessidade para fins de concessão da benesse ou realizar o recolhimento das custas, na forma do art.321, CPC.


Como visto, a decisão supra determinou a intimação da agravante para coligir os autos prova de sua condição de hipossuficiência. 

Constitucionalmente assegurada (art. 5o, LXXIV) “aos que comprovarem insuficiência de recursos”, e ainda regulada, em suas linhas gerais, pelo Código de Processo Civil, a gratuidade de justiça (ou benefício de justiça gratuita) é uma garantia que, por força de disposição infraconstitucional tem sido tradicionalmente ampliada no Direito brasileiro.

Diz-se ampliada a garantia por uma razão: não obstante o texto constitucional afirme que a assistência jurídica integral e gratuita (que inclui, evidentemente, a gratuidade no acesso ao Judiciário, embora não a esgote) seja assegurada a quem comprovar insuficiência de recursos, as pessoas naturais a ela fazem jus independentemente de produção de qualquer prova.

E assim é por força do artigo 99, § 3°, do Estatuto Processual Civil, cujo texto estabelece que se presume “verdadeira a alegação de insuficiência [de recursos] deduzida exclusivamente por pessoa natural”.

Trata-se, evidentemente, de uma presunção relativa, iuris tantum, que pode ser afastada por prova em contrário (mas é importante notar o seguinte: ao juiz não é dado determinar à pessoa natural que produza prova que confirme a presunção, determinação esta que contrariaria o disposto no artigo. 374, IV). Admite-se, apenas, que a parte contrária produza prova capaz de afastar a presunção relativa, o que dependerá do oferecimento de impugnação à gratuidade de justiça.

Formulado o requerimento por pessoa natural, o juiz só poderá indeferi-lo “se houver nos autos elementos que evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão da gratuidade”, mas não sem antes “determinar à parte a comprovação do preenchimento dos pressupostos para a concessão” (artigo 99, § 2°).

Significa isto dizer que, para que cesse a presunção legal de hipossuficiência econômica em favor da pessoa natural que afirme não ter condições de arcar com o custo do processo, deve haver nos autos elementos que afastem tal presunção, que, como se disse, é iuris tantum, relativa.

Dimana do citado dispositivo legal que, mesmo diante de elementos que aparentemente indiquem certa capacidade financeira da parte, não pode o magistrado pura e simplesmente negar o requerimento de justiça gratuita, devendo, na verdade, oportunizar ao postulante a comprovação de que preenche os requisitos autorizadores da concessão. Somente depois, deve o magistrado se pronunciar.

No caso em apreço, sem que tenha apontado qualquer elemento nos autos passível de elidir a presunção relativa de veracidade das afirmações do agravante, o juízo de origem, simplesmente ignorando a regra do artigo 374, IV, do Código de Processo Civil, que garante não dependerem de prova os fatos em relação aos quais milita presunção de veracidade, afirmou que "não há elementos que demonstrem os pressupostos legais para concessão da gratuidade da justiça pleiteado pela parte autora".

Ora, a concessão do benefício, em se tratando de pessoa natural, não depende mesmo da presença nos autos de quaisquer elementos que demonstrem a condição de hipossuficiente. Ao contrário, sua não-concessão é que reclama a presença de indícios da ausência da carência de recursos. O único requisito legal apontado pelo Código é a afirmação da parte, ressalte-se.


DECISÃO


Ante o exposto, com base nos argumentos fáticos e jurídicos acima delineados, sem prejuízo da prova coligida aos autos, CONHEÇO DO RECURSO e, no mérito, DOU-LHE PROVIMENTO, anulando a sentença de piso e determinando a remessa dos autos ao primeiro grau de jurisdição para que seja apreciada de forma correta, nos termos precisos da legislação positiva, sobretudo no que se refere ao art. 99, §2°, do CPC, apenas podendo o juízo de piso determinar que a parte prove sua hipossuficiência caso aponte em sua decisão, fundamentadamente, de forma objetiva, clara, precisa e pormenorizada que elementos concretos evidenciam a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade, ou para que, diante da ausência de tais evidências, concedê-la na forma da lei.

Ademais, condeno o apelado nas custas e despesas processuais.

Sem honorários.

É o voto.

  

Teresina (PI), data registrada no sistema.

 

Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS

Relator


Detalhes

Processo

0825018-77.2023.8.18.0140

Órgão Julgador

Desembargador RICARDO GENTIL EULÁLIO DANTAS

Órgão Julgador Colegiado

3ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

RICARDO GENTIL EULALIO DANTAS

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Empréstimo consignado

Autor

MARIA DAS DORES DE MORAIS CLEMENTE

Réu

BANCO ITAU CONSIGNADO S/A

Publicação

06/03/2025