Acórdão de 2º Grau

Alienação Fiduciária 0800641-87.2023.8.18.0028


Ementa

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DUAS APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL ENVIADA A ENDEREÇO DIVERGENTE DO INSTRUMENTO DO CONTRATO. NULIDADE. ART. 3º DO DL.911/69 E TEMA 1132 DO STJ. PRETENSÃO NÃO RESISTIDA. SEM ARBITRAMENTO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. AMBOS RECURSOS CONHECIDOS E NÃO PROVIDOS. 1. Nas Ações de Busca e Apreensão, para a configuração da mora do devedor é suficiente o envio de notificação extrajudicial ao devedor no endereço indicado no instrumento contratual, dispensando-se a prova do recebimento; 2. No caso vertente a instituição financeira expediu a notificação para endereço divergente daquele constante no instrumento do contrato, em afronta ao art. 3º do DL.911/69 e Tema 1132 do STJ; 3. Em qualquer demanda, os honorários advocatícios são fixados em favor da parte adversa, que não deu causa à ação (princípio da causalidade) quando, citada, esta comparece aos autos e apresenta contestação, formando a angularização da relação processual, configurando, assim, a pretensão resistida entre os litigantes. Inteligência do art. 85, §10, do CPC; 4.Ambos recursos conhecidos e não providos. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0800641-87.2023.8.18.0028 - Relator: ANTONIO SOARES DOS SANTOS - 4ª Câmara Especializada Cível - Data 04/02/2025 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800641-87.2023.8.18.0028

APELANTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A., KYLSON HENRIQUE HOLANDA ALVES

Advogado(s) do reclamante: NELSON WILIANS FRATONI RODRIGUES, MARCOS LUIZ DE SA REGO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO MARCOS LUIZ DE SA REGO

APELADO: KYLSON HENRIQUE HOLANDA ALVES, AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.

Advogado(s) do reclamado: MARCOS LUIZ DE SA REGO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO MARCOS LUIZ DE SA REGO, NELSON WILIANS FRATONI RODRIGUES

RELATOR(A): Desembargador ANTÔNIO SOARES DOS SANTOS

 


JuLIA Explica

EMENTA


 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DUAS APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL ENVIADA A ENDEREÇO DIVERGENTE DO INSTRUMENTO DO CONTRATO. NULIDADE. ART. 3º DO DL.911/69 E TEMA 1132 DO STJ. PRETENSÃO NÃO RESISTIDA. SEM ARBITRAMENTO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. AMBOS RECURSOS CONHECIDOS E NÃO PROVIDOS.

1. Nas Ações de Busca e Apreensão, para a configuração da mora do devedor é suficiente o envio de notificação extrajudicial ao devedor no endereço indicado no instrumento contratual, dispensando-se a prova do recebimento;

2. No caso vertente a instituição financeira expediu a notificação para endereço divergente daquele constante no instrumento do contrato, em afronta ao art. 3º do DL.911/69 e Tema 1132 do STJ;

3. Em qualquer demanda, os honorários advocatícios são fixados em favor da parte adversa, que não deu causa à ação (princípio da causalidade) quando, citada, esta comparece aos autos e apresenta contestação, formando a angularização da relação processual, configurando, assim, a pretensão resistida entre os litigantes. Inteligência do art. 85, §10, do CPC;

4.Ambos recursos conhecidos e não providos.

 

 


RELATÓRIO


 

APELAÇÃO CÍVEL (198) -0800641-87.2023.8.18.0028
Origem: 
APELANTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A. 
Advogado do(a) APELANTE: NELSON WILIANS FRATONI RODRIGUES - PI8202-A

APELADO: KYLSON HENRIQUE HOLANDA ALVES
Advogado do(a) APELADO: MARCOS LUIZ DE SA REGO - PI3083-A

RELATOR(A): Desembargador 21ª Cadeira.


Trata-se de duas apelações cíveis interpostas contra sentença proferida pelo juízo da 2ª Vara da Comarca de Floriano/PI, nos autos da Ação de Busca e Apreensão.

A primeira, interposta pela parte autora – AYMORÉ CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A - doravante chamada de primeiro apelante. A segunda, interposta pela parte réKYLSON HENRIQUE HOLANDA ALVES - doravante denominada segundo apelante.

Na sentença recorrida, o juízo de primeiro grau julgou extinto o processo, sem resolução do mérito, ante a ausência de pressuposto de constituição e de desenvolvimento válido e regular do processo (art. 485, IV, CPC), por entender que o endereço constante do contrato é divergente daquele para onde foi enviada a notificação extrajudicial.

Na apelação interposta pelo primeiro apelante (ID18614915), a instituição financeira alegou que a notificação extrajudicial foi enviada ao endereço indicado no contrato, o que comprova a mora do devedor. Ao final pugnou pelo conhecimento e provimento do recurso.

Não foram apresentadas contrarrazões pela parte apelada.

Na apelação interposta pelo segundo apelante (ID18614813), este, em síntese, pugna pela condenação do apelado em honorários advocatícios, sob o fundamento de que requereu a extinção do processo sem resolução de mérito. Ao final, pugnou pelo conhecimento e provimento do recurso.

Não foram apresentadas contrarrazões pela parte apelada.

Na decisão de ID 19012322, foi proferido juízo de admissibilidade recursal, com o recebimento de ambos apelos nos efeitos suspensivo e devolutivo, conforme artigo 1.012, caput, e 1.013 do Código de Processo Civil.

Autos não encaminhados ao Ministério Público Superior, por não se tratar de hipótese que justifique sua intervenção, nos termos do Ofício-Circular nº 174/2021 (SEI nº 21.0.000043084-3).


É o relatório.

JuLIA Explica

 


VOTO


 

No que se refere à Apelação interposta pelo primeiro apelante (ID18614915), cumpre destacar a aplicabilidade do art. artigo 3º, do Decreto-Lei n. 911/69, segundo o qual, in literis:

(…)

Art. 3o - O proprietário fiduciário ou credor poderá, desde que comprovada a mora, na forma estabelecida pelo § 2o do art. 2o, ou o inadimplemento, requerer contra o devedor ou terceiro a busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente, a qual será concedida liminarmente, podendo ser apreciada em plantão judiciário.

Art. 2º (…)

§ 2o A mora decorrerá do simples vencimento do prazo para pagamento e poderá ser comprovada por carta registrada com aviso de recebimento, não se exigindo que a assinatura constante do referido aviso seja a do próprio destinatário.

 

Complementando a disposição legal, o Superior Tribunal de Justiça – STJ, firmou a seguinte tese quando do julgamento do Tema Repetitivo nº 1132, vejamos:

 

“Em ação de busca e apreensão fundada em contratos garantidos com alienação fiduciária (art. 2º, § 2º, do Decreto-Lei n. 911/1969), para a comprovação da mora, é suficiente o envio de notificação extrajudicial ao devedor no endereço indicado no instrumento contratual, dispensando-se a prova do recebimento, quer seja pelo próprio destinatário, quer por terceiros”.

 

Extrai-se da interpretação do tema repetitivo em consonância com o dispositivo legal, que a notificação extrajudicial do devedor deve ser enviada ao endereço constante no instrumento do contrato, sob pena de nulidade.

No caso vertente, a notificação extrajudicial (ID18614797) fora enviada a endereço divergente daquele constante no instrumento do contrato firmado entre as partes (ID18614796). Aliás, o magistrado de primeiro grau, antes de extinguir o processo, oportunizou o apelante a completar a inicial com documento que comprove a constituição do devedor em mora (ID 18614808), ônus do qual o primeiro apelante não se desincumbiu.

Com efeito, não procedem as alegações do apelante, devendo ser mantida a decisão do magistrado de primeiro grau.

A Apelação interposta pelo segundo apelante (ID18614813), cinge-se ao pedido de fixação de honorários sucumbenciais, em seu favor.

Sobre o tema, pacífico na jurisprudência pátria a aplicação do princípio da causalidade (art. 85, §10, do CPC), segundo o qual a parte que deu causa à instauração do processo deve suportar as despesas dele decorrentes.

No que se refere aos honorários advocatícios, este é fixado em favor da parte adversa (que não deu causa à ação) quando, citada, comparece aos autos e apresenta contestação, formando a angularização da relação processual, configurando a pretensão resistida entre os litigantes.

Neste sentido vejamos os seguintes arestos:

 

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DETERMINAÇÃO COMANDO JUDICIAL. AUSÊNCIA DE PRETENSÃO RESISTIDA. FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS. IMPOSSIBILIDADE. 1. Ao longo da marcha processual não houve pretensão resistida, sendo a demanda inicialmente proposta apenas para fins de atendimento de comando judicial. 2. Diante da ausência de pretensão resistida, não é devida a condenação ao pagamento de honorários de advogado. 3. Recurso conhecido e provido.

(TJ-DF 07097865120208070003 1432248, Relator: MARIO-ZAM BELMIRO, Data de Julgamento: 21/06/2022, 8ª Turma Cível, Data de Publicação: 07/07/2022).

 

APELAÇÃO CÍVEL – EMBARGOS DE TERCEIRO – ILEGITIMIDADE PASSIVA DECLARADA DE OFÍCIO – REVELIA E AUSÊNCIA DE PRETENSÃO RESISTIDA – CONDENAÇÃO DA PARTE AUTORA AOS HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS – INVIABILIDADE – RECURSO PROVIDO. Não há como condenar o autor a pagar honorários sucumbenciais ao advogado dos réus, se estes tiveram a ilegitimidade passiva declarada de ofício e não ficou configurada a pretensão resistida.

(TJ-MT 10528475520208110041 MT, Relator: RUBENS DE OLIVEIRA SANTOS FILHO, Data de Julgamento: 01/03/2023, Quarta Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 03/03/2023).


No caso vertente, constata-se que o requerido não foi chamado a integrar a lide, pois, nem sequer foi deferido o pedido liminar de busca e apreensão do bem alienado, assim, não há falar em pretensão resistida, o que inviabiliza o pedido de fixação de honorários advocatícios.

O simples fato de ter peticionado requerendo a extinção do processo, não significa pretensão resistida.

Com efeito, agiu corretamente o magistrado de primeiro grau, quando não fixou esta verba sucumbencial em favor da parte requerida.

 

DISPOSITIVO


Ante o exposto, conheço os recursos e VOTO PELO NÃO PROVIMENTO de ambos, para manter a sentença vergastada por seus próprios fundamentos.

É como voto.

Teresina/PI, data da assinatura eletrônica.

 

Desembargador ANTÔNIO SOARES

Relator


Teresina, 04/02/2025

Detalhes

Processo

0800641-87.2023.8.18.0028

Órgão Julgador

Desembargador ANTÔNIO SOARES DOS SANTOS

Órgão Julgador Colegiado

4ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

ANTONIO SOARES DOS SANTOS

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Alienação Fiduciária

Autor

AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.

Réu

KYLSON HENRIQUE HOLANDA ALVES

Publicação

04/02/2025