TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0800447-50.2022.8.18.0084
APELANTE: JOSE LOPES DA SILVA
Advogado(s) do reclamante: MAILANNY SOUSA DANTAS
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado(s) do reclamado: JOSE ALMIR DA ROCHA MENDES JUNIOR REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO JOSE ALMIR DA ROCHA MENDES JUNIOR, RITA DE CASSIA DE SIQUEIRA CURY ARAUJO
RELATOR(A): Desembargador ANTÔNIO SOARES DOS SANTOS
EMENTA
PROCESSO CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. CONSUMIDOR. INTIMAÇÃO CONFORME ARTIGO 385, § 1º, CPC. REGULAR APLICAÇÃO DA PENA DE CONFESSO. RECURSO NÃO PROVIDO.
1. Cuida-se de recurso interposto contra sentença que, aplicando a pena de confesso dada a ausência do autor à audiência de instrução onde o seu depoimento pessoal seria tomado, julgou improcedente o pedido da parte autora.
2. O não comparecimento injustificado da parte à audiência de instrução e julgamento, quando intimada pessoalmente para prestar depoimento pessoal, conduz à aplicação da pena de confissão, nos termos do artigo 385, § 1º, do CPC,
3. Recurso não provido.
RELATÓRIO
APELAÇÃO CÍVEL (198) -0800447-50.2022.8.18.0084
Origem:
APELANTE: JOSE LOPES DA SILVA
Advogado do(a) APELANTE: MAILANNY SOUSA DANTAS - PI14820-A
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
Advogados do(a) APELADO: JOSE ALMIR DA ROCHA MENDES JUNIOR - PI2338-A, RITA DE CASSIA DE SIQUEIRA CURY ARAUJO - PI5914-A
RELATOR(A): Desembargador 21ª Cadeira
Trata-se de Apelação Cível interposta por JOSÉ LOPES DA SILVA, a fim de reformar a sentença proferida pelo Vara Única da Comarca de Barro Duro - PI nos autos da ação proposta em desfavor do BANCO BRADESCO S.A, ora apelado.
A sentença consistiu, essencialmente, em julgar improcedentes os pedidos formulados na inicial, sendo aplicada, no caso, a pena de confesso.
Em suas razões recursais, a parte apelante alega, em síntese, que é inválido o negócio jurídico, ante a ausência de comprovação de transferência de valor. Afirma que a parte apelada deve ser condenada em danos morais e repetição do indébito.
Nas contrarrazões, o apelado contesta os argumentos expendidos no recurso, deixando transparecer, em suma, que o magistrado dera à lide o melhor desfecho. Pede, portanto, a manutenção da sentença.
Os autos não foram encaminhados ao Ministério Público Superior, por não se tratar de hipótese que justifique sua intervenção, nos termos do Ofício-Circular n.º 174/2021 (SEI n.º 21.0.000043084-3).
É o relatório. Decido.
VOTO
Inicialmente, cumpre destacar que o Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras, nos termos do entendimento consubstanciado no enunciado da Súmula n.º 297 do Superior Tribunal de Justiça, in verbis: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”.
O regramento consumerista se aplica ao caso, na medida em que a parte Apelada se amolda ao conceito de fornecedor, estatuído pelo art. 3º do CDC, e a parte Apelante é considerada consumidor, conforme estabelece o art. 17 daquela legislação, já que sofreu as consequências do evento. Por conseguinte, aplicável o art. 14 do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
Analisando os autos, verifico que o banco, ora apelante, manifestou a necessidade de depoimento pessoal da parte autora (id. 19143810), considerando a necessidade de sanar pontos controversos da demanda.
No caso, o depoimento pessoal do autor foi determinado pelo juiz, através da decisão presente em ID.19143812, tendo sido o demandante devidamente cientificado, conforme Certidão do Oficial de Justiça (ID. 19144166). Contudo, o autor não compareceu no dia da audiência, alegando problema de saúde.
Determinou o juízo a quo, que a causídica da parte autora, ora apelante, apresentasse no prazo de 5 (cinco) dias, a juntada de documento que comprovasse a ausência do autor. Contudo, decorreu o prazo sem manifestação.
Assim, torna-se correta a aplicação da pena de confesso, conforme previsão do parágrafo 1º do artigo 385, destacando-se que tanto na decisão, quanto no mandado expedido, havia expressa advertência quanto a possibilidade de aplicação da pena de confissão no caso de ausência injustificada.
Em relação a esta questão, destaco os comentários de Paulo Magalhães Nasser:
“A pena de confissão. Intimada a parte a comparecer para prestar depoimento pessoal e advertida que de seu não comparecimento poderá defluir uma pena de confissão, passará a recair sobre esta um ônus processual. Assim, se aparte não comparecer, ou mesmo comparecendo se recusar a depor, será a aplicada a pena de confissão sobre matéria de fato que contra ela é alegada no processo” - Comentários ao novo Código de Processo Civil / coordenação Antonio de Passo Cabral, Ronaldo Cramer – Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 602.
Nesse sentido, os julgados a seguir:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DO DÉBITO CUMULADA COM REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS - INSCRIÇÃO DO NOME DO CONSUMIDOR EM CADASTRO DE INADIMPLENTES - INTIMAÇÃO PESSOAL DA PARTE AUTORA - NÃO COMPARECIMENTO À AUDIÊNCIA DESIGNADA PARA O SEU DEPOIMENTO PESSOAL - APLICAÇÃO DA PENA DE CONFESSO - IMPERIOSIDADE - LEGITIMIDADE DO APONTAMENTO DESABONADOR - DANOS MORAIS NÃO CONFIGURADOS - O não comparecimento injustificado da parte intimada pessoalmente à audiência designada para o colhimento de seu depoimento pessoal enseja a aplicação da pena de confissão, nos termos do artigo 385, § 1º do CPC, presumindo-se a veracidade dos fatos contra ela alegados - Perpetrada em exercício regular de direito, a negativação do nome do consumidor não lhe enseja direito à indenização, por ausência de ato ilícito. (TJ-MG - AC: 10000200735926001 MG, Relator: Fernando Lins, Data de Julgamento: 23/09/2020, Data de Publicação: 24/09/2020)
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE REGRESSO - PRELIMINARES - INÉPCIA RECURSAL - REJEITADA - CERCEAMENTO DE DEFESA - AUSÊNCIA DA REQUERIDA - DEPOIMENTO PESSOAL - ENDEREÇO ALTERADO POR DIVERSAS VEZES - NÃO COMUNICAÇAO AO JUÍZO - VALIDADE DA INTIMAÇÃO - APLICAÇAO DA PENA DE CONFESSO - PRESUNÇÃO DE VERACIDADE DOS FATOS NARRADOS PELA AUTORA - PROCEDENCIA DO PEDIDO - RECURSO NÃO PROVIDO - SENTENÇA MANTIDA. - As razões recursais que contrastam adequadamente o decisum atendem à exigência da dialeticidade recursal, motivo pelo qual devem ser conhecidas - O não comparecimento injustificado da parte à audiência de instrução e julgamento, quando intimada pessoalmente para prestar depoimento pessoal no endereço constante nos autos (art. 274, parágrafo único do CPC), conduz à aplicação da pena de confissão, nos termos do artigo 385, § 1º, do CPC, presumindo-se a veracidade dos fatos contra ela alegados - Aplicada a pena de confissão à requerida, todas as outras provas tornam-se prescindíveis, vez que se presumem verdadeiros os fatos alegados em seu desfavor, de modo que se considera legítima a imputação de culpa pelo acidente, e o consequente dever de indenizar pelos prejuízos causados - Preliminares de ausência de dialeticidade e cerceamento de defesa rejeitadas. Recurso não provido. (TJ-MG - AC: 50220095420188130145, Relator: Des.(a) Mariangela Meyer, Data de Julgamento: 17/10/2023, 10ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 23/10/2023)
DISPOSITIVO
Ante o exposto, CONHEÇO do presente recurso e, no mérito, NEGO-LHE PROVIMENTO, mantendo a sentença inalterada.
Majoro os honorários sucumbenciais para 12% (doze por cento), ficando o pagamento sob condição suspensiva de exigibilidade diante da concessão da gratuidade da justiça.
Teresina/PI, data da assinatura digital.
Desembargador ANTÔNIO SOARES
Relator
Teresina, 04/02/2025
0800447-50.2022.8.18.0084
Órgão JulgadorDesembargador ANTÔNIO SOARES DOS SANTOS
Órgão Julgador Colegiado4ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)ANTONIO SOARES DOS SANTOS
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalMútuo
AutorJOSE LOPES DA SILVA
RéuBANCO BRADESCO S.A.
Publicação04/02/2025