TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 1ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0801816-97.2022.8.18.0078
APELANTE: IZABEL MARIA DE SOUSA
Advogado(s) do reclamante: LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO
APELADO: BANCO BRADESCO S.A.
REPRESENTANTE: BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S.A
Advogado(s) do reclamado: ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO ANTONIO DE MORAES DOURADO NETO
RELATOR(A): Desembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
EMENTA
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. AÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE EM RAZÃO DA COMPROVAÇÃO DO CONTRATO E DA TRANSFERÊNCIA BANCÁRIA DO VALOR CONTRATADO EM FAVOR DA PARTE APELANTE. LITIGÂNCIA DE MÁ FÉ RECONHECIDA. RECORRENTE BENEFICIADO COM A GRATUIDADE DA JUSTIÇA. POSSIBILIDADE. SENTENÇA MANTIDA. REVOGAÇÃO DA JUSTIÇA GRATUITA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE ALTERAÇÃO DA SITUAÇÃO DE HIPOSSUFICIÊNCIA. RESTABELECIMENTO DO BENEFÍCIO. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO.
1. A tentativa da parte recorrente de discutir contrato que sabia ter efetivado com a parte apelada, tendo inclusive recebido o valor contratado através de depósito efetivado em sua conta bancária, caracteriza a sua litigância de má-fé.
2. A conduta da parte apelante denota efetivamente sua deslealdade processual, nos termos do art. 80, incisos I e II, do CPC, devendo responder pelo dano processual previsto no art. 81, §2º, do CPC, às penas por litigância de má-fé, conforme fixada na sentença, inclusive, no percentual ali estabelecido, haja vista a necessidade do efeito da reprimenda quanto ao grave ato discutido.
3. Uma vez concedido os benefícios da justiça gratuita, para sua posterior revogação impõe-se a comprovação da inexistência ou desaparecimento do estado de hipossuficiência, o que não restou demonstrado nos autos. Reestabelecimento do benefício.
4. Recurso parcialmente provido.
RELATÓRIO
Vistos etc.
Trata-se de APELAÇÃO CÍVEL interposta por IZABEL MARIA DE SOUSA contra sentença exarada nos autos da Ação Declaratória de Nulidade de Relação Jurídica c/c Repetição de Indébito e Pedido de Indenização por Danos Morais (Processo nº 0801816-97.2022.8.18.0078, 4ª Vara da Comarca de Valença-PI), ajuizada contra o BANCO BRADESCO S.A, ora apelado.
Na ação originária, a parte autora/apelante alega, em síntese, que foi surpreendida com descontos consignados no seu benefício previdenciário. Afirma que não firmou contrato com a parte requerida e que não autorizou a realização de descontos no seu beneficio previdenciário.
Defende, portanto, (1) a aplicação do Código de Defesa do Consumidor, (2) a responsabilidade objetiva do Banco, (3) a reparação pelo dano moral sofrido, (4) a inversão do ônus da prova e, (5), a repetição do indébito em dobro.
Requer, enfim, a procedência integral do pedido inicial, condenando o Banco requerido em honorários advocatícios.
Na contestação, o Banco demandado, rebate as alegações da parte autora, alegando, a legalidade do empréstimo e dos descontos efetivados na conta beneficio da parte autora.
Juntou aos autos o Contrato de empréstimo consignado (Num. 16075318) e o comprovante de transferência de valores – TED (Num. 16075319).
Por sentença, o MM. Juiz julgou IMPROCEDENTES os pedidos da inicial, condenando a parte autora em litigância de má-fé, aplicando multa de cinco por cento (5%) sobre o valor da causa e honorários advocatícios fixados em dez por cento (10 %) também sobre o valor dado a causa. Revogou os benefícios da justiça gratuita.
Inconformada com a referida sentença, a parte autora interpôs RECURSO DE APELAÇÃO, sustentando que a manutenção da sentença que condenou a parte autora em litigância de má-fé caracteriza violação ao princípio constitucional de Acesso à Justiça.
Afirma que inexiste conduta da parte autora que justifique a sanção aplicada pelo d. Magistrado a quo. Quanto à revogação da justiça gratuita, afirma que não houve alteração de sua condição de hipossuficiência que autorize a revogação do benefício.
Devidamente intimado, o banco réu apresentou suas contrarrazões alegando a necessidade de manutenção da sentença hostilizada.
Recurso recebido.
É o relatório.
VOTO
O DESEMBARGADOR HAROLDO OLIVEIRA REHEM (votando): Senhores Julgadores, a APELAÇÃO CÍVEL merece ser CONHECIDA, eis que nela se encontram os pressupostos da sua admissibilidade.
A Apelação Cível merece ser conhecida, eis que nela se encontram os pressupostos de sua admissibilidade.
O d. Magistrado a quo em sua sentença condenou a parte autora/apelante ao pagamento de multa de cinco por cento (5%) do valor corrigido da causa por litigância de má-fé, por entender que a parte recorrente alterou a verdade dos fatos na tentativa de enriquecer de forma ilícita, ao informar não ter efetivado contrato com o banco apelado e não ter recebido qualquer valor referente ao empréstimo impugnado. Fatos estes impugnados e devidamente comprovados pelo apelado, ao fazer juntar aos autos cópia do contrato e comprovante do valor contratado em favor da parte apelante.
A parte recorrente, em síntese, aduz que apenas exerceu o seu direito de acesso à justiça, haja vista que de fato não se recordava da realização do empréstimo bancário.
Dessa forma, insurge-se contra a sentença que julgou improcedente a ação, condenando-o em multa por litigância de má-fé de 5% sobre o valor da causa.
Sobre a matéria, vale aqui colacionar o que dispõe o artigo 80, do CPC:
"Considera-se litigante de má-fé aquele que:
I - deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso;
II - alterar a verdade dos fatos;".
Quanto à má-fé processual do autor, ela é evidente.
Ora, fica claro a tentativa do recorrente de discutir contrato que sabia ter efetivado com a parte apelada, tendo inclusive recebido o valor contratado através de depósito efetivado em sua conta bancária.
Assim, a conduta do apelante denota efetivamente sua deslealdade processual, nos termos do art. 80, incisos I e II, do CPC, devendo responder pelo dano processual previsto no art. 81, §2º, do CPC, às penas por litigância de má-fé, conforme fixada na sentença, inclusive, no percentual ali estabelecido, haja vista a necessidade do efeito da reprimenda quanto ao grave ato discutido.
No que concerne à revogação da justiça gratuita em sentença, importa esclarecer que este, uma vez concedido, para sua revogação impõe-se a comprovação da inexistência ou desaparecimento do estado de hipossuficiência, o que não restou demonstrado nos autos, uma vez que, conforme constou unicamente da sentença, nos seguintes termos:
“CONDENO a parte requerente e o(a) advogado(a) subscritor(a) da inicial em litigância de má-fé com a imposição da multa de 5% do valor da causa em benefício da parte contrária, além da revogação da gratuidade da justiça deferida”. (Num. 16075331 - Pág. 6)
Nesse sentido, os julgados abaixo colacionados:
CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. REVOGAÇÃO DA JUSTIÇA GRATUITA. A revogação dos benefícios da Justiça Gratuita pressupõe a prova cabal de alteração do estado econômico da parte beneficiária e não meros indícios e alegações. RECURSO DOS EXEQUENTES NÃO PROVIDO. (TJ-SP - AI: 20970194520188260000 SP 2097019-45.2018.8.26.0000, Relator: Berenice Marcondes Cesar, Data de Julgamento: 28/08/2018, 28ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 29/08/2018) – Grifos acrescidos.
AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO CONDENATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DA REQUERIDA. 1. De acordo com a jurisprudência do STJ, é possível a revogação do benefício da gratuidade de justiça quando provada a inexistência ou desaparecimento do estado de hipossuficiência. Aplicação da Súmula 83/STJ. 1.1. A conclusão a que chegou o Tribunal de origem, relativa à inexistência de hipossuficiência econômica necessária à manutenção do benefício da gratuidade de justiça, fundamenta-se nas particularidades do contexto que permeia a controvérsia. Incidência da Súmula 7 do STJ 2. Agravo interno desprovido. (STJ - AgInt no AREsp: 1564850 MG 2019/0241060-7, Relator: Ministro MARCO BUZZI, Data de Julgamento: 20/02/2020, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 04/03/2020) – Grifos acrescidos.
Deste modo, ausente a comprovação da alteração da condição de hipossuficiência do apelante, a manutenção dos benefícios da justiça gratuita inicialmente deferidos.
Diante do exposto, e em sendo desnecessárias quaisquer outras assertivas, VOTO pelo PROVIMENTO PARCIAL deste RECURSO DE APELAÇÃO, unicamente para restabelecer os benefícios da justiça gratuita em favor da parte recorrente.
É o voto.
Teresina, 23/09/2024
0801816-97.2022.8.18.0078
Órgão JulgadorDesembargador HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Órgão Julgador Colegiado1ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)HAROLDO OLIVEIRA REHEM
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorIZABEL MARIA DE SOUSA
RéuBANCO BRADESCO S.A.
Publicação23/09/2024