TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 2ª Turma Recursal
RECURSO INOMINADO CÍVEL (460) No 0800186-10.2023.8.18.0130
RECORRENTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.
REPRESENTANTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.
Advogado(s) do reclamante: DENNER DE BARROS E MASCARENHAS BARBOSA
RECORRIDO: CALIXTO ANTONIO CONSTANTINO
Advogado(s) do reclamado: WALBER RICARDO NERY DE SOUSA
RELATOR(A): 3ª Cadeira da 2ª Turma Recursal
EMENTA
JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS. RECURSO INOMINADO. DIREITO DO CONSUMIDOR. CONSÓRCIO. SEGURO PRESTAMISTA E SEGURO AUTO. CONTRATAÇÃO FACULTATIVA. CASO CONCRETO EM QUE HÁ PREVISÃO CONTRATUAL DE COBRANÇA, O QUE INDICA QUE A PARTE AUTORA OPTOU PELOS SEGUROS. VENDA CASADA NÃO CARACTERIZADA. LEGALIDADE DA CLÁUSULA CONTRATUAL. DANOS MORAIS E MATERIAIS INOCORRENTES. PEDIDO INICIAL IMPROCEDENTE. SENTENÇA REFORMADA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
RELATÓRIO
RECURSO INOMINADO CÍVEL (460) -0800186-10.2023.8.18.0130 Trata-se de ação judicial na qual a parte autora alega que teve incluído no seu contrato de consórcio valores a título de Seguro Prestamista e Seguro Auto, sem seu consentimento. Requer, assim, o cancelamento da cobrança, a devolução em dobro dos valores pagos e indenização por danos morais. Após instrução do feito, sobreveio sentença (ID. N° 16124170), em que o juízo a quo julgou parcialmente procedentes os pedidos da inicial, in verbis: Posto isto, considerando a fundamentação acima exposta JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTES os pedidos inaugurais, e, via de consequência, EXTINTO o processo, com resolução do mérito, nos termos do artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil. DECLARO a abusividade das cláusulas contratuais que estipulam a cobrança de SEGURO PRESTAMISTA E SEGURO AUTO. Via de consequência, CONDENO a parte requerida a ressarcir o autor de forma simples, os valores de Seguro Prestamista, no importe de R$ 4.316,60 (quatro mil trezentos e dezesseis reais e sessenta centavos) e Seguro Auto, no valor de R$ 3.434,56 (três mil quatrocentos e trintas e quatro reais e cinquenta e seis centavos), valores atualizados monetariamente a contar da data da celebração do contrato entre as partes, e acrescida de juros de mora de 1% ao mês a partir da citação. Sem custas e sem honorários (art. 55 da Lei n. 9.099/95). Defiro a gratuidade de justiça à parte autora (art. 99, § 2º, CPC), para os fins do art. 54, parágrafo único, da Lei 9.099/95. Inconformada com a sentença proferida, a parte requerida interpôs o presente recurso inominado aduzindo, em síntese, que não há ilegalidade na contratação e que não há que se falar em danos de nenhuma natureza. Requer, por fim, o provimento do recurso para que sejam julgados improcedentes os pedidos autorais (ID. N° 16124170). Contrarrazões da recorrida (ID Nº 16124176). É o relatório.
Origem:
RECORRENTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.
REPRESENTANTE: AYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.
Advogado do(a) RECORRENTE: DENNER DE BARROS E MASCARENHAS BARBOSA - PI17270-A
RECORRIDO: CALIXTO ANTONIO CONSTANTINO
Advogado do(a) RECORRIDO: WALBER RICARDO NERY DE SOUSA - PI11784-A
RELATOR(A): 3ª Cadeira da 2ª Turma Recursal
VOTO
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do recurso e passo à sua análise. Primeiramente, afasto a alegação preliminar de decadência do direito em questão. Impende consignar que o instituto a se submeter esta lide é a prescrição e não decadência. Nesse sentido, aplicável in casu o estabelecido no art. 27 do Código de Defesa do Consumidor. O cerne da ação versa sobre a cobrança do Seguro Prestamista e Seguro Auto em contrato de financiamento automotivo. O autor alega que não houve possibilidade de recusa dos seguros em questão e que a contratação foi necessária para a aquisição do financiamento, configurando-se a venda casada. Já o banco requerido afirma que o autor fez a contratação legalmente, assinando contratos separadamente, tendo estado coberto pelos seguros durante todo o contrato. Analisando os autos observa-se que o autor assinou contratos separados para cada um dos seguros contratados, tanto para o Seguro Prestamista, quanto para o Seguro Auto. Desta forma, em observância ao entendimento consolidado nesta Segunda Turma Recursal e ao disposto nos autos, constata-se que houve inequívoca ciência da parte autora quanto à estipulação dos seguros, uma vez que estavam previstos nos próprios instrumentos negociais, situação que de modo algum vulnera o disposto no art. 6º, III, da Lei 8.078/90. Esse é o entendimento da jurisprudência, vejamos: APELAÇÃO. DIREITO CIVIL. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO DE REVISÃO CONTRATUAL. CONTRATO DE FINANCIAMENTO DE VEÍCULO. SEGURO PRESTAMISTA. LEGALIDADE. RESP 1.639.259/SP. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. SENTENÇA REFORMADA. 1. Nos termos do entendimento jurisprudencial do colendo STJ, se mostra devida a cobrança do seguro prestamista nos contratos firmados depois de 30.04.2008, observada a liberdade de contratação, sob pena de configurar venda casada. Precedentes (Tema 972 STJ). 2. Na hipótese dos autos, a contratação do seguro prestamista se configurou como uma opção posta ao consumidor e de que este tinha ciência inequívoca, inexistindo venda casada a macular o negócio jurídico. 3. Sucumbência invertida. 4. Recurso conhecido e provido. Sentença reformada. (TJ-DF 07062404420188070007 DF 0706240-44.2018.8.07.0007, Relator: ROMULO DE ARAUJO MENDES, Data de Julgamento: 22/07/2020, 1ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado no DJE : 07/08/2020 . Pág.: Sem Página Cadastrada.) (grifo nosso). Não vislumbro, portanto, nenhuma abusividade, má-fé ou deslealdade contratual por parte do requerido. A simples realização dos negócios (contrato de financiamento e seguros contratados) em um único momento e instrumento não caracteriza necessariamente venda casada. Para tal, mister fosse comprovado que a recorrente tivesse condicionado a aquisição de um produto ou serviço à compra de outro, o que não ficou demonstrado ao longo dos autos. Assim, diante da constatação de inexistência de venda casada no caso dos autos, a improcedência da demanda é medida que se impõe. Portanto, ante o exposto, conheço do recurso e dou-lhe provimento para reformar a sentença, julgando improcedentes os pedidos iniciais, nos termos do art. 487, I do CPC. Sem ônus de sucumbência. Teresina (PI), datado eletronicamente.
Teresina, 02/07/2024
0800186-10.2023.8.18.0130
Órgão Julgador3ª Cadeira da 2ª Turma Recursal
Órgão Julgador Colegiado2ª Turma Recursal
Relator(a)SEBASTIAO FIRMINO LIMA FILHO
Classe JudicialRECURSO INOMINADO CÍVEL
CompetênciaTurma Recursal
Assunto PrincipalPráticas Abusivas
AutorAYMORE CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO S.A.
RéuCALIXTO ANTONIO CONSTANTINO
Publicação10/07/2024