Acórdão de 2º Grau

Seguro 0804337-75.2021.8.18.0037


Ementa

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA. APELAÇÃO DA PARTE AUTORA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA REGULARIDADE DA CONTRATAÇÃO. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. DESCONTOS EM CONTA BANCÁRIA QUE AUTORIZAM A DEVOLUÇÃO EM DOBRO. DANO MORAL CARACTERIZADO. QUANTUM PROPORCIONAL ÀS 04 (QUATRO) PARCELAS DESCONTADAS. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. (TJPI - APELAÇÃO CÍVEL 0804337-75.2021.8.18.0037 - Relator: JOSE WILSON FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR - 2ª Câmara Especializada Cível - Data 24/11/2023 )

Acórdão


ÓRGÃO JULGADOR : 2ª Câmara Especializada Cível

APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0804337-75.2021.8.18.0037

APELANTE: FRANCISCA ALVES DA SILVA NASCIMENTO

Advogado(s) do reclamante: KAYO FRANCESCOLLY DE AZEVEDO LEONCIO, LORRAYNON MAYO DA SILVA ROCHA

APELADO: BANCO BRADESCO S.A., LIBERTY SEGUROS S/A

REPRESENTANTE: BANCO BRADESCO S.A.

Advogado(s) do reclamado: JAIME AUGUSTO FREIRE DE CARVALHO MARQUES

RELATOR(A): Desembargador JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR


EMENTA


 

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA. APELAÇÃO DA PARTE AUTORA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA REGULARIDADE DA CONTRATAÇÃO. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. DESCONTOS EM CONTA BANCÁRIA QUE AUTORIZAM A DEVOLUÇÃO EM DOBRO. DANO MORAL CARACTERIZADO. QUANTUM PROPORCIONAL ÀS 04 (QUATRO) PARCELAS DESCONTADAS. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO.

 



DECISÃO: “Acordam os componentes da 2ª Câmara Especializada Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, à unanimidade, conhecer da apelação cível, para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, reformando a sentença recorrida tão somente quanto à condenação da parte apelada ao pagamento de danos morais, no valor R$ 1.000,00 (um mil reais). Em razão do parcial provimento à apelação interposta pela parte autora, deixo de majorar os honorários sucumbenciais arbitrados na origem, nos termos do voto do Relator.”


Relatório


Trata-se de Recurso de Apelação Cível interposto por Francisca Alves da Silva Nascimento em face da sentença proferida pelo Juízo da Vara Única da Comarca de Amarante/PI que, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência de Débito, proposta pela apelante, em desfavor de Liberty Seguros S/A, ora apelada, julgou parcialmente procedentes os pedidos autorais para declarar a nulidade da contratação do serviço de “PAGTO COBRANÇA LIBERTY SEGUROS S/A”, com a cessação imediata dos descontos e devolução, em dobro, da quantia indevidamente descontados, indeferindo, contudo, o pedido de danos morais. Custas e honorários pela parte requerida, estes, arbitrados em 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação.

Insatisfeita, a parte autora interpôs recurso de apelação (ID 11949692), pleiteando a parcial reforma da sentença para condenar a instituição apelada ao pagamento de danos morais, no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), porquanto esteja caracterizado o ato ilícito por parte da seguradora.

Contrarrazões da Liberty Seguros S/A pugnando pela manutenção da sentença. (ID 11949694)

Em razão da recomendação contida no Ofício-Circular nº 174/2021, os autos não foram encaminhados ao Ministério Público Superior.

É o relatório.

VOTO


Presentes os pressupostos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade, conheço do recurso de Apelação.

A parte autora propôs a presente demanda buscando tutela jurisdicional no intuito de fazer cessar descontos realizados indevidamente de sua conta corrente, a título de suposta contratação de seguro junto à seguradora demandada, bem como, visando a restituição em dobro do valor efetivamente debitado e uma indenização por danos morais, alegando, para tanto, que jamais realizou ou autorizou a referida contratação.

Não restam dúvidas de que a presente lide, por analisar suposta falha na prestação dos serviços prestados por parte da instituição apelada, deve ser balizada pela ótica do Código de Defesa do Consumidor, como, inclusive, já sumulado pela Corte Superior de Justiça:


Súmula 297/STJ: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras.”


Nesse contexto, é imprescindível o reconhecimento da vulnerabilidade da consumidora diante da empresa seguradora.

Na hipótese, essa vulnerabilidade deve ser analisada principalmente sob os vieses da insuficiência técnica e financeira da consumidora quando comparadas à vigorosa superioridade desfrutada pelas instituições na prestação de seus complexos serviços.

Assim, em regra, recai à empresa o ônus de provar a existência e validade da relação jurídica entre os litigantes, como preceituado no art. 6°, VIII, do CDC, momento em que é ao consumidor a inversão do referido encargo previsto no art. 373, II, do Código de Processo Civil.

Portanto, conforme já reconhecido em sentença, a empresa ré não obteve êxito em demonstrar a existência da contratação do seguro pela parte autora, motivo pelo qual deve ser mantida a nulidade da relação jurídica.

Como consequência à nulidade da negociação contratual, impõe-se à seguradora o dever de restituir, em dobro, o valor indevidamente descontado do patrimônio da autora, nos moldes determinados pelo art. 42, do CDC, eis que caracterizada conduta contrária à boa-fé objetiva.

Sobre esse valor deve incidir juros de mora, a partir da citação – no percentual de 1% ao mês – em atenção ao disposto no art. 406 do Código Civil, bem como, ao art. 161, §1º, do Código Tributário Nacional, nos termos do art. 405 do Código Civil; e da correção monetária, (índice calculado pelo IPCA-E), nos termos da Tabela de Correção adotada na Justiça Federal (Provimento Conjunto n° 06/2009 do Egrégio TJPI), conforme disposição da súmula nº 43 do STJ.

Nesse aspecto, convém destacar que caracterizada a conduta abusiva por parte da empresa seguradora, ao contrário dos fundamentos dispostos na sentença, julgo necessária a sua condenação em indenizar os danos morais vivenciados pela parte consumidora, guardadas as devidas proporções, já que demonstrado o desconto de apenas 04 (quatro) parcelas do contrato em discussão.

Assim, conquanto inexistam parâmetros legais para estipular o quantum indenizatório, não se trata de tarefa puramente discricionária, uma vez que doutrina e jurisprudência estabelecem algumas diretrizes, devendo o julgador pautar-se por critérios de razoabilidade e proporcionalidade, observando, ainda, a dupla natureza da condenação: a efetiva punição do causador do prejuízo e a garantia de um ressarcimento adequado à vítima.

Diante dessas ponderações, julgo legítima uma fixação indenizatória na quantia de R$ 1.000,00 (mil reais), conforme precedentes desta E. Câmara Especializada.

Sobre esse montante, deverá incidir os juros de mora, contados da data do evento danoso, nos termos da Súmula n° 54 do STJ, além de correção monetária (IPCA-E), desde a data do arbitramento do valor da indenização, no caso, data da publicação da sentença, conforme estabelecido na súmula 362 do STJ, considerando as previsões do Provimento Conjunto n° 06/2009 do Egrégio TJPI.

Dispositivo

Do exposto, conheço da apelação cível, para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, reformando a sentença recorrida tão somente quanto à condenação da parte apelada ao pagamento de danos morais, no valor R$ 1.000,00 (um mil reais).

Em razão do parcial provimento à apelação interposta pela parte autora, deixo de majorar os honorários sucumbenciais arbitrados na origem.

É como voto.

Sessão Ordinária do Plenário Virtual, realizada no período de 06 a 13 de novembro, da 2ª Câmara Especializada Cível, presidida pelo Exmo. Sr. Des. Manoel de Sousa Dourado.

Participaram do julgamento os Exmos. Srs. Des. José James Gomes Pereira, Des. Manoel de Sousa Dourado e Des. José Wilson Ferreira de Araújo Júnior.

Impedido/Suspeito: Não houve.

Presente o Exmo. Sr. Dr. Antônio de Pádua Ferreira Linhares, Procurador de Justiça.

SALA DAS SESSÕES VIRTUAIS DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, Teresina, 13 de novembro de 2023.



Desembargador José Wilson Ferreira de Araújo Júnior

- Relator -


Detalhes

Processo

0804337-75.2021.8.18.0037

Órgão Julgador

Desembargador JOSÉ WILSON FERREIRA DE ARAÚJO JÚNIOR

Órgão Julgador Colegiado

2ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

JOSE WILSON FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR

Classe Judicial

APELAÇÃO CÍVEL

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Seguro

Autor

FRANCISCA ALVES DA SILVA NASCIMENTO

Réu

BANCO BRADESCO S.A.

Publicação

24/11/2023