Decisão Terminativa de 2º Grau

Procuração 0757307-87.2023.8.18.0000


Decisão Terminativa

poder judiciário 
tribunal de justiça do estado do piauí
GABINETE DO Desembargador MANOEL DE SOUSA DOURADO

PROCESSO Nº: 0757307-87.2023.8.18.0000
CLASSE: AGRAVO DE INSTRUMENTO (202)
ASSUNTO(S): [Procuração]
AGRAVANTE: MARIA DE LOURDES DE JESUS NUNES
AGRAVADO: BANCO BRADESCO S.A.


AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÃO QUE DETERMINOU A JUNTADA DO CONTRATO E DOS EXTRATOS BANCÁRIOS PELA PARTE AUTORA. NÃO HOUVE REDISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA, E SIM ATRIBUIÇÃO. HIPÓTESE NÃO ELENCADA NO ART. 1015 DO CPC. RECURSO NÃO CONHECIDO. 


DECISÃO TERMINATIVA

Trata-se de AGRAVO DE INSTRUMENTO interposto por MARI DE LOURDES DE JESUS NUNES contra decisão proferida pelo MM. Juízo da 2.ª Vara da Comarca de Campo Maior – PI nos autos da AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO CC REPETIÇÃO DE INDÉBITO, CUMULADA COM DANOS MORAIS (Processo 0801494-05.2023.8.18.0026) proposta pela parte agravante contra o BANCO BRADESCO S.A., parte agravada.

A decisão consiste, essencialmente, em determinar que a parte agravante juntasse aos autos o instrumento contratual, ou documento equivalente, referente ao negócio jurídico apontado, bem como os extratos bancários de sua conta, para fins de comprovação da ausência de depósito da quantia que afirma não ter recebido 

Irresignada, a apelante interpôs o presente recurso, com pedido de efeito suspensivo ativo, para que seja determinada a inversão do ônus da prova e o regular prosseguimento do feito.

No mérito, pede o provimento do recurso para reformar definitivamente a decisão guerreada.

É o relatório.

DECIDO.

A parte agravante alega que houve redistribuição do ônus da prova, pois entende que a instituição financeira deveria juntar os referidos extratos bancários.

Contudo, verifica-se que, neste caso, a decisão não versa a respeito de redistribuição do ônus da prova, mas sim de atribuição do ônus probatório ao próprio autor, situação em que a legislação vigente inadmite agravo de instrumento.

Realmente, é taxativo o rol das hipóteses de cabimento do mencionado recurso constante do art. 1.015, do CPC, in verbis:

Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:

I - tutelas provisórias;

II - mérito do processo;

III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem;

IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica;

V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;

VI - exibição ou posse de documento ou coisa;

VII - exclusão de litisconsorte;

VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio;

IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;

X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;

XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1o;

XII – (VETADO);

XIII - outros casos expressamente referidos em lei.

Parágrafo único. Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário.

No caso em tela, não há que se falar em redistribuição do ônus da prova, pois quem tem o ônus de provar é o autor. Assim, entendo que a decisão do magistrado visou a atribuição do ônus probatório ao autor, com intuito de provar as alegações trazidas na inicial. A alternativa seria, portanto, o agravante suscitar a matéria em eventual apelo, como preliminar, ou nas contrarrazões, consoante o disposto no art. 1.009, §1º, também do CPC.

A taxatividade em comento, por sua vez, segundo a doutrina e jurisprudência pátria, reflete a intenção do legislador de abandonar o sistema da excessiva recorribilidade das decisões interlocutórias, outrora usual na fase de conhecimento. 

Implica dizer que a regra passou a ser aguardar-se a prolação da sentença, para que o eventual inconformismo da parte sucumbente seja aviado, mediante recurso cabível e oportuno.

É certo que a jurisprudência pátria, excepcionalmente, admite o agravo de instrumento em situações não previstas naquele rol, mitigando-o, como se pode inferir dos arestos seguintes, verbis:


PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DO ART. 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO DE INSTRUMENTO. NÃO INCLUSÃO NO ROL DO ART. 1.015 DO CPC/2015. TAXATIVIDADE MITIGADA. MODULAÇÃO DOS EFEITOS. TEMA N. 988/STJ. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA PROFERIDA ANTES DO REFERIDO JULGADO. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADO.

1. [omissis]

2. Esta Corte Superior, no julgamento do REsp 1.696.396/MT, de relatoria da Min. Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe 19/12/2018, firmou o entendimento de que o rol do art. 1.015 do CPC é de taxatividade mitigada, por isso admite a interposição de agravo de instrumento quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de apelação. Na oportunidade, os efeitos da tese jurídica foram modulados a fim de aplicá-la somente às decisões interlocutórias proferidas após a publicação do referido acórdão.

3. (omissis).

4. (omissis).

5. Agravo interno não provido.

(AgInt no REsp 1886363/RJ, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 26/04/2021, DJe 28/04/2021).

Como consequência lógica, conclui-se que as matérias que não estão arroladas no dispositivo de lei não são passíveis de preclusão, podendo ser objeto de posterior revisão pelo órgão colegiado, quando do julgamento de eventual recurso de apelação. Aplicando-se a nova orientação ao caso em comento, mostra-se impositivo o não conhecimento do recurso.

Diante do exposto, NÃO CONHEÇO do AGRAVO DE INSTRUMENTO em razão de sua manifesta inadmissibilidade, motivo pelo qual, monocraticamente, DENEGO-LHE seguimento, conforme disposto no art. 932, inc. III, do CPC.

Transitada em julgado esta decisão, arquivem-se os autos, dando-se as baixas devidas.

Sem custas.

Intimem-se e cumpra-se.


Teresina, datado e assinado eletronicamente.


Desembargador MANOEL DE SOUSA DOURADO

Relator

(TJPI - AGRAVO DE INSTRUMENTO 0757307-87.2023.8.18.0000 - Relator: MANOEL DE SOUSA DOURADO - 2ª Câmara Especializada Cível - Data 01/08/2023 )

Detalhes

Processo

0757307-87.2023.8.18.0000

Órgão Julgador

Desembargador MANOEL DE SOUSA DOURADO

Órgão Julgador Colegiado

2ª Câmara Especializada Cível

Relator(a)

MANOEL DE SOUSA DOURADO

Classe Judicial

AGRAVO DE INSTRUMENTO

Competência

Câmaras Cíveis

Assunto Principal

Procuração

Autor

MARIA DE LOURDES DE JESUS NUNES

Réu

BANCO BRADESCO S.A.

Publicação

01/08/2023