TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0801181-19.2022.8.18.0078
APELANTE: RAIMUNDA LIMA DOS SANTOS SILVA
Advogado(s) do reclamante: HENRY WALL GOMES FREITAS REGISTRADO(A) CIVILMENTE COMO HENRY WALL GOMES FREITAS, LUIS ROBERTO MOURA DE CARVALHO BRANDAO
APELADO: BANCO PAN S.A.
REPRESENTANTE: BANCO PAN S.A.
Advogado(s) do reclamado: PAULO ROBERTO JOAQUIM DOS REIS
RELATOR(A): Desembargador JOSÉ RIBAMAR OLIVEIRA
EMENTA: CÍVEL. CONSUMIDOR. PROCESSO CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL EM AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO CONTRATUAL C/C PEDIDO DE REPETIÇÃO DO INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. APLICAÇÃO DO CDC. PRESCRIÇÃO TRIENAL AFASTADA. 1. Aplicação do CDC ao caso. Medida que se impõe ante a hipossuficiência da parte contratante. Descabida aplicação de prescrição trienal ao caso. Não ocorrência de prescrição quinquenal. 2. Sentença anulada. Necessidade de devolução do feito à origem para o seu devido processamento. 3. Recurso conhecido e provido.
Relatório
Trata-se de APELAÇÃO CÍVEL interposta por Raimunda Lima dos Santos Silva em face de sentença proferida pelo MM. Juiz da 1ª Vara da Comarca de Valença – PI nos autos do Processo nº 0801181-19.2022.8.18.0078 na qual acolheu a prescrição e julgou liminarmente improcedente a demanda.
Em Sentença ID 8458380 o MM. Juiz de origem julgou improcedentes os pedidos da parte requerente e extinguiu o feito com resolução do mérito, na forma do Artigo 487, II, do Código de Processo Civil. Também fixou custas e honorários sucumbenciais em 10% sobre o valor da causa sob condição suspensiva, nos termos do Art. 98, § 3º do Código de Processo Civil.
Insatisfeita com a sentença, a parte autora interpôs recurso de Apelação Cível ID 8458383 apresentando uma síntese de demanda e destacando os termos da sentença recorrida. Em seguida alega que a relação jurídica ora objeto de análise tem natureza de trato sucessivo, conforme entendimento pacífico do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí e que, com tal, o marco inicial para a contagem do prazo prescricional para a propositura da demanda ora em curso é a data do último desconto realizado. Defende que, em observância ao entendimento ora consolidado, não ocorreu prescrição na demanda. Ao final, requer seja conhecido e provido o recurso para anular a sentença e determinar a devolução dos autos ao Juízo de origem para o devido processamento da demanda com a sua devida instrução processual.
Devidamente intimada, a parte apelada apresentou Contrarrazões ID 8458388 trazendo uma síntese da demanda e arguindo a incidência da prescrição. No mérito defende a plena validade do contrato e a ausência de ilicitude na relação contratual celebrada entre as partes. Sustenta a inexistência de defeito na prestação do serviço e o descabimento da condenação em reparação por danos morais e, em caso de condenação, sustenta a necessidade de observância da proporcionalidade e razoabilidade na fixação de valores a título de danos morais. Ao final, requer seja negado provimento ao recurso e mantida a sentença.
Em Decisão ID 8549274 o recurso fora recebido no duplo efeito e não fora encaminhado ao Ministério Público Superior em observância ao Ofício Circular nº 174/2021.
É o relatório.
VOTO
Preliminarmente, verificam-se preenchidos todos os pressupostos de admissibilidade, razão pela qual conheço do recurso e passo à análise de mérito.
Observo que a hipótese dos autos representa uma relação jurídica de consumo e está sujeita à disciplina do Código de Defesa do Consumidor (CDC), conforme se extrai dos artigos 2º e 3º, in verbis:
Código de Defesa do Consumidor:
Art. 2°. Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
Art. 3°. Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços.
Além disso, destaco a inteligência da Súmula 297 do STJ que corrobora a aplicabilidade do CDC às instituições financeiras. Considerando esses argumentos e por serem de ordem pública as normas protetivas do consumidor (art. 5º, XXXII, CF), admite-se a aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor ao presente recurso. Diante disso, aplica-se o disposto no art. 27 do CDC, vejamos:
Código de Defesa do Consumidor:
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria.
Partindo da legislação, o prazo prescricional ocorre em 05 (cinco) anos, a contar da ciência do evento danoso pela parte apelante/autora. Além disso, a relação jurídica de empréstimo bancário tem natureza de trato sucessivo, razão pela qual o prazo prescricional tem como termo inicial o último desconto, haja vista que a violação do direito ocorre de forma contínua.
No presente caso, considerando que não transcorreu o período de cinco anos desde a ocorrência do último desconto na conta da parte apelante/requerente não, não há que se falar em prescrição. Esse é o entendimento consolidado na jurisprudência deste Egrégio Tribunal, vejamos:
APELAÇÃO CÍVEL. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL. ARTIGO 27 CDC. PESSOA IDOSA E SEMI-ANALFABETA. NULIDADE DO CONTRATO. SENTENÇA ANULADA. RETORNO DOS AUTOS. 1. Alega que a sentença recorrida deve ser reformada, pois as prestações discutidas são de trato sucessivo, que se renovam a cada mês que é descontado o empréstimo, logo o contrato sendo firmado em Dezembro de 2010 e excluído os descontos em 26/10/2012, a ação foi ajuizada dentro do prazo legal, antes do transcurso do prazo prescricional. 2. Cumpre ressaltar que, a relação jurídica de empréstimo bancário é de trato sucessivo, contando-se o prazo prescricional a partir do último desconto, ou seja, a violação do direito ocorre de forma contínua, mês a mês, o termo inicial da prescrição é a data correspondente ao vencimento da última parcela e não ao da primeira. 3. Julgo procedente em parte a apelação para não se aplicar os efeitos da prescrição quinquenal e com isso o retorno dos autos ao juízo a quo para instrução regular do processo, anulando a sentença atacada. (TJPI | Apelação Cível Nº 2018.0001.003736-2 | Relator: Des. José Wilson Ferreira de Araújo Júnior | 2ª Câmara Especializada Cível | Data de Julgamento: 23/10/2018).
Com efeito, entendo pela anulação da sentença vergastada, a qual reconheceu indevidamente a aplicação da prescrição ao caso em análise. Verifico, inclusive, que não fora dada abertura de prazo para manifestação das partes a respeito da referida matéria de ordem pública, o que viola a previsão do artigo 10 do CPC:
Código de Processo Civil:
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Destarte, entendo completamente descabida a argumentação de prescrição aplicada pelo magistrado de origem, devendo ser anulada a sentença.
Isto posto, ante as razões acima consignadas, conheço do recurso para dar-lhe provimento no sentido de afastar a prescrição anulando a sentença e determinando o retorno dos autos ao Juízo de origem para o devido processamento do feito.
ACÓRDÃO
CERTIFICO que a Egrégia 4ª Câmara Especializada Cível , presidida pelo Exmo. Sr. Des. JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA, ao apreciar o processo em epígrafe, em sessão ordinária realizada nesta data, proferiu a seguinte DECISÃO: Acordam os componentes da Egrégia 4ª Câmara Especializada Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, Por maioria, conhecer e dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator..
Participaram do julgamento os Exmos(as). Srs(as).: FERNANDO LOPES E SILVA NETO, JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA e JOSÉ RIBAMAR OLIVEIRA.
Acompanhou a sessão, o(a) Exmo(a). Sr(a). Dr(a). TERESINHA DE JESUS MARQUES, Procurador(a) de Justiça.
SALA DAS SESSÕES DO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ, em Teresina, 19 de dezembro de 2023.
DES. JOSÉ RIBAMAR OLIVEIRA
RELATOR
0801181-19.2022.8.18.0078
Órgão JulgadorDesembargador ANTÔNIO REIS DE JESUS NOLLETO
Órgão Julgador Colegiado4ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)JOSE RIBAMAR OLIVEIRA
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalEmpréstimo consignado
AutorRAIMUNDA LIMA DOS SANTOS SILVA
RéuBANCO PAN S.A.
Publicação19/12/2023