TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUÍ
ÓRGÃO JULGADOR : 4ª Câmara Especializada Cível
APELAÇÃO CÍVEL (198) No 0804045-09.2020.8.18.0140
APELANTE: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado(s) do reclamante: PAULO EDUARDO PRADO, KARINA DE ALMEIDA BATISTUCI
APELADO: JOANA MARIA DA COSTA ALVARENGA
REPRESENTANTE: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado(s) do reclamado: BRENO AUGUSTO CASTELO BRANCO BARROS
RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
EMENTA
PROCESSUAL CIVIL – CONTRATO BANCÁRIO - EMPRÉSTIMO CONSIGNADO – SERVIDORA PÚBLICA – DESCONTOS LIMITADOS A 30% (TRINTA POR CENTO) – PRECEDENTES DO STJ - RECURSO IMPROVIDO.
01. É firme o entendimento jurisprudencial, segundo o qual, em virtude da natureza alimentícia do salário e do princípio da razoabilidade, os empréstimos, mediante descontos na folha de pagamento do servidor público, devem ficar limitados a 30% (trinta por cento) de sua remuneração. Precedentes do STJ.
2. Sentença mantida.
RELATÓRIO
APELAÇÃO CÍVEL (198) -0804045-09.2020.8.18.0140
Origem:
APELANTE: BANCO BRADESCO S.A.
Advogados do(a) APELANTE: KARINA DE ALMEIDA BATISTUCI - PI7197-A, PAULO EDUARDO PRADO - SP182951-A
APELADO: JOANA MARIA DA COSTA ALVARENGA
REPRESENTANTE: BANCO BRADESCO S.A.
Advogado do(a) APELADO: BRENO AUGUSTO CASTELO BRANCO BARROS - PI18751-A
RELATOR(A): Desembargador RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
Em exame apelação intentada, a fim de reformar a sentença exarada nos autos da ação revisional de contrato, c/c obrigação de fazer e pedido de antecipação de tutela, aqui versada, proposta por JOANA MARIA DA COSTA ALVARENGA, ora apelada, contra o BANCO BRADESCO S.A., ora apelante.
A sentença consiste, essencialmente, em julgar procedente ação, determinando que o apelante limite as parcelas do empréstimo que fizera à apelada a 30% (trinta por cento) da renda mensal desta. Condena-o, ainda, no pagamento das custas processuais e em honorários advocatícios, os quais fixa em 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da condenação.
Inconformado, o apelante alega, em suma, a inexistência de ilicitude no negócio bancário celebrado, bem como que a apelada assinara o acordo de livre e espontânea vontade, aquiescendo, inclusive, com os juros e demais encargos que cobra. Afirma não existir até o momento previsão legal, para modificar as cláusulas avençadas ou alterar a política econômica, de sorte a tornar excessivamente onerosa a obrigação da apelada ou causar desequilíbrio no contrato, únicos fatores que tem como capazes de autorizar a revisão. Requerendo a observância do princípio do pacta sunt servanda, clama, finalmente, pela reforma da sentença, com a consequente improcedência da ação Regularmente intimada, a apelada deixou correr in albis o prazo para apresentar as contrarrazões. Sem opinativo do Parquet. É o quanto basta relatar, a fim de se passar ao voto.
VOTO
Senhores julgadores, inegável que a apelada contraíra empréstimo consignado junto ao apelante, consentindo com descontos que poderiam alcançar mais de 60% (sessenta por cento) dos seus vencimentos mensais. Contudo, a sua aquiescência e o fato de não se poder mesmo afirmar que fora forçada a aceitar o empréstimo não retiram a certeza de que esse percentual é inconcebível, porquanto compromete a sua subsistência.
Daí, certamente, a razão pela qual o STJ há muito vem decidindo que o empréstimo consignado não pode ultrapassar a 30% (trinta por cento) da remuneração mensal do devedor. Neste sentido, os seguintes precedentes, in verbis:
RECURSO ORDINÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. LIMITE DE 20% DA MARGEM CONSIGNÁVEL. AUTONOMIA ADMINISTRATIVA DO ESTADO. AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO.
1. A jurisprudência desta Corte Superior consolidou que o empréstimo consignado na folha de pagamento do servidor público não pode ultrapassar a 30% de seus vencimentos.
2. Tal entendimento foi construído pelo STJ com o fito de resguardar a dignidade do servidor como consectário da natureza alimentar de seus vencimentos. Nessa moldura, o limite a menor do percentual de empréstimo estabelecido pelo Estado não é contrário ao sedimentado neste Superior Tribunal.
3. O Estado detém a competência administrativa para editar normas que versem sobre a política de remuneração de seus servidores, ante o princípio da autonomia estadual conferida pela Carta Magna.
4. Recurso ordinário improvido.
(RMS 31.713/AC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 11/09/2015).
ADMINISTRATIVO E CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. MILITAR DAS FORÇAS ARMADAS. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. LIMITAÇÃO DO PERCENTUAL MÁXIMO DE DESCONTO A TÍTULO DE EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. VIOLAÇÃO DO ART. 535, II, DO CPC. INDICAÇÃO GENÉRICA. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. PERCENTUAL MÁXIMO. INAPLICABILIDADE DAS DISPOSIÇÕES DA LEI 10.820/2003 E DO DECRETO 6.386/2008. INCIDÊNCIA DO ART. 14, § 3°, DA MEDIDA PROVISÓRIA 2.215-10/2001. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO.
(…)
4. É firme o entendimento no âmbito do STJ no sentido de que frente a natureza alimentar do salário e do princípio da razoabilidade, os empréstimos com desconto em folha de pagamento devem limitar-se a 30% (trinta por cento)dos vencimentos do trabalhador. Interpretação das disposições da Lei 10.820/2003 e do Decreto 6.386/2008, que regulamentou o art. 45 da Lei8.112/1990.
(...)
(REsp 1521393/RJ, Rel. Min. Mauro Campbell, Segunda Turma, DJe 12/05/2015).
EX POSITIS e sendo o quanto basta asseverar, VOTO para que seja DENEGADO provimento à apelação, mantendo-se incólume a decisão hostilizada, mercê dos seus próprios e jurídicos fundamentos, devendo-se, ainda, em atenção ao artigo 85, § 11, do Código de Processo Civil, majorar de 10% para 15%, os honorários advocatícios com os quais terá de arcar o apelante.
Teresina, 10/07/2023
0804045-09.2020.8.18.0140
Órgão JulgadorDesembargador JOÃO GABRIEL FURTADO BAPTISTA
Órgão Julgador Colegiado4ª Câmara Especializada Cível
Relator(a)RAIMUNDO NONATO DA COSTA ALENCAR
Classe JudicialAPELAÇÃO CÍVEL
CompetênciaCâmaras Cíveis
Assunto PrincipalRevisão do Saldo Devedor
AutorBANCO BRADESCO S.A.
RéuJOANA MARIA DA COSTA ALVARENGA
Publicação10/07/2023